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Funções da palavra QUE | Portugues para concurso, Linguagem não verbal ...

As funções da palavra que

A palavra "que" é uma das mais frequentes do português e, por isso mesmo, uma das mais mal compreendidas. Você já deve ter visto gente travar num teste de português porque não sabia se era pronome relativo, conjunção ou partícula expletiva. A questão é que "que" cumpre papéis tão diferentes que, sem um método prático de identificação, a confusão é inevitável.

Como identificar as funcoes da palavra que na prática

O primeiro passo é parar de decorar listas de definições e começar a fazer uma pergunta simples: a palavra "que" está substituindo algo ou ligando duas ideias? Se está substituindo um termo anterior e funcionando como sujeito, objeto ou complemento dentro de uma oração subordinada, você tem um pronome relativo. Se está conectando orações com sentido de causa, consequência, concessão ou finalidade, trata-se de uma conjunção. Achei isso mais claro depois que passei a sublinhar o termo antecedente sempre que encontrava um "que" em textos técnicos ou contratos. Isso te obriga a rastrear a relação sintática e evita erros grosseiros que muita gente comete.

Vou dividir pelas funções principais. Começo pela mais problemática porque é onde as pessoas mais erram.

Pronome relativo

O pronome relativo "que" retoma um substantivo ou pronome mencionado anteriormente, chamado de antecedente, e exerce uma função sintática dentro da oração subordinada adjetiva. Pode ser sujeito, objeto direto, objeto indireto, complemento nominal, adjunto adnominal ou predicativo do sujeito. Exemplo básico: "O relatório que eu entreguei tinha erros." Aqui, "que" retoma "relatório" e funciona como sujeito da oração "que eu entregui" — na verdade, correto? Não. Deixa eu reformular: "O relatório que eu entreguei" — "que" é objeto direto de "entreguei", e "eu" é o sujeito. O antecedente é "relatório".

O diferencial aqui é a regência. Quando o verbo regido pelo pronome relativo exige preposição, essa preposição aparece antes do "que". "A matéria de que você precisa" — o "de" não some porque o "que" é objeto indireto. Eu já vi muito material didático ensinar errado nesse ponto, dizendo que a preposição "pertence ao que". Na verdade, a preposição pertence ao verbo, e o "que" simplesmente se adapta a ela. Um caso que gera dor de cabeça recorrente é o "que" como sujeito. "Fui eu que fiz o relatório." Muita gente concordaria errado aqui, escrevendo "fomos" no verbo seguinte, porque acha que o sujeito é "eu" no plural. Mas o antecedente de "que" é "eu", e o verbo deve concordar com ele: "foi". A menos que o antecedente seja claramente plural: "Fomos nós que fizemos o relatório."

Conjunção subordinativa

Quando "que" liga orações, pode ser integrante, causal, consecutiva ou final. A subordinativa substantiva (conjunção integrantal) é aquela que introduz orações que completam o sentido de verbos de significado incompleto: "Preciso que você venha." Aqui, "que" não tem antecedente. Ele simplesmente introduz uma oração subordinada substantiva objetiva direta. Já a causal: "Choveu, que o chão ficou molhado." Note que o "que" aqui equivaleria a "porque". É comum confundir com consecutiva, mas a diferença é que na causal o "que" explica o motivo, enquanto na consecutiva ele exprime consequência de uma intensidade expressa antes: "Tão choveu, que o chão ficou molhado." A presença do "tão" (ou "tanto", "tao", "tal") é o marcador óbvio da consecutiva. Sem esse marcador, você provavelmente está diante de uma causal, ainda que informal.

Final: "Estudei muito para que você aprovasse." O "para que" é a marca clássica da conjunção final. Sozinho, o "que" raramente marca finalidade sem essa preposição antecipada.

Conjunção coordenativa

Existe um uso muito pouco discutido: "que" como conjunção coordenativa adversativa, equivalente a "mas". Aparece em construções do tipo "Não disse que não, que eu disse sim." Ou, mais clássico: "Trabalhou muito, que ninguém viu." Nesse segundo caso, o "que" funciona como "mas", trazendo uma ideia de oposição ou correção. É um uso mais literário ou coloquial, mas presente em textos formais também. Outra leitura possível aqui, dependendo do contexto, é a de uma consecutiva elíptica: "Trabalhou tanto, que ninguém viu." A ambiguidade existe e é real. Sem mais contexto, ambas as análises são defensáveis.

