Confissões De Um Assassino Economico - Confissões de um Assassino Econômico | Sebo Caravelas - Sebo Caravelas
Confissões de um Assassino Econômico | Sebo Caravelas - Sebo Caravelas

O que são economic hitmen na prática

A maioria das pessoas conhece o termo vindo do livro do John Perkins, mas a realidade é muito mais banal do que qualquer narrativa dramática. Economic hitmen não são assassinos com armas. São consultores financeiros, banqueiros e tecnocratas que sentam em salas de ar condicionado em Washington e assinam contratos que deixam países inteiros endividados por décadas. O trabalho deles é criar a ilusão de que um empréstimo bilionário para uma hidroeletrônica no Camboja ou um sistema viário na Nicarágua vai gerar crescimento, quando na verdade o dinheiro volta para as corporações dos EUA na forma de contratos de engenharia e consultoria.

confissões de um assassino economico e como funciona o mecanismo real

O ciclo começa com uma estimativa de custo inflacionada. Você recebe um relatório de viabilidade elaborado por uma firma de consultoria que também é cliente da mesma instituição financeira. O número sempre é 300% maior do que o projeto realmente custaria. O país em desenvolvimento precisa de energia, precisa de infraestrutura, e o ditador ou presidente local acredita que sem aquele empréstimo o projeto não acontece. Eles assinam. O dinheiro entra, mas não vai para o povo. Vai para construtoras americanas, para consultores, para juros que vão corroer o PIB por vinte anos. A parte que ninguém conta nos resumos-executivo é o ajuste estrutural. Quando o país não consegue pagar, o FMI e o Banco Mundial aparecem com uma solução. Privatizações, corte de gastos sociais, abertura de mercados para importações barbatanas. É isso que o Perkins descreveu nos anos 2000 e que continua acontecendo de forma mais sofisticada hoje. Os protocolos mudaram, mas a lógica é exatamente a mesma.

Eu trabalhei em uma consultoria que recebia contratos desse tipo no início dos anos 2010. O projeto era para uma usina termoelétrica em Moçambique. A proposta original vinha com especificações que jamais seriam usadas na prática - turbinas superdimensionadas, sistemas de refrigeração complexos demais para o clima local, tudo isso garantindo que os contratos de suprimento fossem para empresas dos EUA e Europa. Quando questionamos a viabilidade técnica, a resposta foi padrão: aceite o termo de referência ou procure outro contrato. O valor do projeto era de cerca de 800 milhões de dólares. O custo real de instalação seria algo próximo de 220 milhões com tecnologia adequada ao contexto local. O que acontece depois é previsível. O paísendeita-se. Não paga. Entra em renegociação. As condições da renegociação incluem acesso preferencial a minerais, terras agrícolas e rotas portuárias. Na prática, é uma transferência de soberania disfarçada de política monetária.

Como identificar um projeto com essas características

O sinal mais claro é a desconexão entre o custo estimado e o custo de mercado real. Se você pega qualquer projeto de infraestrutura em um país em desenvolvimento e compara o orçamento com valores similares em países desenvolvidos com condições parecidas, a diferença costuma ser absurda. Isso acontece porque grande parte do orçamento é composta por taxas de consultoria internacional, seguros caros e equipamentos especificados sem critério técnico real. Outro indicador é a velocidade. Projetos legítimos levam tempo para serem elaborados. Há estudos de impacto ambiental reais, consultas públicas, pareceres técnicos independentes. Nos casos que seguem o padrão de economic hitman, tudo acontece rápido demais. O governo local está sob pressão política ou eleitoral, precisa entregar resultados, e o empréstimo aparece como uma solução pronta. A pressa é o que permite pular etapas de fiscalização e transparência.

Uma terceira coisa que observei é a presença constante de consultores internacionais com perfis genéricos. Eles chegam, fazem reuniões, produzem documentos padrão e saem. Ninguém deles tem experiência prévia com o tipo de terreno, clima ou realidade social do país onde o projeto será executado. Isso não é coincidência. É por design. Consultores locais ou com conhecimento real do contexto tendem a apontar problemas que encarecem o projeto ou o tornam inviável do ponto de vista político.

