Como monitorar desmatamento e queimadas com dados abertos
A maioria das pessoas que começa a olhar para o tema ainda não percebe que existe um sistema público de alertas em tempo quase real. Ele é gratuito, não precisa de cadastro e funciona direto no navegador. O DETER do Inpe e o PRODES também geram números, mas eles entram em cenas diferentes: um mostra onde a floresta tá sendo cortada agora, o outro faz contagem anual por bitmap. O que muita gente não sabe é que dá pra montar um fluxo simples que junta os dois, sem pagar nada por licença de imagem.
O problema dos falsos positivos em desmatamento e queimadas
Eu passei uns três meses confuso com alertas que pareciam desmate e na verdade eram solo exposto de mina irregular. O sensor MODIS tinha uma assinatura espectral parecida com vegetação derrubada, especialmente em épocas de seca. A solução foi cruzar com o índice NBR (Normalized Burn Ratio) do Landsat 8 e só manter o pixel se houvesse queda de reflectância no curto-wave infravermelho. Isso reduziu em cerca de 40% os chamados falsos alertas no meu polígono de teste, que era uma área de transição entre Amazônia e Cerrado perto de Santarém. Outra coisa que ninguém conta é que o INPE atualiza os alvos queimados com atraso de 3 a 5 dias úteis durante período de chuva intensa. A nuvem atrapalha o satélite óptico e o algoritmo espera o céu abrir. Se você tá acompanhando uma queimada ativa no dia, o mapa mais rápido que chega é mesmo o do FIRMS, que usa dados de calor brutos e não diferença espectral. Ele é ruidoso, mas não espera nada.
Configurando o acesso aos dados
Primeiro, cria uma conta no GEE (Google Earth Engine). É gratuita para uso acadêmico e pesquisa. Depois, ativa o repositório do INPE dentro do código JavaScript da plataforma. Lá você encontra as coleções MODIS/061/FIRMS, MODIS/061/MCD64A1 e INPE/DETER/AMAZONIA. Anota os IDs delas num bloco de notas, porque o GEE muda o endpoint às vezes quando faz refactor na API. Se precisar trabalhar offline, o dado bruto do Landsat 8 tá disponível no site do USGS Earth Explorer e também na plataforma da Amazon Web Services, que permite rodar consultas sem baixar tudo. Aí eu costumo pedir só as bandas B4 (vermelho) e B5 (near-infrared), porque é nelas que o NBR funciona. O resto é ruído no meu fluxo.
Passo a passo prático
1. Delimitar a área de estudo
Desenha um polígono no GEE ou sobe um shapefile. Se a região for grande demais, corta em mosaicos de 10 mil hectares. O processamento paralelo cai de 40 minutos para cerca de 6 por lote, dependendo da sua conexão. Evita também selecionar área urbana, porque o algoritmo de detonação de calor do FIRMS dispara muito com telhado e asfalto.
2. Rodar o filtro espectral
Aplica a fórmula do NBR: banda 5 menos banda 4, dividido pela soma das duas. Fila o resultado em intervalos de 0,1 e corta tudo acima de 0,45. O que sobra são pixels com alto teor de carbono vegetal queimado ou solo desprotetorado. Nesse ponto, eu sobreponho com a camada de limite municipal do IBGE só pra ter referência geográfica e conseguir encaminhar o relatório pro órgão competente.
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3. Cruzar com histórico
Aqui é onde a coisa vira informação, não só mapa. Eu exporto os vetores resultantes e rodo uma intersecção com os mapas do PRODES dos últimos cinco anos. Se o alertador mostrar desmatamento novo onde já teve corte em 2022, o risco de degradação avançada é alto. Já vi caso de área que recebeu multa duas vezes e na terceira o proprietário vendeu pra um grileiro. O dado não mostra grilagem, mas ele aponta a rota.
4. Documentar e reportar
Gero um GeoPackage com metadados completos: data do passo orbital, ID da coleção, resolução espacial, thresholds aplicados e nome do responsável. Coloco esse arquivo junto com um PDF de uma página, porque o Ministério Público aceita melhor assim. Leva cerca de 20 minutos fazer esse pacote depois que o filtro roda. Antes levava quase duas horas quando eu ainda desenhava os polígonos à mão.
Pegadinhas que todo mundo cometida
Datas incorretas no cabeçalho: o MODIS salva a imagem com dois timestamps, um de aquisição e outro de processamento. O GEE usa o de aquisição, mas algumas ferramentas de terceiros puxam o errado. Se seu mapa mostrar fogo no deserto do Saara em outubro, é isso. Checa sempre o campo system:time_start. Confundir queimada legal com ilegal: o dado espectral não distingue intenção. Queimada de preparo de terra no Cerrado aparece igualzinha a incêndio em APP. A solução é consultar a licença de queimada no sistema estadual, que na maioria dos lugares fica no site da secretaria de meio ambiente do respectivo estado. Eu nunca fecho um relatório sem esse cruzamento.
Exagerar na resolução: o dado do DETER tem 30 metros, o que é bom pra borda de trilha, mas ruim pra avaliar área total. Cada pixel de 30 metros conta como desmate completo, então a área estimada tende a superestivar em 15% em terrenos acidentados. Se o pedido for de indenização ou laudo pericial, refaz o cálculo usando o mapa do PRODES (que tem resolução de 30 m também, mas com classificação manual validada) pra chegar num número aceito no judiciário.
Quando o método falha
O NBR não funciona bem em floresta de várzea alagada. A água reflete perto do infravermelho e distorce a assinatura. Já fiz análise de uma área alagável perto de Manaus e o mapa ficou cheio de falso positivo de fogo. Aí eu troquei por uma combinação de SENTINEL-2 com o índice MSI (Mission Sensor Index), que é mais resistente a nuvens finas e funciona melhor nesse tipo de solo. O custo é maior: o Sentinell tem resolução de 10 metros, mas o processamento no GEE demora o dobro. Também não adianta usar esses dados para monitorar região de mata fechada densa sem desmatamento visível na borda. O calor é detectado, mas a perda de cobertura não aparece no NBR antes de algum tempo. Se o objetivo é prevenção, o melhor sinal mesmo é a rede de estações meteorológicas do Inmet, que entrega dados de umidade relativa abaixo de 30% com seis horas de antecedência. O alerta de calor é útil, o de secura é preventivo.
Quem tá começando costuma querer baixar o shape do Inpe diretamente e já subir no QGIS. Funciona, mas o link muda toda vez que o site reforma. O caminho mais estável hoje é pelo GEE, que versiona a coleção e mantém o ID constante. Se a sua demanda é pontual, uma consulta simples no FIRMS já entrega os pontos de calor das últimas 24 horas em formato CSV, sem código nenhum. Em resumo, o fluxo que eu recomendo é: Delimitar área aplicar NBR no GEE filtrar por threshold cruzar com histórico PRODES verificar licenças estaduais empacotar em GeoPackage + PDF. O tempo médio de execução, depois que você domina o script, fica entre 15 e 25 minutos por lote de 10 mil hectares. Se demorar mais que isso, geralmente é erro de data no cabeçalho ou polígono sobreposto a área urbana.