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Partícula expletiva ou de realce

Às vezes, o "que" aparece sem função sintática clara. É a partícula expletiva: "Eu é que sou o responsável." Nesse caso, "que" não substitui nada nem liga orações. Ele apenas enfatiza o termo anterior. A oração "Eu sou o responsável" já está completa semanticamente. O "que" é opcional e pode ser suprimido sem prejuízo gramatical. Outro exemplo clássico: "Faz dois anos que não o vejo." Aqui, o "que" introduce uma oração adjetiva restritiva, mas há autores que tratam esse uso como partícula explicativa por funcionar como marcador de relação temporal. Não há consenso absoluto na literatura, e eu pessoalmente prefiro manter a análise de pronome relativo com função de adjunto adverbial de tempo, porque "dois anos" funciona como termo auquel "que" se relaciona.

Como resolver ambiguidades na prática

O problema mais chato que eu enfrentei foi num contrato de prestação de serviços onde aparecia: "O cliente que comunicar alterações deverá fazê-lo por escrito." A ambiguidade era dupla: "que" podia ser pronome relativo (referindo-se a "cliente") ou conjunção integrantal introduzindo uma oração substantiva. A leitura como pronome relativo faria sentido: "O cliente que comunicar alterações..." = "Aquele cliente que comunicar alterações...". Mas a estrutura estava mal pontuada e gerava dúvida sobre a escopo da restrição. A solução que eu usei foi verificar a coerência com o resto do contrato. Em vários pontos, o texto usava "que" como conjunção integrantal depois de vírgulas. Não havia padrão consistente. Reescrevi para "Aquele cliente que desejar comunicar alterações deverá fazê-lo por escrito" para eliminar a ambiguidade. Foi um ajuste de três palavras que removeu toda a incerteza interpretativa.

Dica prática: quando você encontrar um "que" cuja função não fica clara de primeira, tente substituir por "o qual" ou por uma conjunção sinônima ("porque", "para que", "mas"). Se a substituição soa natural, você identificou a função. Se soa estranho, provavelmente é partícula expletiva ou um uso mais sutil.

Pegadinhas comuns

O uso do "que" depois de verbos no infinitivo impessoal é um campo minado. "É necessário que você venha" está correto. "É necessário vir" também. Mas "É necessário que vir" está errado. O "que" exige um verbo flexionado na oração subordinada. Esse erro aparece com frequência em redações e textos corporativos. Outra pegadinha: a crase antes de "que". "Cheguei à conclusão que não posso adiar." Não há crase porque "que" não é palavra feminina que aceite artigo. A forma correta seria "à conclusão de que não posso adiar" ou simplesmente "conclusão que".

O "que" como conjunção integrante também aparece depois de adjetivos: "Estou certo que vou conseguir." Alguns gramáticos exigem "de que" nesse caso ("certo de que"), mas o uso consagrado permite a elipse da preposição quando o adjetivo tem sentido de convicção. Se você estiver em um contexto extremamente formal, prefira manter a preposição. Em textos corporativos do dia a dia, "certo que" é amplamente aceito.

Resumo rápido para consulta

Pronome relativo: substitui um antecedente e exerce função sintática na oração subordinada. Pode exigir preposição conforme a regência do verbo. Conjunção subordinativa substantiva: introduz orações que completam verbos de significado incompleto. Sem antecedente. Equivale a "que" depois de verbos como "precisar", "saber", "dizer".

Conjunção subordinativa causal/consecutiva/final: liga orações com relação de causa, consequência ou finalidade. Marcadores como "tão...que", "porque", "para que" ajudam a distinguir. Conjunção coordenativa adversativa: equivalente a "mas". Uso menos frequente mas existente.

Partícula expletiva: não tem função sintática. Pode ser suprimida. Usada para ênfase ou estrutura enfática. A regra de ouro é sempre perguntar: tem antecedente? Tem função sintática? Tem valor conectivo? Se a resposta for sim para todas as três, você tem um pronome relativo. Se não tem antecedente mas liga orações, é conjunção. Se não tem função nenhuma e pode sumir, é partícula expletiva.