O uso correto de "de que" e "de quê"
Muita gente trava nessa dúvida na hora de escrever. Não é à toa que a regra tem exceções que quase todo mundo esquece.
Como diferenciar de que ou de quê na prática
A diferença entre "de que" e "de quê" está na posição da palavra "que" dentro da frase. Se o "que" vier no final da oração ou da frase, leva acento circunflexo. Se vier no início ou no meio, não leva. Pelo menos é assim que funcionou para mim até eu enfrentar um caso que me pegou de surpresa. Trabalhei num documento jurídico onde tinha uma pergunta direta: "Sabe de quê ele estava falando?" e, na mesma página, uma enumeração: "Ele citou vários motivos, de que eram os mais variados possíveis." Num primeiro momento, escrevi tudo com acento, achando que era pergunta. A editora devolveu o texto com a correção. O problema é que a primeira ocorrência era uma pergunta indireta, não direta. Ela foi inserida como parte de uma oração subordinada, não como frase isolada. Aí entendi que a regra do final de frase não se aplica só quando tem interrogação — o acento depende de o "que" estar realmente no fim da oração, independente de ser pergunta ou não.
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Depois desse caso, comecei a testar mais sistematicamente antes de marcar algo com acento. O truque prático é isolarmos o "que" e vermos se ele pode ser substituído por um pronome relativo sem mudar a estrutura. Se você puder trocar por "cujo", "qual" ou "o qual", provavelmente é um pronome interrogativo e precisa do acento quando vier no final. Vamos a exemplos simples. "Do que você precisa?" — aqui o "que" está no final, então leva acento: "De quê você precisa?" Já em "Não sei do que você precisa", o "que" está no meio da oração, e o acento não se aplica. A mesma lógica vale para construções com preposição fixa: "Fale-nos de que modo procedeu" versus "Não entendemos de quê ele fala".
Agora um detalhe que quase ninguém menciona. Quando o verbo pede preposição "de" e o "que" vem seguido por outra palavra, o acento simplesmente não existe. Frases como "A questão de que falamos" ou "O assunto de que tratamos" estão corretas sem acento, porque o "que" abre uma oração subordinativa, funcionando como pronome relativo. Isso gera confusão porque muita gente associa o acento automaticamente a qualquer "de que" com preposição, mas a função sintática é completamente diferente. Outro ponto que causa dor de cabeça é a posição do "que" antes de palavras como "é", "foi", "estão". Em "Isto é de quê?", o "que" termina a oração e recebe acento. Em "Algo de que não estamos certos", não há acento porque o relativo introduz uma oração, mesmo que o "que" venha logo depois da preposição.
O erro mais frequente que vejo em revisões é a aplicação cega da regra do final de frase sem analisar se o "que" tem valor interrogativo ou relativo. O resultado são textos com acentos desnecessários ou, pior, ambiguidades que dificultam a leitura. Se você quiser consultar a regra formal, ela está na gramática normativa padrão. Para dúvidas pontuais, ferramentas de verificação ortográfica ajudam, mas nenhuma substitui a análise sintática básica que mostrei aqui. No geral, levar esses dois minutos para decompor a oração evita retrabalho e erros que parecem bobos mas acabam chamando atenção em documentos profissionais.