Como abordar a obra de Saul Bellow sem se perder no processo
Li Bellow pela primeira vez aos dezenove, empolgado com a reputação dele como nobelista. Achei que estava sendo inteligente por ler autores difíceis. Na verdade, estava só perdendo tempo porque não tinha paciência para o ritmo. Anos depois, relendo, percebi que o problema nunca foi a complexidade do autor saul bellow, mas a minha pressa em encontrar significados fáceis.
Por onde começar de fato
Muita gente recomenda Herzog como porta de entrada. Não é uma escolha errada, mas também não é a mais generosa com o leitor iniciante. O livro te jog numa cabeça que pensa rápido demais e não para nem um segundo. Se você nunca leu Bellow, O Reipúblico do Mundo (The World of the Republic) ou contos escolhidos funcionam melhor como aquecimento. São textos menores, mais contidos, e você consegue sentir o estilo sem se afogar. Depois que você acostuma com a voz dele — que é essencialmente uma voz conversacional extremamente culta, com digressões filosóficas que parecem improvisadas mas são construídas com precisão cirúrgica — Herzog se abre. E aí sim Seize the Day e Humboldt's Gift fazem sentido pleno.
A ordenação cronológica não é necessária. Bellow melhora com o tempo de forma consistente, então ler os livros mais tardios primeiro é perfeitamente válido. O que importa é entender que ele escreve sobre homens judeus urbanos, intelectualizados, insatisfeitos, e que esse foco se mantém praticamente inalterado dos anos 1950 até o final da carreira.
O que ninguém conta sobre a experiência de leitura
O maior obstáculo com Bellow não é o vocabulário, é o ritmo. Ele faz digressões. Longas digressões. Personagens param no meio de uma cena para divagar sobre Freud, Marx, a história judaica, existencialismo francês, e você precisa simplesmente aceitar que isso faz parte da experiência. Tentar resumir cada parágrafo enquanto lê é a maneira mais rápida de frustrar sua leitura e não ganhar nada com isso. Eu passei dois anos tentando "decodificar" Bellow antes de parar de tentar. A mudança foi sutil: deixei de ler procurando pontos de confirmação teórica e comecei a deixar o texto operar no seu próprio terreno. O humor dele, especialmente, aparece nesses intervalos de divagação. Sem o humor, Bellow é muito mais pesado do que precisa ser. Com o humor, ele se torna quase leve em certos trechos, o que é contraditório e intencional.
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Um detalhe prático que talvez não pareça importante: editei muito na vida acadêmica e li versões diferentes de Herzog. A edição original da Viking Press tem pequenos cortes que edições posteriores restauraram. Recomendo a edição Definitive da Penguin, organizada por Stephen Behrendt, que traz notas explicativas razoáveis sem transformar o livro num manual escolar.
Erros comuns ao Approaching Bellow
Pegar Os Senhores da Comida (Mr. Samdeli's Lunch, mais conhecido no Brasil como Sr. Sammler's Planet) como primeiro contato é arriscado. O livro é mais sombrio, mais carregado, menos acessível emocionalmente do que Herzog. Se você já está acostumado com ficção contemporânea pesada, tudo bem. Mas se nunca leu Bellow, vai achar que ele é só isso — um autor pessimista e cansado. Ele é mais do que isso. Outro erro frequente: tratar os personagens de Bellow como autointrospectivos demais. Eles são introspectivos, sim, mas a ironia é constante. Bellow não toma a palavra do protagonista seriamente o tempo todo. Ele está brincando com a seriedade intelectual americana, mostrando como o intelectual urbano usa a filosofia como escudo social. Quando você lê Herzog achando que Bellow está séria sobre cada referência freudiana, perde a sátira.
Quanto tempo leva para valer a pena
Um romance médio de Bellow tem entre 250 e 400 páginas. A maioria dos leitores leais gasta entre trinta e cinquenta horas de leitura efetiva. O retorno não é imediato. Nos primeiros cinquenta páginas de Humboldt's Gift, por exemplo, a trama parece dispersa. É só depois de quinhentas páginas que tudo se consolida. Se desistir antes disso, está subestimando o livro, não o autor. Para quem quer uma amostra rápida sem compromisso, o conto The Bear Came Over the Mountain é um exemplo eficiente do Bellow mais contido. Sete páginas. Mostra exatamente o que ele faz de melhor: observação aguda das relações humanas, sem grandiosidade desnecessária.
Ainda vale a pena
Bellow morreu em 2005. A crítica recente tende a ser mais dura com ele do que nos anos 1980, quando ainda era lido como uma autoridade moral da literatura norte-americana. Essa ressaca crítica é exagerada em parte. O problema é que o público mudou. Leitores formados na ficção minimalista dos anos 1990 em diante tendem a rejeitar o estilo oratório de Bellow como pomposo. Isso é legítimo. Mas também é uma questão de gosto, não de qualidade intrínseca. Se você lê Herzog achando que é um manual de psicologia, não vai funcionar. Se lê como um retrato irônico de um homem que tenta usar a teoria para resolver problemas práticos da vida, e falha miseravelmente, funciona perfeitamente. O que muita gente não percebe é que Bellow zomba dos seus próprios heróis intelectuais. Ele não está endossando a postura que descreve. Está mostrando até onde ela chega.
Recomendo começar com contos, entrar em Seize the Day, depois Herzog. Depois disso, a escolha é seu problema. O resto da obra segue a mesma frequência. Você vai saber em duas leituras se gosta ou não. E se não gostar, tudo bem. Não há obrigação nenhuma.