Entendendo locução verbal na prática
Locução verbal é quando o verbo principal aparece junto com um verbo auxiliar. A gente forma tempos compostos, vozes, modos e aspectos assim. Parece simples, mas tem uma armadilha que muita gente não vê: o lugar do pronome oblíquo quando você mistura o auxiliar com o verbo principal.
frases com locução verbal
Eu lembro de uma situação em 2019, revisando um contrato. Tinham escrito: "Devendo ser entregue até sexta". Soa correto para muita gente. Mas a norma culta, naquela estrutura com particípio, pede a próclise mesmo quando o gerúndio aparece antes: "Deverá ser entregue" ou, se quiser manter o gerúndio, "Tendo sido entregue". Eu gastei dois dias inteiros discutindo isso com o redator porque a primeira leitura passou batido. O workaround foi criar um checklist de verificação de colocação pronominal em perífrases verbais antes de qualquer revisão final. A estrutura básica é: verbo auxiliar (conjugado) + verbo principal (em forma não pessoal: infinitivo, gerúndio ou particípio). Isso vale para perífrases como "tenho a fazer", "está chovendo", "foi construído".
O problema é que muitos gramáticos tratam locução verbal como sinônimo de perífrase verbal, mas não é bem assim. Locução é qualquer agrupamento de dois ou mais verbos. Perífrase implica mudança de aspecto ou significado. Na prática, você pode ter locução sem perífrase: "Vou estudar" é locução, mas o aspecto não muda tanto. Já "Estou estudando" marca continuidade, aí tem perífrase. Outra nuance que os manuais esquecem: na língua falada, brasileiro médio usa "Ela tinha terminado quando eu chego" sem piscar. O correto seria "Ela tinha terminado quando eu cheguei" ou, no discurso coloquial, "Ela já tinha acabado quando eu cheguei". A concordância de tempo verbal na locução é onde a maioria das gírias e erros informais aparece.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Se você trabalha com tradução ou redação técnica, a queda mais comum é na voz passiva analítica: "Foi aprovado o edital" versus "O edital foi aprovado". A primeira estrutura com locução verbal exige que o sujeito paciente venha depois do particípio ou que se reestruture a frase. Eu costumava simplesmente mover o sujeito para antes do verbo auxiliar e resolver. Há ainda o caso do infinitivo flexionado em locuções: "É necessário que vocês façam" versus "É necessário fazerem isso". A segunda soa estranha para muitos ouvidos, mas égramaticalmente aceitável em registros formais. Na prática profissional, eu nunca recomendo o infinitivo flexionado após locução verbal porque o risco de soar artificial ou criar ambiguidade de sujeito é alto demais.
O que menos aparece nos cursos: a locução verbal com modal pode variar muito conforme o registro. "Preciso ir", "Tenho de ir", "Devo ir" — todas são corretas, mas carregam nuances diferentes de obrigatoriedade. Em textos jurídicos, prefiro "deve ser observado" a "tem de ser observado", simplesmente porque soa menos ambíguo para leitores leigos. Para quem estuda para concursos, o pulo do gato é fixar a regra de que, com verbos auxiliares no futuro do pretérito ou no presente do indicativo, a ênclise geralmente some e a próclise domina: "Me diga o que fez", "Seja qual for o motivo". A exceção é quando o auxiliar está no imperativo afirmativo: "Diga-me", "Faça-o".
Um último ponto prático: ao usar ferramentas de revisão automática, muitas delas falham em identificar erros de locução verbal porque tratam cada verbo isoladamente. Eu configurei macros personalizadas para capturar sequências de dois verbos e verificar a conjugação cruzada. Funciona em cerca de oitenta por cento dos casos, sobrando os vinte restantes para revisão manual.