Como identificar e coletar artropodes em campo sem errar
O primeiro erro que eu vejo todo mundo cometer é tratar todos os artrópodes como se fossem insetos. Eles não são. Isso parece bobo, mas muda completamente a abordagem que você usa no campo. Um aranha não precisa de uma armadilha de panga, e um escorpião foge de qualquer rede que você estender. Comece entendendo isso antes de gastar dinheiro com material que não vai funcionar.Eu passei anos fazendo coleta em campos abertos do cerrado quando descobri que meu protocolo padrão estava capturando apenas a fração visível da comunidade. Aquele método que todo mundo repete de usar pote com etanol enterrado no solo simplesmente ignora a maior parte dos artrópodes estratífagos que vivem acima da superfície durante a noite. O resultado? Seus dados ficam enviesados e sua lista de espécies é incompleta.
Artrópodes insetos: separando o que realmente importa
Todos os insetos são artrópodes, mas a recíproca não é verdadeira. Quando alguém pergunta sobre artropodes insetos, normalmente está interessado nos insetos mesmo — Coleoptera, Hymenoptera, Diptera — mas a maioria dos protocolos de levantamento captura também Arachnida, Diplopoda, Chilopoda, Branchiopoda e diversos outros grupos que precisam ser separados na estação. Eu trabalhei num projeto onde o orçamento era apertado e precisávamos processar mais de 40 mil indivíduos. A primeira tentativa foi classificar tudo em campo. Isso não funciona na prática. Cada espécime de aranha exige tempo de microscópio, cada milípede é confuso pra caramba se você não tiver referência taxonômica, e no fim do dia você só consegue entregar uma fração do que coletou. O que eu fiz foi separar os lotes por grupo na própria planilha de campo. Insecta numa pasta, Arachnida noutra, e assim por diante. A classificação detalhada fica só para os insetos, e os demais vão pra uma lista simplificada com foto e local. Isso reduziu o tempo de processamento de cerca de 3 semanas pro total pro pessoal pra uns 6 dias.
O problema mais chato que eu encontrei foi com formigas. Elas entram em qualquer armadilha, inclusive as que não são feitas pra elas. Eu tinha dois armários de gavetas cheios de amostras de pan-mude que estavam praticamente ilegíveis porque a mistura de Coleoptera com milhares de formigas trituradas transformava tudo numa massa intransponível. A solução foi criar uma etapa de peneiramento mecânico com sílica de grão grosso antes de fixar no etanol. Peneira de 2mm no campo mesmo, descartando o pó fino que é quase tudo formiga. Depois disso, Coleoptera e Hymenoptera saem limpos. Se alguém não tiver acesso a peneiras no campo, o álcool a 80% ajuda a diferenciar — formigas afundam rápido, insetos maiores flutuam.
Protocolo prático para coleta
Existem três métodos principais que eu recomendo usar em conjunto. Nenhum funciona bem sozinho. Rede de varredura: serve pra artrópodes arbóreos e herbáceos. A técnica correta é passar a rede em movimento de vaivém pelo folhagem, nunca bater forte — isso esmaga os espécimes e destrói peças anatômicas importantes pra identificação. Você para a rede, vira de cabeça pra baixo e escorra o conteúdo com um pincel macio pra um frasco. Frascos com álcool 70% funcionam. Frascos com etanol 96% matam alguns grupos delicados como efímeras e besouros com elytra fino.
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Armadilhas de queda (pitfall traps): potes enterrados até a boca com líquido conservante. É bom pra coletas passivas de epigeu. O problema é que chuva forte dilui o etanol e você perde material. Eu sempre uso uma tampa suspensa a 3cm do pote, com pregos travando, pra evitar chuva direta. Sem essa proteção, em uma chuvada de verão você recolhe potes com solução aquosa e tudo dissolvido. Lâmpada UV (suction funnel): o clássico pano branco iluminado à noite atrai Lepidoptera, Neuroptera e muitos Coleoptera. Essa é a melhor forma de capturar insetos noturnos. O custo é baixo — uma lâmpada UV-A de 15W custa cerca de R$40 em qualquer loja de insumos elétricos. O funil de Berlese modifica esse método pra solo, e ele funciona muito bem pra artrópodes estratífagos que você não pegaria de jeito nenhum com rede ou armadilha de queda.
Fixação e armazenamento
Etanol 70% é o padrão. Etanol 96% é pior pra a maioria dos insetos — enrijece peças anatômicas de forma irreversível. Para estudos de DNA, use etanol 96% trocado a cada 24h, mas saiba que isso compromete a morfologia. Se o seu foco é descrição morfológica, não misture os protocolos. Espécie diferente, tubo diferente. Eu já vi gente trocar etanol de tubo pra tubo economizando tempo e acabando com material tipo. Uma troca de solução custaria 20 minutos no máximo. Para coleção seca, alfinetes entomológicos de aço inoxidável são o padrão. Alfinete tamanho 000 pra traças, tamanho 4 pra besouros grandes. A posição padrão do alfinete varia por ordem: na maioria dos hemípteros e coleópteros, o alfinete entra pela região direita do pronoto, ligeiramente deslocado pra linha mediana. Em lepidópteros, o alfinete passa pelo tórax, centralizado. Se o alfinete entrar errado, o espécime vira e você perde caracteres diagnósticos.
O que funciona e o que falha
Armadilhas de cor amarela funcionam bem pra Aphidoidea, Trips e pequenos Hymenoptera parasitas. Mas elas são cegas pra a maioria dos predadores e detrívoros. Se o seu objetivo é entender a comunidade completa de artropodes insetos de uma área, depender só de armadilhas cromáticas te dá uma visão distorcida e muito truncada da realidade. O mesmo vale pra armadilhas de feromônio — extremante eficientes pra espécies-alvo, completamente inúteis pra qualquer coisa fora do grupo que você está mirando. O que eu aprendi na prática é que o método mais confiável é a combinação de pelo menos três técnicas diferentes no mesmo período. Um levantamento de duas semanas com rede, armadilha de queda e lâmpada UV cobre cerca de 80% da diversidade de insetos de uma área tropical. O restante depende de técnicas especializadas como aspiração de Solo com Winkle, fumigação de copa com inseticida, ou coleta direta com pinça. Cada uma dessas técnicas complementares adiciona semanas ao projeto e aumenta o custo significativamente, mas se você precisa de dados publicáveis é o caminho.
Se o seu objetivo é apenas mapear a presença de pragas agrícolas ou vetores de doença, aí sim os métodos focalizados fazem sentido. O resto é trabalho de pesquisa ecológica mesmo, e exige tempo, kit básico completo e paciência com processamento posterior. Para quem quer baixar um protocolo completo em PDF com tabelas de dimensionamento de armadilhas, tamanhos de alfinetes por ordem, e planilha de coleta padronizada, eu disponibilizo o material em este link. O arquivo foi atualizado pela última vez em março de 2025 e inclui a correção sobre a concentração de etanol que eu mencionei aqui.