Conto Do Dia Das Bruxas - O Conto do Dia das Bruxas é um filme de Michael Dougherty
O Conto do Dia das Bruxas é um filme de Michael Dougherty

Um conto do dia das bruxas para quem não tem medo

Vou contar uma história simples sobre uma noite de 31 de outubro. Nada exagerado, sem sustos artificiais. Só um caso real de como as coisas podem ficar estranhas quando você menos espera. O ano era 2008. Eu trabalhava em uma editora pequena no Rio de Janeiro. A chefe pediu para eu revisar um conto do dia das bruxas que um autor independente enviara pelo correio. O texto vinha impresso, sem e-mail, sem remetente identificado. Apenas um envelope amarelado com o título escrito à mão: "A Invocação dos Pãezinhos".

O conto do dia das bruxas que ninguém esperava

O enredo parecia ingênuo no resumo: uma vovó que faz doces para as crianças do bairro todo ano, mas uma noite percebe que os filhos não estão mais em casa. Ela vai procurar e encontra cada criança envolvida em uma situação diferente, todas ligadas a uma antiga tradição do vilarejo onde mora. O problema era que o texto tinha inconsistências. Nomes de personagens mudavam no meio da história. Capítulos pareciam fora de ordem. E havia três páginas inteiras em branco entre o capítulo sete e o oito. Eu avisei à minha supervisora. Ela leu e disse que publicasse mesmo assim. Disse ainda que o autor já havia partido para outro projeto e não seria localizado.

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Eu reli o material inteiro pela manhã seguinte. Percebi algo que não tinha notado antes. Os nomes que mudavam correspondiam exatamente aos nomes dos filhos da vovó. E ela não tinha filhos. O livro dizia isso claramente no segundo parágrafo. Eu verifiquei em bancos de dados públicos. O endereço da vovó no conto existia. Era uma rua real no interior de Minas Gerais. Decidi não publicar. Enviei uma carta ao endereço do envelope, questionando as inconsistências e pedindo esclarecimentos. A resposta demorou onze dias. Chegou na mesma letra cursiva do envelope original, mas desta vez dentro havia apenas uma fotografia em preto e branco de uma casa antiga com um jardim grande. Na data atrás da foto estava escrito "outubro de 1972".

Eu liguei para o número de telefone que constava no envelope. A linha estava inativa. Tentei o endereço de e-mail que eu tinha anotado quando abri a mala direta. Endereço inexistente. Pensei que fosse uma gafe editorial qualquer, um autor desorganizado mesmo. Até que li o conto com atenção redobrada. Havia um detalhe que eu ignorei completamente. A data de publicação indicada no livro era 31 de outubro de 1972. Mesma data da fotografia. O papel do envelope e do manuscrito estava amarelado consistentemente com essa idade. Mas quando segurei o envelope pela primeira vez, ele parecia ter sido preparado na semana anterior. A cola ainda era recente. A tinta do selo brilhava.

Não sei quem enviou aquele material. Não sei se foi um erro postal, uma piada de mau gosto ou algo que prefiro não especular. O conto nunca foi publicado. Arquivamos o material na pasta de rejeitados e seguimos em frente. Mas toda vez que vejo um envelope amarelado na nossa caixa de correspondência, penso naquela vovó e nos pãezinhos que ela fazia numa casa que ninguém mais frequenta desde 1972. Se você procurar por conto do dia das bruxas na internet, vai encontrar milhares de histórias bem mais assustadoras. Eu conheço várias. Mas nenhuma delas me deixou pensativo por semanas como aquele pacote sem remetente identificado. Às vezes o medo não vem do que está escrito. Vem do que não está.