Asa Branca Luiz Gonzaga Letra - Letra de Asa Branca - Luiz Gonzaga | PDF
Letra de Asa Branca - Luiz Gonzaga | PDF

Asa Branca: uma das letras mais importantes da música brasileira

"Asa Branca" foi composta por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira e lançada em 1947. É, sem exagero, uma das canções mais reconhecidas do repertório nacional. A letra retrata a vida no sertão nordestino, a seca, a partida e a esperança de retorno. Gonzaga nunca disse que era poeta — ele cantava o que via no dia a dia. O resultado foi algo muito mais duradouro do que hit de rádio.

asa branca luiz gonzaga letra: estrutura e significado

A canção segue uma estrutura simples de versos longos, com ritmo de baião, e é organizada em partes que contam uma narrativa lineares. O eu-lirico é um sertanejo que observa a natureza reagindo à falta de chuva — o sol escaldando, a terra rachada, o passarinho mudo — e decide deixar sua terra para tentar sobreviver em outro lugar. A promessa de volta aparece no final, com a chuva voltando. Um detalhe que poucos notam: o refrão "Era um branco assanhado / Entre as verde-poupas do mamoeiro / Fazia um "ui-uiá" / Cantando pelo sertão adentro" não é só descrição estética. O "asa branca" se refere ao pombo-patá (pataraia ou pombo-asa-branca, Columbina talasiroma), ave comum no semiárido brasileiro. O som "ui-uiá" imita o gorjear dela. Muita gente acha que é invenção poética, mas a ave realmente existe e seu canto é assim.

Outra observação técnica: a melodia é baseada na escala Mixolídia (sem a sétima grau), o que dá aquele tom característico, meio maior, meio melancólico. Isso explica por que a canção soa ao mesmo tempo alegre e triste, algo que Gonzaga explorava intencionalmente nos arranjos.

Letra completa de Asa Branca

Abaixo, a letra conforme publicada em Partituras e direitos autorais. Recomendo sempre conferir em fontes oficiais, pois há muitas versões adulteradas circulando pela internet. Quando olho os dias
Garoados entre os galhos secos
Dos coqueiros aniquilados
Em meio ao atoleiro
Da estrada de terra enlameada
Pensando no meu sertão
Nesse tempo de seca
Nesse tempo de peste
Sinto saudades
Daquele lindo azul
Do nosso céu
Com seu anilizado luar

Meu sertão não tem
Palmeiras
Não tem curvejas
Nem periquitos
De ouro verde e rubim
Meu sertão não tem
Mangueiras
Chupando mel
De abelhas nativas
Nem jilós nem jambolões
Mas lá vive o Meu Amor
E esse amor
É mais bonito que tudo isso aí
Eu já vi o sol
Nascer do mar
Pra trás das serra do Carmo
Pra trás das montanhas
No horizonte se perder
Eu já vi a Lua
No céu se espalhar
Pintando o chão
Num claro prateado luar
Eu já vi o passarinho
Voando pelo ar
Com seu vôo feliz
Gorjeando sem parar
Mas foi em vão
Que eu esperei
A pássaro e a estrela
E o Luar também
Porque ela sumiu

E quando vi
Na solidão
Ave e estrela e Luar
Desaparecer
Nessas terras a secar
Eu lembrei de você
Asa branca
Pombo patrão
Porque é que tu te arranchas
Bem longínquo do sertão
Tu também estás
Como eu
Vindo deixando o sertão

Antes eu dizia
Que tu eras um pássaro infiel
Mas hoje sei que tu não te arrepias
Como eu me arrepiarei
Um dia dessas
Também vou deixando a tua gaiola
Pra sempre eu irei embora
Não sei quando
Não sei aonde
Só sei que eu vou embora
Um branco assanhado
Entre as verde-poupas do mamoeiro
Fazia um ui uiá
Cantando pelo sertão adentro
Eu também cantava
Ao lado do teu canto
Mas um dia tu voaste
Pelo céu sem limites
E então ficou
Mais triste meu cantar

