Visitar as cachoeiras de Matilde exige preparo, e não é só uma questão de bom senso
Matilde fica no município de Aracaju, em Sergipe, e as cachoeiras do local são mais acessíveis do que muitos pensam, mas isso não significa que sejam fáceis. A trilha até a principal queda tem aproximadamente 1,2 quilômetro com desnível variável, o que já filtra quem vai conseguir chegar sem ajuda. O terreno é de terra batida com trechos de raízes expostas e pedras escorregadias, especialmente após chuva forte. Não recomendo ir de chanclas. O acesso oficial começa pela estrada que liga o bairro de São Cristóvão ao distrito de Matilde. Tem um ponto de estacionamento precário na entrada, mas lota rápido nos finais de semana. Chegue antes das nove da manhã se quiser vaga. Depois disso, você acaba tendo que estacionar do lado da pista e caminhar uns duzentos metros a pé junto com o fluxo de gente. É normal. Todo mundo faz isso.
Como chegar às cachoeiras de Matilde sem complicação
Vai de carro até o ponto de estacionamento informal na entrada do distrito. Sai do centro de Aracaju pela rodovia BR-101 e pega a saída para Matilde, seguindo as placas locais. A sinalização não é das melhores, então ter um GPS ativo ajuda bastante. Se o navegador perder o sinal, pergunte directions para qualquer morador da região — eles sabem exatamente onde é. A trilha propriamente dita leva cerca de trinta a quarenta minutos no ritmo normal. Existem trechos onde a vegetação fecha a passagem e você precisa passar lateralmente, empurrando galhos. Leve camiseta de manga longa mesmo no calor, porque o sol não é o problema, são os espinhos e as folhas que raspam a pele.
No final da trilha, você encontra a queda principal, com cerca de oito metros de altura, caindo numa piscina natural de água azul-esverdeada. Ao redor existem também outras piscinas menores formadas pelos saltos intermediários. A água é limpa e fria, o que é raro encontrar por aqui. A temperatura varia entre dezoito e vinte graus Celsius durante a maior parte do ano. O problema que a maioria das pessoas não antecipa é a correnteza nos trechos mais baixos da trilha de retorno, depois que a água começa a subir. Eu passei por isso numa visita específica em março de 2024, quando choveu forte pela manhã e a trilha virou um riacho raso. Perdei dois pares de chinelo — um escorregou numa pedra com algas e afundou na lama, o outro simplesmente desapareceu quando tentei tirá-lo sem apoiar o pé no chão escorregadio. A lição foi simples: use sempre tenis velho ou sandália com trava no calcanhar, e nunca confie em calçados que você quer recuperar.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Outra coisa que ninguém menciona nos guidebooks é a questão dos insetos. A trilha tem bastante pernilongo, especialmente no trecho final onde a umidade sobe. Repelente comum não faz efeito duradouro. Eu passo a levar um spray com DEET a trinta porcento, aplicado no pescoço e nos punhos antes de entrar na mata, e um óleo essencial de citronela nas laterais da mochila como reforço. Funciona razoavelmente bem durante as duas horas de caminhada ida e volta. Sobre segurança, o único incidente grave que ouvi falar localmente foi uma pessoa tropeçando num desníve da trilha e escorregando. Não houve nada muito sério, mas a ausência de corrimão ou proteção em nenhum trecho do caminho significa que você precisa olhar onde pisa o tempo todo. Celular não pega sinal na maior parte da trilha, então avise alguém antes de entrar e não vá sozinho. Existe um número de emergência municipal que pode ser discado mesmo sem sinal de operadora local, mas confie mais na prevenção do que nisso.
A melhor época para ir é entre junho e setembro, quando o nível da água está mais baixo e as piscinas são mais accesíveis. No verão sergipano, a chuva é mais rara e a trilha fica firme. Já fui em fevereiro e a água estava tão alta que várias piscinas menores ficaram intransitáveis, e a queda principal tinha um fluxo tão intenso que entrar na água principal era perigoso. Saí de lá sem ter podido nadar. Leve água. Pelo menos dois litros por pessoa. Não existe nenhuma banca ou bebedouro ao longo do trajeto, e nos pontos de venda no final da trilha os preços são inflacionados, geralmente cobrando o dobro do que encontraria numa feira qualquer. Leve lanche também, porque o tempo de volta costuma ser mais demorado do que o da ida, e você acaba com fome mais cedo do que espera.
Se quiser uma alternativa mais simples e com infraestrutura melhor, existem cachoeiras na serra de Itabaiana, a cerca de uma hora de Aracaju, que oferecem trilhas sinalizadas, banheiros e barracas de alimentação. Mas elas não têm a mesma coisa que Matilde oferece: a sensação de estar chegando a um lugar que ainda não foi completamente explorado pelo turismo de massa. Isso tem seu valor, e também seu custo. O que eu diria para quem planeja a visita pela primeira vez é simples: vá de tênis fechado, leve repelente forte, dois litros de água, um snack e um power bank. O celular vai morrer durante a caminhada porque a temperatura e a umidade drenam a bateria mais rápido do que o normal. E não tente fazer a trilha de noite sob nenhuma circunstancia, mesmo que tenha lanternas. O chão é imprevisível e não há como ver onde está pisando sem iluminação direta no solo, o que a maioria das lanternas de celular não consegue fazer adequadamente.
A visita em si dura entre três e quatro horas no total, incluindo o tempo nas piscinas. Se você for rápido, consegue fazer em duas horas, mas ai é porque vai deixar muita coisa boa de lado. O ideal é chegar, dar uma voltas nas piscinas menores primeiro, depois descer até a queda principal, e subir devagar no retorno. O corpo agradece.