O que muda desde os anos 2000

Os métodos originais descritos no livro do Perkins evoluíram. Hoje a China substituiu os Estados Unidos como principal fonte de empréstimos para infraestrutura em países em desenvolvimento. A Belt and Road Initiative funciona com exatamente a mesma lógica: empréstimos atrativos que se tornam armadilhas. Sri Lanka é o exemplo mais citado. O porto de Hambantota ficou tão endividado que o Sri Lanka teve que arrendá-lo por 99 anos para a China. Mas os americanos não desapareceram. Eles mudaram de tática. Em vez de empréstimos bilionários diretos, criaram estruturas financeiras mais opacas. Fundos de investimento soberano, fundos de private equity com participação de governos, e uma rede de ONGs que parecem instituições de ajuda humanitária mas na verdade fazem lobby por aberturas de mercado. O efeito final é idêntico, só que agora é mais difícil rastrear quem toma as decisões.

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Também mudou a forma como o endividamento é justificado. Antes falavam de desenvolvimento e democracia. Hoje falam de sustentabilidade, transição energética e resiliência climática. Os projetos são os mesmos. Só a embalagem mudou. Um plano eólico no Quênia ou uma usina solar no Chile recebem financiamento com condições muito parecidas com as de uma hidroeletrônica nos anos 90.

Por que esse sistema persiste

Porque os beneficiários diretos nunca são os países endividados. São as corporações que recebem os contratos, os bancos que emprestam o dinheiro com juros garantidos por Estados, e os políticos que ganham fundos de campanha vindos desses mesmos setores. Um país africano que inadimplente não tem como processar o Banco Mundial. Não tem recursos jurídicos, não tem poder diplomático, e mesmo que tivesse, as leis que regem esses contratos são escritas em inglês, sob jurisdição de Nova York ou Londres. O sistema também sobrevive porque os meios de comunicação tradicionais raramente investigam esses detalhes. Uma manchete sobre "empréstimo bilionário para infraestrutura" não menciona que 70% do valor vai para construtoras estrangeiras e que as condições de repayamento incluem concessões minerárias. A informação existe. Está nos documentos oficiais. Mas ela está espalhada em milhares de páginas de relatórios técnicos em inglês, inacessíveis para a maioria dos cidadãos dos países afetados.

Existe ainda o fator cultura. Profissionais que entram nessa área são bem pagos desde o início da carreira. Salários que começam em 120 mil dólares anuais para quem acabou de se formar, com bônus e viagens pagas. A rotatividade é alta porque o burnout é real, mas sempre há gente nova entrando. Eles aprendem o sistema, aceitam que é assim, e seguem em frente. Poucosquestionam.

O que fazer se você está do lado de fora do sistema

Se você é pesquisador, jornalista ou ativista, a ferramenta mais útil é o acesso aos dados abertos. O Banco Mundial publica todos os contratos acima de certo valor. O FMI tem relatórios periódicos sobre sustentabilidade da dívida. A linha direta é cruzar esses dados com os relatórios das próprias corporações envolvidas. Quando um projeto de 500 milhões é orçado e só 80 milhões vão para contratos locais, isso é material suficiente para uma investigação. Se você trabalha dentro do sistema, a situação é mais complicada. Eu vi colegas que começaram a fazer perguntas e foram rapidamente realocados para projetos menores, sem visibilidade. A promoção não vem para quem incomoda. O silêncio profissional é a regra não escrita. Alguém que aparece em reunião e questiona a viabilidade de um número inflacionado é visto como problema, não como profissional competente.

O único caminho que eu conheço de alterar algo dentro dessa estrutura é acumular senioridade primeiro, depois usar a posição para criar freios internos. Isso exige tempo, paciência e a disposição de ser impopular por anos. A maioria das pessoas não aguenta. Saem. E o ciclo continua. Para países que estão sendo alvo desses empréstimos, a única proteção real é a transparência absoluta nos processos de licitação. Quando cada detalhe do contrato é público, os especidores preferem ir para outro alvo. Mas isso esbarra no fato de que muitos desses governos são cúmplices voluntários. O político local sabe que o projeto é inflacionado, mas se beneficia da fatia que recebe. O sistema precisa de aliados internos para funcionar.

O termo confissões de um assassino economico surgiu como título de um livro, mas descreve algo que continua operando com sucesso décadas depois. A diferença é que agora os nomes mudaram. Não se chama mais economic hitman. Chama-se especialista em risco soberano, consultor de sustentabilidade, analista de estruturação de dívida. A função é a mesma.