A estratégia do meio de comunicação como bode expiatório na redação dissertativo-argumentática
Como culpar a midia na redação é um recurso argumentativo que muita gente usa sem entender exatamente o que está fazendo. Você lê centenas de modelos na internet e todo mundo parece fazer a mesma coisa: aponta os veículos de comunicação como responsáveis por problemas sociais. O problema é que isso, feito de qualquer jeito, vira clichê e a banca nota na hora. Vou explicar como funciona na prática, com os detalhes que os cursinhos geralmente deixam de fora.
Entendendo o mecanismo antes de aplicar
A ideia básica é simples. Você pega um problema social — falta de saneamento básico, violência, preconceito contra populações tradicionais, discriminação de gênero — e atribui parte da responsabilidade à forma como a mídia retrata ou negligencia esse tema. Ocorre que isso só funciona se você fizer a conexão lógica entre o conteúdo veiculado e o efeito social. Não adianta escrever "a mídia é culpada" e esperar que a banca aceite. Ela precisa ver a cadeia causal. No meu dia a dia revisando redações, vejo três padrões de uso. O primeiro é o mais comum e o mais fraco: o aluno menciona a mídia numa frase genérica no final, como se citar o veículo resolvesse o argumento. Isso não sustenta nada. O segundo padrão é melhor — o candidato mostra um tipo específico de cobertura midiática e liga ao comportamento da sociedade. O terceiro, raro, é quando o aluno vai além e problematiza a própria mídia, mostrando contradições ou omissões estratégicas. Esse terceiro padrão costuma distinguir uma nota alta de uma nota média.
Como estruturar a argumentação de fato
O primeiro passo é escolher o nível de cobrança. Existem três ângulos que funcionam, cada um com riscos diferentes. Ângulo 1: a mídia como espelho dos preconceitos existentes. Aqui você argumenta que os veículos não criam o problema, mas a ele servem de amplificador. A mídia reflete estereótipos já presentes na cultura e os torna visíveis em escala massiva. Esse é o ângulo mais seguro porque é logicamente sólido e difícil de ser contestado. O risco é soar previsível se você não trouxer um exemplo concreto. Um caso que encontrei recentemente envolvia a cobertura de protestos sociais, onde a linguagem usada nos noticiários frequentemente criminalizava manifestantes com base na aparência, e não nas reivindicações. Essa escolha vocabular específica foi o que fiz a banca enxergar que eu sabia do que estava falando.
Ângulo 2: a mídia como agente ativo na construção de percepções. Este é mais arriscado. Você está dizendo que os veículos moldam a realidade que as pessoas consomem. O problema aqui é que muita gente confunde correlação com causalidade. Para funcionar, você precisa mostrar um mecanismo claro: determinado tipo de enquadramento jornalístico gera determinada reação no público. Um exemplo prático seria a forma como a cobertura de comunidades pobres costuma focar em violência e não em infraestrutura, criando uma percepção pública de que o problema é a cultura local e não a falta de Estado. Ângulo 3: a omission midiática. Este é o menos usado e, paradoxalmente, o mais forte quando bem executado. Você argumenta que a culpa não está no que a mídia mostra, mas no que ela não mostra. Há temas sistematicamente ignorados pelos grandes veículos, e essa ausência também é uma posição política. A desvantagem é que exigir conhecimento de rotina editorial coloca o candidato num terreno difícil se ele não conseguir dar um exemplo verificável.
O erro mais frequente que eu vejo acontecendo
Na edição passada, revisei uma redação sobre a valorização de culturas tradicionais brasileiras. O aluno simplesmente escreveu que a mídia responsabilizava o folclore e pronto. Não havia especificação de veículo, de programa, de recorte temporal, de viés específico. A banca anotou "tese genérica" e reduziu os pontos na competência argumentativa. O que ele deveria ter feito era identificar um formato jornalístico concreto — por exemplo, a forma como programas de auditório e certos conteúdos de entretenimento tratam tradições afro-brasileiras como mercadoria folclórica, esvaziando o conteúdo político e histórico dessas expressões culturais. Outro erro recorrente é culpar a mídia de forma indiscriminada, como se todos os veículos tivessem a mesma responsabilidade e a mesma intenção. Isso não faz sentido analítico. Jornalismo investigativo, entretenimento ligero, redes sociais e telejornais têm dinâmicas completamente diferentes. Dizer "a mídia" como se fosse um bloco monolítico é um sinal imediato de preguiça argumentativa.
