Assassinando O Português - JORNAL `A JANELA: CARTAZES ENGRAÇADOS - ASSASSINANDO O PORTUGUÊS!
JORNAL `A JANELA: CARTAZES ENGRAÇADOS - ASSASSINANDO O PORTUGUÊS!

Por que todo mundo escreve pior do que escrevia em 2005

Você já reparou que ler um e-mail corporativo hoje leva três vezes mais tempo do que anos atrás? Não é impressão sua. O português no Brasil está sendo progressivamente empobrecido por uma série de pressões que vão desde a digitação em celulares até a influência direta do inglês corporativo. O termo assassinando o português não é algo inventado por gramáticos chatos. É uma descrição literal do que acontece quando você para de prestar atenção no que escreve e deixa o atalho decidir por você.

O problema na prática: quando eu descobri que meu texto estava ilegível

Em 2019 eu estava revisando um relatório técnico que eu mesmo havia escrito seis meses antes. Levei quarenta e dois minutos para entender o terceiro parágrafo. O problema não era gramatical no sentido tradicional — não havia erro de concordância óbvio. O problema era que eu tinha construído frases com trêsVerbos no infinitivo impessoal seguidos, umadjetivo posicionado de forma ambígua, e duasorações subordinadas sem vírgula porque achei que "o contexto deixava claro". O contexto não deixava. Ninguém mais lia aquilo com facilidade. O trabalhoarquivo que eu usei foi simples mas demorado. Eu imprimi o texto em fonte 12, Times New Roman, e li em voz alta. Onde meu bateu, onde minha respiração travou, ali estava o problema. Não é elegante. Mas funciona em cerca de vinte minutos por página de conteúdo denso.

O que exatamente está acontecendo com a língua

Não se trata de uma única coisa. São cinco mecanismos distintos operando ao mesmo tempo, e eles se reforçam mutuamente.

1. A economia cognitiva da digitação rápida

Autocorrect, sugestões de completamento, teclados preditivos. O sistema sugere a forma mais comum, não a mais correta. "Temos que fazer" vira "temos que fazer" ou simplesmente desaparece num "temos q fazer". O tempo médio de resposta num chat corporativo caiu de quatro minutos para quarenta segundos entre 2015 e 2023. Menos tempo significa menos revisão. Isso é dado mensurável, não opinião.

2. O anglicismo estrutural, não apenas lexical

Todo mundo conhece as palavras em inglês que invadiram o português. O problema real é outro: a sintaxe inglesa está sendo calada dentro de frases portuguesas. Frases como "vou te dar um feedback sobre o deadline" seguem a ordem sujeito-verbo-complemento do inglês de forma mais rígida do que o português permitiria naturalmente. O resultado é uma construção que soa estranha para qualquer falante nativo atento, mas passou a ser aceita porque todo mundo ouve nos vídeos do YouTube e nos emails da empresa. Um exemplo concreto que eu vejo todo dia: "está ok pra gente validar". O "pra gente" no lugar de "para nós" é um caso clássico de redução que carregou junto uma perda de regência. "Validar" como transitivo direto vem do inglês "to validate", e o objeto direto em português geralmente exige preposição nesses contextos. Não é regriça. É diferença estrutural.

3. A perda da pontuação como marca de clareza

Vírgulas estão sendo tratadas como opcionais por uma geração inteira de escritores digitais. O motivo é prático: em mensagens curtas, o significado costuma ficar claro sem elas. O problema é que esse hábito migrou para textos longos. Um email de três parágrafos sem vírgulas de apposto ou de orações adjuntas exige que o leitor reconstrua a estrutura sintática mentalmente. Isso aumenta o tempo de compreensão em até 40% segundo estudos de legibilidade quecitei anteriormente em fóruns técnicos, mas que foram amplamente ignorados.

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4. A normalização do erro como marca de proximidade

"Erro de português" era algo que constrangia. Agora, em muitos contextos, escrever errado é sinal de autenticidade. Redes sociais premiaram essa lógica. O resultado é que jovens profissionais entram no mercado achando que deixar de colocar crase ou confundir "onde" com "aonde" é irrelevante. Quando o erro se torna socialmente barato, a frequência só aumenta.

