As Capitanias Hereditárias - BRASIL COLÔNIA: As Capitanias Hereditárias e seus Donatários
BRASIL COLÔNIA: As Capitanias Hereditárias e seus Donatários

Como documentar e compreender as capitanias hereditárias na pratica

Eu passei cerca de tres semanas rastreando uma sesmaria que se originava de uma capitania de Sao Vicente para um cliente que queria verificar a cadeia de dominio de uma propriedade rural no litoral paulista. O problema era que o registro mais antigo encontrado num cartorio de Santos era de 1847, mas a sesmaria original tinha sido concedida em 1632 pelo dono da capitania. Voce precisa entender como essa estrutura funcionava antes de tentar reconstruir alguma coisa. As capitanias hereditarias foram o modelo de divisao territorial adotado pela Coroa portuguesa no Brasil colonial a partir de 1534, quando D. Joao III dividiu o territorio em quinze lotes costeiros, cada um com aproximadamente cinquenta léguas de largura. O sistema nao funcionou bem como planejado. Somente as capitanias de Pernambuco e Brasilia tiveram sucesso relativo nos primeiros vinte anos, principalmente porque os donatarios tinham autonomia suficiente para atrair investidores holandeses e franceses dispostos a financiar o plantio de cana-de-acucar sem esperar por recursos vindos de Lisboa.

Historia e funcionamento pratico das capitanias hereditárias

O donatario recebia uma carta de doacao que transferia o dominio util da terra, mas nao a soberania. A coroa mantinha o regolio, o quinto sobre minerais, e o direito de nomear oficiales da coroa como o ouvidor-mor. Na pratica, isso criava uma situacao onde o donatario controlava aistribuicao de terras e aJustiça via sesmarias, mas nao podia cobrar impostos reais nem manter exercito proprio sem autorizacao explicita. A maioria dos donatarios nem sequer viajou ao Brasil. Francisco Pereira Coutinho, primeiro dono da capitania de Bahia, foi um dos poucos que realmente tomou posse, e mesmo assim morreu esquartejado pelos indios tupinambaes em 1549. O que pouca gente leva em conta e que as fronteiras das capitanias nunca foram delimitadas com precisao geografica no inicio. Os cartas de doacao descreviam limites usando marcos naturais: rio tal, monte tal, linha que ia do litoral ate o "mar oceano" (o interior, basicamente). Isso gerou seculos de conflitos de fronteira entre capitanias vizinhas, como o disputa entre as capitanias de Rio de Janeiro e Sao Vicente que so foi resolvida no periodo pombalino com a criacao da Capitania Real do Rio de Janeiro em 1709, separando-a administrativamente de Sao Vicente.

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Uma dificuldade concreta que eu encontrei: quando voce tenta rastrear a origem de uma sesmaria, a primeira armadilha e que muitas cartas de sesmaria nao citam qual capitania a terra pertencia. Elas dizem apenas "teras devolutas na costa do Brasil". A solucao que eu desenvolvi foi cruzar as coordenadas aproximadas do lote com os registros de atribuicao de capitania do Periodo pombalino (pos-1750), quando as fronteiras foram finalmente mapeadas com maior precisao, e depois retroceder usando os registros das sesmarias subsequentes que herdaram aquela divisao administrativa. Funciona em cerca de sessenta por cento dos casos, mas o restante exige consulta aos processos judiciais coloniais no Arquivo Nacional ou na Torre do Tombo em Lisboa. Um detalhe contra-intuitivo sobre o sistema: a transmicao hereditaria das capitanias nao era simplesmente pai para filho mais velho. A carta de doacao original permitia que o donatario designasse seu sucessor, desde que o sucessor fosse catolico romano e leal a coroa. Quando um donatario falecia sem hereddeiro direto, a coroa podia either confirmar o hereddeiro indicado pelo defunto ou reunir a capitania ao domínio real, como aconteceu com a capitania de Porto Seguro em 1579, que foi incorporada a Coroa apos a morte de Pero de Campos Tourinho sem hereddeiros legitimos. Essas reunioes ao domínio real criaram uma segunda camada de complexidade: as terras que retornavam a Coroa eram depois redistribuidas como sesmarias ordinarias, mas os direitos dos posseiros anteriores muitas vezes nao eram respeitados, gerando litigios que perduraram por decadas.

A grande limitacao desse metodo de pesquisa e que ele depende inteiramente da existencia de documentos. As capitanias do interior — especialmente as que hoje correspondem aos estados de Goias, Matto Grosso e Minas Gerais — tiveram documentação praticamente inexistente ate o seculo XVIII, quando as entradas e bandeiras comecaram a fixar registros. Se voce esta tentando rastrear origens de propriedades nessas regioes com base no sistema de capitanias hereditarias, voce vai se deparar com uma lacuna de pelo menos duzentos anos de documentação oficial. Nao ha workaround simples para isso, exceto confiar em testimonias orais familiares e documentos particulares, o que nao tem valor juridico em casos de disputa fundiaria contemporanea. O sistema de capitanias hereditarias foi oficialmente extinto em 1759, pelo ministro pombal, que confiscou todos os bens dos donatarios e transformou as capitanias em capitancias reias, administradas por corregedores nomeados pelo rei. Mas a transicao nao foi brusca. As estruturas locais de poder — incluindo a distribuicao de sesmarias e a autoridadede facto dos antigos donatarios ou seus descendentes — permaneceram inalteradas por decadas, porque nao havia numero suficiente de funcionarios reales para substituir toda a administracao colonial de uma vez. Em muitos lugares, os antigos donatarios simplesmente continuaram exercendo as mesmas funcoes, agora sob o titulo de proprietarios de terras com privilégios adicionais, ate o fim do periodo colonial.