Entendendo a redação do ENEM de 2009
A proposta de redação do ENEM 2009 pedia uma dissertação-argumentativa sobre o tema "O manejo da terra no Brasil: desafios entre a tradição e a modernidade". O texto de apoio apresentava dados sobre o uso do solo brasileiro, a concentração fundiária e as pressões entre produtores tradicionais e o agronegócio moderno. A tarefa era discutir o tema a partir de uma perspectiva crítica, sem necessariamente apresentar soluções práticas detalhadas, mas demonstrando domínio da problemática.
O que esperavam na enxem redação 2009
Os corretores avaliaram cinco competências naquele ano. A primeira, compreensão do tema e do tipo textual, era a mais eliminatória. Muitos candidatos escreveram sobre genericamente "meio ambiente" ou "desmatamento" e perderam pontos pesados porque fugiram do foco principal: o manejo da terra propriamente dito, com seu conflito entre tradição e modernidade. Outro erro recorrente era transformar o texto em um manual de instruções agrícolas em vez de desenvolver um argumento sustentado. Na competência de organização do texto, notei que candidatos que conseguiam separar claramente introdução, desenvolvimento e conclusão — mesmo com argumentos simples — tinham desempenho significativamente melhor do que aqueles que tentavam ser criativos estruturalmente e acabavam se perdendo. A estrutura clássica com três parágrafos de desenvolvimento funcionou para a grande maioria dos que atingiram notas acima de 700.
Como construir uma boa argumentação nesse tema
O ponto central era o conflito entre práticas tradicionais e modernas de manejo. Uma linha argumentativa sólida partia da constatação de que o Brasil possui ambas as realidades coexistindo de forma desigual. A concentração fundiária mencionada no texto de apoio era um dado factual importante a ser utilizado. Canais como a reforma agrária, a agricultura familiar e a expansão das fronteiras agrícolas podiam compor o raciocínio. Um problema que vi repetidamente foi o uso de dados inventados ou generalizações sem fundamento. Colocar "segundo estudos, 80% dos produtores praticam manejo sustentável" funciona apenas se a fonte existir de verdade. Um candidato que citei anos depois perdeu pontos na competência 3 exatamente por usar dados que não podiam ser verificados. O conselho prático é: use os dados do próprio texto de apoio quando possível, ou restrinja-se a argumentos lógicos que não dependam de estatísticas externas.
A coerência entre parágrafos também era frequentemente negligenciada. O segundo parágrafo precisava conectar-se logicamente com o primeiro, e o terceiro com o conjunto anterior. Conectivos como "além disso", "por outro lado" e "em consequência" eram ferramentas adequadas, desde que empregados de forma sensata e não como decoração. Inserir "portanto" onde não havia relação de conclusão soava artificial e os corretores percebiam isso rapidamente.
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Dicas práticas de elaboração
O tempo de prova era apertado. Na prática, dedicar cerca de 15 a 20 minutos para o planejamento antes de começar a escrever fez diferença clara. Anotar três argumentos principais e a conclusão prevista antes de redigir evita que o texto fique desbalanceado. Um candidato que passou 40 minutos escrevendo e apenas 5 planejando tipicamente produzia desenvolvimento desproporcional e introdução ou conclusão truncadas. Sobre a linguagem, evite expressões informais como "beleza", "tipo", "né" ou construções coloquiais. A norma culta não exige vocabulário rebuscado, mas exige precisão. Substituir "o governo tá deixando acontecer" por "o poder público demonstra omissão perante o cenário" é uma mudança simples que impacta diretamente a nota na competência 5.
Outro aspecto que mereceria mais atenção é o tratamento das contra-argumentações. Não era obrigatório, mas reconhecer que o agronegócio gera emprego e renda, por exemplo, e em seguida qualificar esse reconhecimento, demonstrava maturidade argumentativa. Esse tipo de nuance separava redações de nível intermediário das que alcançavam faixa alta.
Problemas comuns que reduzem a nota
A deficiência mais frequente era a falta de projeto de texto. Isso significa que o candidato ia escrevendo sem direção definida, o que resultava em conclusões que não dialogavam com os argumentos apresentados no corpo. Outro defeito comum era a repetição de ideias sob diferentes palavras, preenchendo espaço sem avançar o raciocínio. Um parágrafo que dizia a mesma coisa do outro, mesmo com conectivos diferentes, contava como desenvolvimento insuficiente. Na esferagramática, erros de concordância nominal e verbal eram punidos de forma cumulativa. Não é um erro que invalida a prova, mas cinco erros do mesmo tipo somados geram impacto significativo na competência 4. Revisar os últimos cinco minutos da prova focando exclusivamente em concordância e regência costuma recuperar pontos que caso contrário seriam perdidos.
Não existe modelo único de redação perfeita, mas o tema de 2009 premiava textos que demonstravam familiarity com a realidade brasileira e capacidade de articular conceitos como concentração fundiária, sustentabilidade e desenvolvimento econômico de forma integrada. Quem tratou o assunto de forma superficial, reduzindo-o a "precisamos preservar a natureza", não conseguiu sustentar o nível de complexidade exigido pela banca naquele ano.