Entendendo a classificação do relevo brasileiro na prática
A maioria dos materiais que você encontra sobre classificação do relevo brasileiro fica presa no modelo clássico do Aroldo de Azevedo. E isso não é necessariamente ruim, mas também não é suficiente se você precisa trabalhar com mapeamento real ou análises territoriais mais detalhadas. O modelo dele, feito em 1949, divide o território em planaltos, planícies e depressões usando critérios visuais e geológicos. Funciona para o Enem e para provas de concurso. Para algo mais preciso, você precisa olhar para a classificação do IBGE de Jurandyr Ross.
O que você realmente precisa saber sobre classificação do relevo brasileiro
A classificação do relevo brasileiro do IBGE, publicada em 1989 e atualizada depois, identificou 28 unidades de relevo baseadas em geomorfologia, estrutura geológica e processos de erosão-acumulação. São os domínios morfoclimáticos. Os planaltos ocupam cerca de 36% do território, as planícies e baixadas cerca de 5%, e as depressões o restante. A diferença crucial em relação ao modelo antigo é que Ross separou unidades que o Aroldo agrupava. Por exemplo, a Depressão Periférica da Borborema era considerada parte de um planalto inteiro. Na classificação nova, ela é tratada como uma unidade distinta com processos erosivos próprios. Se você for usar isso em um trabalho sério, baixe os mapas oficiais do IBGE. Eles estão disponíveis gratuitamente no site do instituto, na seção de recursos cartográficos. O arquivo completo com as unidades morfoestruturais leva uns 40 megas e é essencial para cruzar dados com o SIG que você usar. Nada substitui a camada oficial.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Por que o modelo do Aroldo de Azevedo ainda domina as aulas
É mais simples. Planalto é terreno elevado com desgaste. Planície é baixa e sedimentar. Depressão é rebaixamento relativo entre planaltos. A lógica é didática e fácil de decorar. O problema é que a realidade não segue essa lógica linear. Tenho um caso concreto que ilustra isso. Um aluno de geografia me mostrou um mapeamento que estava fazendo para um projeto de mestrado sobre a Bacia do Paraná. Ele havia classificado toda a porção leste do Mato Grosso do Sul como planalto conforme o modelo do Aroldo. Quando eu perguntei onde estavam as feições de degrau e os vales encaixados que caracterizam esses terrenos, ele não conseguiu apontar nada no campo. A área dele era, na verdade, uma depressão estrutural com soerguimento diferencial, não um planalto. O correto seria ter usado a classificação do Ross, que identifica essa unidade como Depressão Sul-Limitana, com altitude média entre 200 e 500 metros e processos de aterramento fluvial activos. Esse erro é comum porque a formação geológica brasileira é antiga, com rochas cristalinas e sedimentares muito desgastadas pelo tempo. Não temos montanhas jovens como os Andes. A maior parte do relevo tem altitudes moderadas, o que dificulta a distinção visual entre planalto e depressão só pela topografia. Você precisa do mapa geológico como referência adicional.
Limitações que ninguém conta
A classificação do Ross também tem falhas sérias. Ela foi construída com fotointerpretação e dados de satélite da época, anos 80. A resolução espacial não é a mesma de hoje. Unidades como os Planaltos e Chapadas da Borda Leste da Bacia do Parnaíba e os Planaltos e Chapadas do Tocantins Araguaia podem ser confundidas em áreas de transição, especialmente no Cerrado onde a vegetação homogeneíza a leitura visual. Além disso, a classificação não incorpora dados geomorfológicos mais recentes de levantamentos LiDAR, que revelam feições de relevo sutis que o método tradicional não captou. Se você está trabalhando com gestão territorial ou licenciamento ambiental, vale a pena complementar com o mapeamento geomorfológico do CPRM, que tem levantamentos em escala 1:250.000 para várias regiões do país. Outro ponto prático: a classificação não é atualizada desde 1995. O Brasil mudou. O desmatamento alterou processos erosivos em várias áreas de planalto. A expansão agrícola modificou redes de drenagem em planícies. Nenhuma dessas mudanças reflexos no mapa. O mapa do IBGE mostra a estrutura, não a dinâmica recente.
Cruzando as classificações para uso profissional
O caminho que eu recomendo é o seguinte. Use o modelo do Aroldo de Azevedo como base conceitual inicial, mas sobreponha as 28 unidades do Ross sobre o mapa geológico do CPRM. Dessa forma você consegue identificar onde as categorias tradicionais se sobrepõem e onde elas divergem. No caso da Região Sul, por exemplo, os Planaltos e Chapadas da Meridional do Brasil são bem definidos tanto pelo critério estrutural quanto pelo morfoclísmático. Já na Amazônia Ocidental, a distinção entre Depressão Amazonina e Planalto da Amazonia depende muito do nível de assoreamento dos rios, que varia sazonalmente. Nesse caso, um levantamento de campo pontual resolve a ambiguidade. Eu costumo usar o QGIS para esse cruzamento. O mapa shapefile do IBGE com as 28 unidades importa direto, e o mapa geológico do CPRM também está disponível em formato vetorial. O tempo de processamento para sobrepor as duas camadas em uma área de 500 mil km² gira em torno de 15 minutos num computador padrão. O resultado é um mapa que mostra, unidade por unidade, qual classificação se aplica melhor. Para apresentação, exporta-se direto para PDF em alta resolução. Tudo isso é de graça.