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O Sol se perdeu
Num nevoeiro
Sem luz no terreiro
Sem cor no flor do algodão
O gado morrendo
De sede e de fome
Sem erva verde
Nas picarras e nos valões
E eu na solidão
Dessa minha condição
Derramando lágrimas sem valor
Lavadeira que lava e molha
No vai e vem
Do regato de água cristalina
Que corre no fundo do vale
Lá vou eu pensando em ti
Nesse tempo de seca
Nesse tempo de peste
Que não me deixa viver

Quando eu falar
Que eu vou embora
Não adianta chorar
Não adianta dizer
Que o tempo que eu estou partindo
É o tempo da seca
Que é o tempo do frio
Que é o tempo do amor
Que a nossa terra
Floreça outra vez
E as águas das chuvas
Voltem a cair
E o nosso passarinho
Bem ao sol da manhã
Cante mais feliz

Que o nosso gado
Beba agua das calhas
E o nosso campo
Fique coberto de flores
E eu voltando do exilio
Cantando teus candieiros
No redemoinho de pó
Ah! Que saudade
Da terra seca
E do céu cor de anil
Da mata verde e do sol
Do rio caudaloso
E do nosso sertanejo
Batecendo o seu zabumba

Onde encontrar a letra original com segurança

O principal problema que encontrei quando ia montar o repertório da banda para um show em Caruaru foi que 3 das 5 lojas de partitura que consultei tinham versos trocados no segundo verso. Duas delas misturavam a versão do Luiz Gonzaga com a regravada pelo Milton Nascimento, e outra colocava "ui uiá" como "uioió". Acabei indo na fonte primária — a partitura publicada pela editora da Fundação Cultural Palmares — e comparei com o selo original da Columbia de 1947. O custo foi cerca de duas horas extras de preparação, mas compensou. A versão oficial é a que está acima. Para quem quer a partitura completa, recomendo o site da ECM - Editorial de Canções e Músicas, onde Luiz Gonzaga tem os direitos protegidos. O preço é razoável e a partitura inclui violão, canto e harmônica.

Dicas práticas para interpretar a letra

O segredo está no tempo. A canção é frequentemente tocada como baião, mas Gonzaga a executava com uma leve desaceleração no início de cada frase, quase como uma fala cantada. Isso é importante, porque a sílaba tônica do sertão tem uma acentuação diferente do resto do Brasil. Quando você for cantar ou ensinar, preste atenção nas palavras "sertão", "secas", "saudades", "montanhas" — elas têm uma entonação descendente natural em português do Nordeste que não funciona em nenhuma outra variante. Um erro comum é acelerar demais o ritmo. A música parece curta, mas se você tocar em BPM alto, perde-se completamente a sensação de vastidão do sertão. O ideal fica em torno de 100 a 108 BPM, com a caixa marcando em 2 e 4.

Questões legais e práticas que todo mundo ignora

Se você pretende usar "Asa Branca" em um projeto comercial, precisa de autorização dos detentores dos direitos autorais. A sociedade que administra os direitos é a UBC (Universo da Biblioteca Cultural), que representa os herdeiros de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Não é algo que se resolva com um pagamento simples de Direitos Autorais via ECA — precisa de uma licença específica. Isso vale especialmente para gravações e execuções públicas. Foilei um caso em 2018 em que uma banda gravou uma versão acústica para um comercial de TV e levou processo porque a UBC não tinha sido contatada antes. O valor da indenização foi alto, e o produto ficou bloqueado por meses. O ponto positivo é que, para uso pessoal, estudo ou apresentação em eventos culturais sem fins lucrativos, geralmente não há complicação. O importante é saber a diferença entre os dois cenários.

Downloads e versões de referência

Não vou colocar links diretos para partituras pagas aqui, mas posso indicar as fontes confiáveis:

A versão original de 1947 está disponível gratuitamente no portal da FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES, junto com imagens do selo original e notas históricas sobre a composição. Se quiser ouvir a versão mais fiel possível da interpretação de Gonzaga, recomendo a gravação do álbum "O Rei do Baião" (1961), na qual ele toca sanfona e canta. A qualidade de áudio não é das melhores, mas é a forma mais próxima de ouvir como ele realmente interpretava a canção.