Constante De Hidrolise - CONSTANTE DE HIDRÓLISE
CONSTANTE DE HIDRÓLISE

Entendendo a constante de hidrólise na prática

A constante de hidrólise é um conceito que aparece em qualquer disciplina de equilíbrio químico e que, honestamente, a maioria dos estudantes trata como fórmula decorada sem entender o que está por trás. Ela representa o grau em que um íon oriundo de um sal reage com a água, deslocando o equilíbrio do pH da solução. O interessante é que ela não é uma grandeza nova — ela nasce diretamente da constante de ionização da água e das constantes ácidas ou básicas do par conjugado.

Como calcular a constante de hidrolise corretamente

O raciocínio começa com a relação fundamental entre Kw, Ka e Kb. Quando você tem um sal de ácido fraco e base forte, como acetato de sódio (CHCOONa), o ânion acetato sofre hidrólise e gera OH. A constante de hidrólise correspondente é simplesmente Kh = Kw/Ka. O inverso acontece com um sal de ácido forte e base fraca, como cloreto de amônio (NHCl): o cátion amônio se hidrolisa gerando HO, e Kh = Kw/Kb. Para sais de ácido fraco e base fraca, a situação é mais complexa. A constante de hidrólise geral é Kh = Kw/(Ka × Kb), e o pH resultante não depende da concentração do sal, o que muita gente acha estranho na primeira vez que vê. A fórmula do pH nesse caso é pH = 7 + ½(pKa - pKb). Se pKa e pKb forem iguais, o pH será exatamente 7, independentemente de quão concentrada a solução estiver. Isso foi algo que me pegou desprevenido num laboratório, resolviendo um problema prático.

Eu estava preparando soluções tampão de acetato de amônio para calibração de pHmetro, e os valores medidos variavam levemente com a diluição. A princípio, achei que fosse erro instrumental, mas o problema era que a temperatura do laboratório oscilava entre 22°C e 26°C ao longo do dia. Como Kw varia significativamente com a temperatura — valendo 1,0 × 10¹ a 25°C, mas caindo para cerca de 0,67 × 10¹ a 20°C —, os cálculos que eu fazia assumindo Kw padrão davam pH teórico de 7,00 e o medidor marcava 6,93 em dias mais frios. A solução foi simples: usar o valor de Kw correto para a temperatura do momento e fazer a correção no software de calibração do pHmetro. Sem isso, todo o resto do cálculo estava certo, mas o resultado final estava errado. Para encontrar a constante de hidrólise de um sal específico, o procedimento é direto. Primeiro, identifique qual íon do sal é derivado de um ácido fraco ou de uma base fraca. Depois, localize a constante Ka ou Kb correspondente do ácido ou base conjugada. Por fim, aplique a relação apropriada com Kw. Vamos a um exemplo concreto: calcule o pH de uma solução 0,1 mol/L de cianeto de potássio (KCN) a 25°C. O KCN se dissocia completamente em K e CN. O K é cátion de base forte e não hidrolisa. O CN é ânion de ácido fraco (HCN, Ka 6,2 × 10¹) e sofre hidrólise:

Kh = Kw/Ka = 1,0 × 10¹ / 6,2 × 10¹ 1,61 × 10 Com a constante de hidrólise determinada, aplicamos o equilíbrio. Para a reação CN + HO HCN + OH, temos Kh = [HCN][OH]/[CN]. Se x é a concentração de OH produzida, então x²/(0,1 - x) = 1,61 × 10. Como Kh é pequeno, podemos aproximar 0,1 - x 0,1. Assim, x² 1,61 × 10, logo x 1,27 × 10³ mol/L de OH. pOH = 2,90 e pH = 11,10. Note que ignorar a aproximação daria x 1,26 × 10³, diferença irrelevante neste caso.

Um ponto que as pessoas costumam perder é a diferença entre Kh e o grau de hidrólise (). A constante de hidrólise é fixa para cada sal a uma dada temperatura, mas o grau de hidrólise varia com a concentração. Quanto mais diluída a solução, maior o grau de hidrólise, pelo princípio de Le Chatelier. A relação é = (Kh/C), válida para hidrólise simples de um único íon. Isso significa que diluir uma solução de sal hidrolisável aumenta proporcionalmente o percentual de íons que reagem com a água, mesmo que a concentração absoluta de H ou OH gerados possa cair. O outro erro frequente é aplicar as fórmulas de sais de ácido fraco e base forte em soluções onde ambos os íons hidrolisam. Se você usar Kh = Kw/Ka para um sal como Al(SO), estará ignorando que o Al³ também se hidrolisa agressivamente, formando espécies como Al(OH)² e Al(OH), com constantes de hidrólise na ordem de 10. Nessas condições, o tratamento simplificado da constante de hidrólise única não se sustenta. A solução prática é considerar apenas o íon com maior tendência à hidrólise e tratar o outro como coadjuvante, ou usar métodos computacionais como o programa PSEQUED para resolver o sistema completo de equilíbrios.

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Outra limitação importante da constante de hidrólise é que ela supõe comportamento ideal — atividades iguais a concentrações. Em soluções acima de 0,01 mol/L, os coeficientes de atividade começam a desviar os resultados calculados dos valores reais, especialmente para íons divalentes ou trivalentes. A correção via equação de Debye-Hückel pode ajustar isso, mas raramente é exigida em contexto acadêmico básico. O que vale saber é que, em condições reais de indústria farmacêutica ou tratamento de efluentes, onde as concentrações iônicas são maiores, os cálculos teóricos de pH a partir de Kh tendem a superestimar a extensão da hidrólise em 10 a 30%, dependendo da força iônica.

Resumo dos casos práticos

Sal de ácido fraco + base forte: Kh = Kw/Ka, solução básica, pH > 7. Exemplo: CHCOONa, KCN, NaF. Sal de ácido forte + base fraca: Kh = Kw/Kb, solução ácida, pH

7. Exemplo: NHCl, AlCl.

Sal de ácido fraco + base fraca: Kh = Kw/(Ka×Kb), pH = 7 + ½(pKa - pKb). Exemplo: CHCOONH. Sal de ácido forte + base forte: não há hidrólise significativa, Kh 0, pH 7.

O que realmente importa é saber identificar rapidamente qual parâmetro procurar — o Ka do ácido conjugado do ânion ou o Kb da base conjugada do cátion — e não confundir qual constante usar em cada fórmula. Quando isso fica claro, o resto é álgebra simples.