O que você precisa saber sobre o uso de medicamentos de venda livre no Brasil
Muita gente acha que porque é isento de prescrição, significa que é inofensivo. Isso é um erro que eu vejo acontecer todos os dias na farmácia e nos fóruns de saúde. Vou explicar como funciona a realidade desses produtos e o que você deveria considerar antes de automedicar, baseado no que eu vejo na prática.
Entre os medicamentos mais comuns consumidos no Brasil
Se você olhar dados da Anvisa e de pesquisas de mercado, os campeões de consumo regular são coisas simples: paracetamol, ibuprofeno, omeprazol, loratadina e dipirona. Esses cinco representam uma fatia enorme do mercado de automedicação. O problema é que todo mundo tem uma história diferente com esses remédios, e o que funcionou para o colega de trabalho pode te dar dor de cabeça. Achei que sabia o suficiente sobre interações medicamentosas quando comecei a me interessar pelo assunto há alguns anos. Fui procurar dados porque minha mãe fazia uso crônico de omeprazol sem acompanhamento, e eu não gostava do que lia nas bulas. O que descobri foi que a maioria das pessoas não lê as interações corretamente, ou pior, confunde as informações que encontra no Google com orientação médica real.
Um caso específico que me marcou envolve um paciente que eu acompanhei indiretamente. Ele tomava ibuprofeno três vezes ao dia para uma dor crônica nas costas, sem prescrição, por cerca de oito meses. Quando finalmente foi ao médico, tinha gastrite erosiva e níveis elevados de creatinina. A dose que ele usava era dentro da bula, mas o uso contínuo sem monitoramento foi o problema real. A bula sempre menciona os riscos de uso prolongado em letras miúdas, e quase ninguém lê até o final. O que pouca gente entende sobre esses medicamentos é que a eficácia varia muito de pessoa para pessoa, e isso tem a ver com genética, função hepática e renal, e interações com outros itens da lista. Paracetamol, por exemplo, parece seguro. É o remédio que todo mundo toma quando tem dor de cabeça. Mas o limite seguro para adultos saudáveis é de quatro gramas por dia, e muitos comprimidos disponíveis no Brasil vêm com doses de 750mg ou 1g. Se você toma dois comprimidos de uma vez e depois toma outro quatro horas depois porque a dor voltou, já está em 2g em menos de um dia. Se tomar álcool durante esse período, o risco de lesão hepática aumenta significativamente.
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A dipirona segue um caminho diferente. Ela é amplamente utilizada no Brasil e em vários países em desenvolvimento, enquanto na América do Norte e em partes da Europa foi banida devido a relatos raros de agranulocitose. No Brasil, o uso é consolidado, mas ainda assim existem contraindicações importantes. Pessoas com tendência alérgica a anti-inflamatórios não esteroidais podem ter reatividade cruzada. E o uso em gestantes, especialmente no terceiro trimestre, é contraindicado porque pode fechar precocemente o ducto arterioso do feto. Omeprazol e outros inibidores da bomba de prótons merecem atenção especial. Muita gente usa para azia ocasional, mas o uso contínuo por mais de oito semanas sem supervisão médica pode causar hipomagnesemia, redução da absorção de vitamina B12 e aumento do risco de fraturas ósseas. Eu vi isso acontecendo com um paciente meu que achava que o remédio era inofensivo porque vinha na caixa amarela da farmácia, sem receita. Os sintomas de deficiência de magnésio demoraram meses para aparecer, e quando apareceu, eram câimbras noturnas e formigamento nas extremidades. A correção foi simples, mas o tempo perdido foi desnecessário.
Loratadina e outros antihistamínicos de segunda geração parecem seguros porque não causam sonolência significativa. O problema é que algumas pessoas metabolizam esses medicamentos de forma diferente devido a variantes genéticas no fígado. Para a maioria das pessoas, uma dose de 10mg por dia resolve. Para outras, o efeito dura menos tempo, e elas acabam tomando mais do que o recomendado, achando que o remédio não está funcionando. O que eu recomendo na prática é o seguinte: mantenha uma lista dos medicamentos que você consome regularmente, anote a dose, a frequência e o motivo. Quando for à farmácia, leve essa lista. O farmacêutico pode ajudar a identificar interações básicas, mas ele não substitui o médico para decisões terapêuticas. Se um medicamento está resolvendo seu problema há menos de duas semanas, provavelmente não há urgência. Se já passou desse prazo e você continua precisando dele, marcarei uma consulta.
Também é útil saber que a forma farmacêutica importa. Comprimidos revestidos não devem ser partidos, cápsulas não devem ser abertas, e suspensões devem ser agidas antes do uso mesmo que a embalagem não diga. Eu já vi gente triturar comprimidos de liberação retardada e acabar recebendo a dose toda de uma vez, o que aumenta drasticamente o risco de efeitos adversos. Os dados da Anvisa mostram que a automedicação cresce principalmente em períodos de crise, como durante a pandemia de covid-19. Nesse período, o consumo de vitaminas, imunomoduladores e anti-inflamatórios disparou. Muitas dessas compras foram baseadas em informações equivocadas encontradas em redes sociais. Medicamentos que não têm indicação comprovada para prevenção acabaram sendo estocados por anos, até a data de validade, gerando desperdício e, em alguns casos, problemas de descarte inadequado no meio ambiente.
Se você quer organizar melhor o que consome, comece pela geladeira e pela prateleira de remédios em casa. Jogue fora o que está vencido. Anote o que resta com a data de validade. Verifique se algum deles ainda faz sentido estar ali. E se tiver dúvida sobre algo, pergunte ao farmacêutico antes de continuar usando.