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Limitações reais que ninguém te conta
Este recurso tem um limite claro: ele funciona melhor em temas que têm uma relação direta com representação, informação ou percepção pública. Se o tema for sobre infraestrutura física, como saneamento básico ou acesso a medicamentos, forçar uma argumentação sobre mídia fica forçado e a banca percebe. Nesses casos, é mais produtivo culpar o poder público diretamente e, no máximo, citar a mídia como coadjuvante em segundo plano, não como centro do argumento. Também existe o risco de superutilização. Se você passar anos usando esse recurso em todas as redações possíveis e imagináveis, chega um momento em que sua argumentação vira um mecanismo automático sem substância. Eu já vi redações em que o aluno atribuía à mídia tanto a crise sanitária quanto questões de gênero e racismo, como se todos os males sociais tivessem a mesma raiz midiática. Isso demonstra pouca capacidade de análise diferencial.
Se o seu tema não se encaixa naturalmente nesse tipo de argumento, não forçe. Uma redação sólida com três argumentos bem construídos sobre causas políticas e estruturais vale mais do que uma com um parágrafo sobre a mídia que não sustenta a tese principal.
Um exemplo prático de aplicação correta
Imagine um tema sobre a discriminação de população carcerária e suas famílias. Você pode argumentar que a cobertura jornalística sobre o sistema prisional brasileira tende a apresentar detentos como figuras perigosas por definição, sem humanizá-los ou discutir as condições do sistema. Isso gera um imaginário social que justifica a rejeição a programas de ressocialização e a manutenção de políticas puramente repressivas. O ponto central não é dizer que a mídia criou o preconceito. É mostrar que ela o reforça sistematicamente ao escolher certos ângulos narrativos e ignorar outros. A diferença entre uma média e uma nota alta aqui é a especificidade. Citar "a série Narcos" como exemplo concreto de como a mídia internacional constrói uma narrativa glamorizada do crime organizado, que depois ecoa na forma como a sociedade brasileira enxerga seus próprios presos, é muito mais potente do que fazer uma acusação vaga. Você mostra que conhece o repertório e sabe aplicá-lo de forma analisadora, não decorativa.
Referências bibliográficas para embasar
Se você for usar esse ângulo, considere citar conceitos como enquadramento jornalístico (framing), que vem dos estudos de comunicação e descreve exatamente o mecanismo pelo qual a mídia seleciona e destaca certos aspectos da realidade em detrimento de outros. Também vale mencionar agenda-setting, a teoria que explica como a mídia não diz às pessoas o que pensar, mas o que pensar sobre. Ambos os conceitos são amplamente aceitos academicamente e dão sustentação teórica à sua argumentação sem soar como opinião pessoal. Há ainda a questão do alinhavo midiático, termo cunhado por Noam Chomsky em "Manufacturing Consent", que descreve como os veículos majoritários tendem a reproduzir as visões das elites econômicas e políticas. Usar esse conceito com propriedade mostra domínio do tema, mas exige que você o articule com o problema específico do tema, não como decoração intelectual solta no texto.
Resumo prático para o dia da prova
Antes de escrever, pergunte a si mesmo: este tema se beneficia de uma crítica à mídia? Se sim, de que tipo — amplificação, construção ativa ou omissão? Escolha um ângulo e desenvolva-o com exemplos concretos, seja de cobertura jornalística, de representações culturais ou de vieses editoriais específicos. Evite generalizações. Reconheça as limitações da sua argumentação se necessário, o que demonstra maturidade analítica. E, acima de tudo, mantenha a mídia como parte de uma cadeia causal mais ampla, nunca como explicação única e definitiva para qualquer problema social.