O uso correto de disso e disto no português
Essas duas formas são pronomes demonstrativos compostos pela preposição de mais os elementos isso e isto. A diferença básica é pura questão de referência espacial e temporal dentro do enunciado. Disso remete a algo distante do falante, enquanto disto indica proximidade com quem fala. Na prática, a maioria das pessoas acerta na leitura e erra na escrita, especialmente quando o contexto não deixa claro qual dos dois se aplica.
Disso ou disto: como não errar
A lógica funciona assim. Se você está apontando para algo que está nas suas mãos, perto de você, ou mencionando algo que você mesmo acaba de falar, usa disto. Se o referente está longe do falante — pode ser fisicamente distante ou apenas referencialmente separado —, aí vai de disso. O mesmo vale para tempo: disto para o presente imediato, disso para passado ou futuro mais afastado. Veja um exemplo direto: "Não confio nisso, nem disso nem disto". Aqui, o primeiro "nisso" aponta para algo concreto presente no cenário, "disso" se refere a algo que ficou para trás ou foi dito antes, e "disto" puxa algo que está sendo mostrado agora. Simples, desde que você saiba onde está parado.
O problema é que o português brasileiro, especialmente na fala coloquial, tende a usar disso como genérico em praticamente qualquer situação. Isso cria ambiguidade e, em textos formais, soa como descuido. Já na norma culta, a distinção é levada a sério. Em redações de concurso, por exemplo, trocar o uso de um pelo outro pode custar pontos na argumentação, porque o examinador espera que você demonstre controle do sistema demonstrativo. Cheguei a corrigir um relatório técnico de uma equipe jurídica e notei que o estagiário usava disso para se referir a um documento que estava aberto na mesa dele, literalmente ao alcance da mão. Eu marquei para alterar para disto, e ele levou alguns minutos para entender o porquê. A explicação foi: o documento estava perto dele, não distante. Depois disso, ele passou a verificar a distância relativa antes de escolher o pronome. Funcionou.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Outra coisa que quase ninguém considera é o uso com verbos que exigem a preposição de. Verbos como precisar, gostar, ouvir e tratar são clássicos. Se você diz "preciso disto", está dizendo que precisa de algo que está próximo. Se diz "preciso disso", está pedindo algo que não está perto. A regência não muda, só a demonstração. Mas é fácil perder esse detalhe na pressa de escrever. Em contextos mais abstratos, a regra fica menos rígida. Quando se fala de ideias, conceitos ou questões gerais, muitos autores substituem disto por disso simplesmente porque o referente não tem localização espacial definida. Nesses casos, a norma permite flexibilidade. O problema aparece quando se tenta forçar uma distinção onde ela não existe — aí o texto fica artificial e forçado.
Se você está aprendendo português como língua não nativa, o melhor caminho é praticar com frases que tenham um referente físico claro. Pegue objetos ao redor, aponte para um deles e produza uma frase usando disto. Aponte para algo mais longe e use disso. A repetição física ajuda a fixar a regra melhor do que qualquer tabela de conjugação. Aqui vai uma observação técnica que poucos ensinam: em variedades do português de Portugal, o uso de deste/desta no lugar de disto é frequente quando o referente é masculino ou neutro. Isso não ocorre no Brasil, onde o neutro disto domina. Se você lê ou ouve conteúdo português de Portugal, leve isso em conta, senão pode achar que estão usando a forma errada quando, na verdade, é apenas uma variação regional legítima.
O principal erro que vejo acontece em frases como "Falei sobre isso e disso". Ocorre que, se o falante está se referindo a algo que acabou de mencionar, o correto seria disto. O uso de disso nesse caso soa como se o assunto já tivesse sido deixado para trás. A menos que seja realmente esse o sentido, aí sim disso está certo. Em resumo: a regra é clara na teoria, mas a aplicação exige atenção ao contexto e à posição do falante em relação ao referente. Não existe atalho. Leia bastante, preste atenção aos usos nos textos formais e treine a distinção até virar automático.