A pergunta que ninguém se cansa de fazer
A questão é simples, mas gera mais fogo do que deveria. Ninguém resolveu nada debater isso há anos. O próprio Michael Adams, que coordenou o Fowler's Dictionary of Modern English Usage, já disse publicamente que a variante sem hífen está vencendo em todos os grandes corpus linguísticos. Dicionários como o Oxford e o Merriam-Webster já listam ebook como a forma principal. A língua escrita segue o mesmo caminho da pronúncia: a gente fala "e-book" como duas sílababas rapidinhas, e quando vai pro papel, a tendência natural é colar. Tem gente que ainda insiste no hífen por tradição, e isso é legítimo. O Acordo Ortográfico de 1990 não proibiu o hífen em compostos com "e-", então tecnicamente ambas as formas estão corretas. Mas "correta" não quer dizer "dominante". Vejo autores e editores brigando por isso em grupo de WhatsApp, e é sempre o mesmo argumento repetido.
Por que a disputa ebook ou e-book existe
Porque a regra geral dos prefixos em português diz que se o segundo elemento começa com a mesma letra que termina o prefixo, usa-se hífen. "Micro-ondas", "-receita", coisas assim. Aí vem o caso do "e-", que é um prefixo vocalítico, e a coisa fica confusa porque a ortografia portuguesa ainda tá em formação pra tantos termos tech. O que aconteceu foi isso: quando a palavra começou a ser digitada, ninguém parou pra colocar hífen. Teclou-se direto como uma palavra só. O hábito de digitar colado criou a forma que o público passou a adotar primeiro, e os dicionários tiveram que acompanhar.
O que fazer na prática
A resposta curta é: escolha uma e seja consistente. Misturar as duas formas no mesmo texto é o que realmente incomoda quem lê. Se seu livro usa ebook em todo lugar, não coloque "e-book" do nada na página 47 só porque achou bonitinho. Isso quebra a fluidez visual. Aqui vai um detalhe que pouca gente menciona. A forma sem hífen é muito mais amiga de metadados. ISBN, arquivos de metadata, nomes de pastas, URLs — tudo se quebra mais devagar quando a palavra é escrita sem caracteres especiais. Eu já passei por isso na prática. Montava um fluxo de automação pra upload de capas e metadados num sistema interno, e sempre tinha um arquivo que quebrava porque o nome vinha como "e-book_capa_final_v2.jpg" enquanto o resto do sistema esperava "ebook". O script não encontrava o arquivo. A correção foi padronizar tudo em lowercase, sem hífen, sem acento, e trocar nomes de variáveis num arquivo de configuração. Leva uns cinco minutos, mas o problema em si apareceu porque alguém havia criado o arquivo com hífen semanas antes e ninguém percebeu até o relatório de upload falhar.
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Dicas técnicas que fazem diferença
Se você está formatando um livro pra Kindle, Kobo ou outras plataformas, a grafia em si não muda nada no arquivo final — o e-reader não se importa com a ortografia. Mas a consistência dentro do manuscrito importa. Formatos como EPUB precisam de validação, e erros de formatação surgem mais frequentemente do que o esperado quando se mesclam estilos de escritura. Uma coisa que não muitos sabem: ao gerar um EPUB, se você usar a palavra com hífen em capítulos diferentes de formas mistas, ferramentas de validação como o epubcheck não reclamam — elas não detectam grafia. Mas um leitor humano que pegar o livro vai perceber. E percebe-se também em buscas: Amazon, Google Books e Apple Books indexam termos diferentes como entidades distintas. Isso significa que alguém que procura por "eBook" pode não encontrar seu material se você usou "e-book" em toda a descrição. Não é dramático, mas afeta visibilidade real de catálogo.
O lado chato que ninguém anuncia
O uso massivo da forma sem hífen trouxe um efeito colateral que merece ser dito. Autores não nativos de inglês, especialmente falantes de português e espanhol, às vezes escrevem "e-book" achando que é a forma padrão internacional, mas em catálogos globais a maioria dos distribuidores mostra a forma colada. Isso gera estranheza do lado de fora do mercado lusófono. Se seu livro será distribuído internacionalmente, ebook é a aposta mais segura. Se for só para o Brasil ou Portugal, ambas as formas funcionam, mas fique atento ao público-alvo: leitores mais jovens e acostumados com internet praticamente não usam hífen mais. Aconselho ainda dar uma olhada no Corpus do Português e no Globo Corpus. Se quer base empírica, eles mostram a frequência exata de cada variante ao longo dos anos. É um dado concreto em vez de opinião de fórum.
No fim das contas, a decisão não é sobre certo ou errado. É sobre coerência, público e onde seu livro vai circular. Escolha, aplique por inteiro, e não gaste energia com o resto.