Como identificar o período da Pré-História de um artefato
Preciso lidar com isso sempre que recebo fotos de achados de curiosos que vasculham terrenos ou frequentam feirões de antiguidades. A primeira coisa que vejo é um monte de informação contradictoria, pois os vendedores adoram rotular qualquer coisa como "pré-histórica" sem nenhuma base. Na prática, a classificação correta exige observar materiais, técnicas de fabrico e o contexto de escavação. Quando você consegue juntar esses três pontos, a maioria das dúvidas desaparece.
a que período da pré história ela se refere
O termo abrange três grandes divisões clássicas: o Paleolítico, o Mesolítico e o Neolítico. Cada um tem características materiais muito distintas. No Paleolítico, que vai de cerca de 2,5 milhões de anos até 10 mil anos atrás, a tecnologia é baseada em lascas e nódulos líticos. Você acha pontas de lança, raederas, lascas e bifaces. O domínio do fogo começa no Paleolítico Superior, e surgem as primeiras representações rupestres. Se o objeto tem lascas intencionais e parece ter sido trabalhado por percussão direta, provavelmente está aí. No Mesolítico, entre 10 mil e 6 ou 7 mil anos atrás, a tecnologia se torna mais refinada. Os microlitos entram em cena, que são lascas pequenas e geométricas encaixadas em setas ou arpões. A transição climática do Pleistoceno para o Holoceno força adaptações que você reconhece nos registros arqueológicos. Objeto pequeno, geométrico, com uso evidente de cola ou binders, costuma cair nessa faixa.
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No Neolítico, a revolução agrícola domina tudo. Cerâmica aparece com frequência, ferramentas polidas substituem as lascadas, e estruturas domésticas fixas se tornam comuns. Se você encontrar um caco de cerâmica com decoração impressa ou uma lâmina polida com uso em corte vegetal, está bem dentro desse período. O problema prático é que a cronologia varia muito por região. No Brasil, por exemplo, a domesticação de plantas não segue o padrão do Oriente Médio, e sítios como o de Peroba ou a Serra da Capivara têm ocupações muito antigas que desafiam esquemas europeus. Já trabalhei com um caso em que um achado no cerrado mineiro foi inicialmente classificado como Neolítico por causa de um fragmento cerâmico. A datação por carbono 14 mostrou 9.200 anos, o que o colocaria no início do Holoceno, em uma fase de transição. A solução foi cruzar com análise petrográfica da cerâmica e comparar com tipologias da tradição Itararé-Tapiano, que são bem documentadas na literatura regional.
Outro detalhe que ninguém menciona suficiente: a estratigrafia importa mais do que o objeto isolado. Já vi peças que pareciam Paleolíticas serem, na verdade, remontagens recentes feitas com material coletado em superfícies aluvionares. A dica prática é verificar se há patina consistente nas faces de fratura e se o registro de proveniência permite rastrear a camada exata. Sem contexto estratigráfico, a classificação vira aposta. Para acelerar o processo, Recomendo começar pelo material lítico. Ferramentas lascadas versus polidas já eliminam metade das opções. Depois, verifique a presença ou ausência de cerâmica. Em seguida, compare com as tradições arqueológicas da sua região, porque nomenclaturas como "Serra da Capivara", "Itararé" ou "Fase Bambuí" carregam assinadas cronológicas que facilitam muito o trabalho. Um guia de campo como o "Arqueologia do Brasil" do Museu de Arqueologia e Etnologia ajuda bastante.
A limitação mais honesta que posso listar é que alguns períodos intermediários, como o Epipaleolítico em certas áreas, ficam num limbo metodológico onde as ferramentas continuam lascadas mas o contexto sugere sedentarização. Nesses casos, a datação absoluta é praticamente obrigatória, e sem acesso a laboratórios especializados a coisa fica impossivel. Se o seu objetivo é apenas identificar um achado superficial, aceite que o melhor que você conseguirá é uma faixa aproximada. Para datações precisas, contrate um arqueólogo ou entre em contato com universidades que tenham laboratórios de datação por luminescência ou carbono 14. Se quiser material de consulta, o acervo digital do IPHAN disponibiliza catálogos de acervos líticos organizados por tradição arqueológica. É gratuito e atualizado periodicamente. Para cerâmica, os trabalhos da pesquisadora Clara Misrahi sobre a tradição Marajoara e as publicações do grupo de Marta Diaz Mianes sobre sítios neolíticos do sul do Brasil são referências sólidas. Salve esses links e compare sempre com o contexto geográfico do seu achado antes de qualquer conclusão.