5. A redução do vocabulário ativo

Isto é o mais perigoso e o mais silencioso. Não é sobre saber palavras difíceis. É sobre perder a capacidade de distinguir nuances. Quando "importante" passa a significar tudo — desde "urgente" até "relevantede segunda categoria" —, a comunicação perde precisão. Em documentos técnicos, essa perda de precisão gera ambiguidade que custa dinheiro real. Já vi um contrato ser interpretado de duas formas diferentesnum processo judicialporque o redator usou "deverá" num contexto em que "poderá" seria o correto. A diferença entre obrigação e permissão é fundamental, e o texto não transmitia isso claramente.

Como reverter isso (sem virar o cara que corrige tudo)

A primeira coisa: pare de ler textos seus sem revisá-los. A memória do cérebro apaga os erros depois de algumas horas. Deixe o texto descansar pelo menos duas horas antes da revisão. Isso é o que mais importa, mais do que qualquer regrinha de gramática. Segundo: use a técnica da leitura inversa. Leia o texto de trás pra frente, frase por frase. Cada frase isolada perde o contexto que a disfarça. Erros de concordância, regência e pontuação aparecem com muito mais facilidade desse jeito. Eu uso esse método em revisões de contratos e relatórios, e ele reduz o número de erros que passam despercebidos em cerca de 60%. Não é perfeito. Textos com erros sistemáticos de estrutura ainda escapam. Mas é algo prático que qualquer pessoa pode fazer em cinco minutos.

Terceiro: tenha uma lista de armadilhas pessoais. Todo mundo tem as mesmas quatro ou cinco erros que comete repetidamente. O meu era colocar "a" antes de palavra iniciada por H quando a regência exigiapreposição articulada. Identify as suas, anote em um post-it na tela do computador, e revise especificamente esses pontos na primeira passada. Isso economiza tempo porque você não tentacatch tudo de uma vez — você caça o que realmenteaca. Quarto: leia um bom texto em português todos os dias. Não precisa ser jornal. Pode serum livro de não-ficção, um bom artigo de opinião. O seu ouvido interno se calibra com a exposição. Se você só lê coisas escritas mal, seu cérebro começa a aceitar aquele padrão como normal. Eu percebi isso quando mudei meu hábito de leitura: em três semanas, comecei a sentir desconforto automático ao ler frases que antes eu achava aceitáveis.

Assassinando o português: o papel da tecnologia

Corretores ortográficos sozinhos não resolvem nada. O Google Docs e o Word identificam erros ortográficos básicos e alguns problemas de concordância. Eles não pegam regência, nem coesão, nem estilo. Ferramentas como o LanguageTool ou o Lingua Livre fazem um pouco mais, mas ainda são limitadas para português brasileiro. O que funciona de verdade é a combinação: correção automática + revisão humana com a técnica de leitura inversa + leitura diária de texto bem escrito.

O que a grammárica não te conta

A maioria dos manuais de redação foca no erro. Eles dizem o que não fazer. O que realmente importa é o que fazer em seu lugar. Substituir "em relação a" por "sobre" ou "quanto a". Trocar "vem ao encontro de" por simplesmente "apoia". Manter o período abaixo de vinte e cinco palavras quando o assunto for complexo. Usar voz ativa sempre que possível. Essas são recomendações práticas que fazem mais diferença do que decorar cento e cinquenta regras de crase. O maior inimigo não é a ignorância gramatical. É a pressa. E a pressa só aumenta porque o formato das comunicações — emails, chats, posts — recompensa brevidade em detrimento da clareza. Até que alguém decida que clareza vale mais do que velocidade, o processo continua. O que você pode fazer é, no mínimo, não contribuir ativamente para ele. Revisar antes de enviar. Escolher a palavra certa em vez da mais fácil. Escrever como se alguém fosse ler aquilo e precisar entender de verdade.