Quem foi o Marechal Durval de Góes Monteiro
Durval de Góes Monteiro nasceu em 17 de agosto de 1888, na cidade do Rio de Janeiro. Formou-se na Escola Militar, hoje a Academia Militar das Agulhas Negras, e acompanhou de perto a onda tenentista que sacudiu o Exército brasileiro nas décadas de 1920 e 1930. Foi oficial engenheiro, teve passagem pela Missão Militar Francesa e escreveu diversos trabalhos sobre organização militar. O que realmente o tornou uma figura central na história brasileira foi o papel que desempenhou durante o governo Vargas, especialmente entre 1930 e 1945. Ele integrou o grupo dos chamados "tenentes modernos", aqueles que acreditavam na profissionalização do Exército e na modernização institucional. Diferente dos revoltosos puramente ideológicos, Góes Monteiro via a reforma militar como algo técnico, não necessariamente revolucionário. Essa linha de pensamento o colocou em sintonia com Getúlio Vargas durante a Revolução de 1930, mas também definiu muitos dos atritos que viriam depois.
durval de góes monteiro e o Estado Novo
O episódio mais importante da carreira política de Góes Monteiro ocorreu em 1937, quando ele foi fundamental na articulação do golpe que instaurou o Estado Novo. Na época, ocupava a pasta da Guerra no governo provisório de Vargas. Ele era ministro, mas também um dos principais estrategistas por trás da suspensão das eleições e da outorga da Constituição de 1937. A intenção dele, pelos relatos da época, era consolidar uma ditadura de orientação nacionalista e moderadamente autoritária, com foco na eficiência administrativa e na disciplina militar. Um detalhe que poucos destacam: Góes Monteiro não era integralista. Ele simpatizava com algumas ideias do movimento de Plínio Salgado, como o nacionalismo e a defesa da ordem, mas mantinha distância orgânica dos integralistas. Na prática, isso significava que ele frequentemente atuou como contrapeso à ala mais radical do regime, buscando conter a influência direta da Ação Integralista Brasileira nos quartéis e na máquina estatal. Esse equilíbrio instável durou até 1938, quando o levante integralista foi sufocado e Vargas consolidou o controle total.
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Outro ponto que gera confusão: Góes Monteiro foi visto como o artífice do alinhamento do Brasil aos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Em 1942, após os submercantes brasileiros serem afundados por submarinos alemães, ele foi decisivo na decisão de entrar em guerra ao lado dos Estados Unidos. Essa escolha não foi apenas estratégica. Ela também abria caminho para o reequipamento do Exército brasileiro com material norte-americano, o que transformaria completamente a estrutura militar do país nas décadas seguintes. A Campanha da Itália, onde a Força Expedicionária Brasileira lutou ao lado dos americanos, foi resultado direto dessa orientação.
A trajetória posterior e o legado
Com a queda de Vargas em 1945, Góes Monteiro perdeu o cargo e foi obrigado a se exilar na Argentina. Retornou ao Brasil em 1946, quando a anistia permitindo a volta dos exilados políticos foi promulgada. Voltou à ativa como diplomata, servindo como embaixador emWashington, D.C., entre 1947 e 1952, função que aproveiteu para fortalecer os laços militares entre Brasil e Estados Unidos. Foi também comandante do III Exército, sediado em Porto Alegre, onde tentou sem sucesso evitar a ascensão de João Goulart como presidente da república em 1961. Em 1963, já reformado, faleceu no Rio de Janeiro. Como historiador que passou anos tentando entender esse período, posso dizer que a figura de Góes Monteiro é difícil de capturar em poucas linhas. Ele foi, ao mesmo tempo, reformista e autoritário, modernizador e conservador, aliado e adversário de Vargas em momentos diferentes. A maioria dos livros didáticos o apresenta como o "cabeça pensante" do Estado Novo, o que é parcialmente verdade, mas insuficiente. O homem que conheci nos arquivos — lendo diários, memorandos, correspondências — era alguém que realmente acreditava que o Brasil precisava de uma autoridade firme para avançar, mas que também se incomodava com o descontrolismo populista. Essa tensão interna permeia toda a sua biografia.
Um erro comum entre iniciantes na história brasileira é confundir Góes Monteiro com os generais ligados ao regime militar de 1964. Ele morreu em 1969, sim, mas nunca esteve diretamente envolvido na articulação do golpe de 64. Seu peso simbólico foi usado por setores que queriam legitimar a intervenção militar, mas ele próprio pertencia a outra geração, a dos tenentes dos anos 1920. Essa distinção importa porque mostra que o pensamento militar brasileiro da época não era monolítico. Se você está estudando esse período para um trabalho acadêmico ou pesquisa própria, o maior desafio é separar o mito da realidade. Góes Monteiro tem sido retratado ora como um patriota modernizador, ora como um traidor da democracia. A verdade, como sempre acontece nesses casos, é mais confusa. Ele fez escolhas difíceis com informações incompletas, e o impacto dessas escolhas na história brasileira continua sendo debatido. O que dá para afirmar com segurança é que ele deixou marcas profundas na estrutura do Exército brasileiro e que seu papel no alinhamento do Brasil aos EUA durante a Guerra Fria moldou décadas de política externa.