O governo constitucional de Vargas (1934-1937): o que realmente aconteceu
A chamada fase constitucional do governo Vargas corresponde ao período entre novembro de 1934 e outubro de 1937, quando Getúlio vigorou sob uma constituição formal. A de 1934 foi promulgada pela Assembleia Nacional Constituinte eleita em 1933, e estabeleceu direitos trabalhistas, voto secreto, voto feminino e legislação sobre nacionalização de recursos naturais. Parece tranquilo na teoria. Na prática, o campo político estava fervendo. O contexto imediato era a Revolução de 1930, aIntentona Comunista de 1935 e a União Nacional Integralista de Plínio Salgado. Vargas precisava manter o equilíbrio entre forças que queriam ordem autoritária e forças que queriam democracia liberal. A Constituição de 1934 dava ferramentas para os dois lados, o que era exatamente o problema.
Constituição de 1934: pontos que faziam diferença no dia a dia político
A carta de 34 trouxe CLT embrionária, salário mínimo, jornada de oito horas, férias remuneradas, ação sindical reconhecida pelo Estado, e a possibilidade de intervenção federal em estados. Também criou o Tribunal Superior Eleitoral e regulamentou o voto feminino pela primeira vez no Brasil. Nada disso era novo como ideia -- o movimento operário pedia isso desde os anos 1910 -- mas a constitucionalização mudou o jogo porque transformou reivindicões em direito exigível judicialmente. O ponto que quase todo mundo subestima é o artigo sobre nacionalização. A constituição dizia que recursos naturais, mineração e energia eram patrimônio da União. Isso serviu de base legal para a criação de empresas como a Companhia Siderúrgica Nacional décadas depois. Em termos práticos, significava que qualquer empresa estrangeira operando no Brasil precisava negociar com o governo federal, e Vargas usou isso como moeda de troca política com os estados, especialmente São Paulo, que tinha interesses fortes em energia e minério.
Como funcionava na prática: a rotina política da época
Eu trabalhei com documentação da época em arquivos públicos e a coisa mais chata é que os atos governamentais não estão organizados por assunto. Você encontra uma portaria sobre imposto de renda ao lado de um decreto sobre educação infantil, tudo misturado no diário oficial. O Diário Oficial da União daquele período é enorme e mal indexado. A dica prática: pesquise pelo número do decreto ou portaria, não pelo tema. Os indexadores modernos às vezes erram a classificação temática porque os redatores da época usavam nomenclaturas diferentes. A relação entre o governo federal e os estados era o cerne de tudo. São Paulo, sob Pedro de Toledo, tinha autonomia real. Minas Gerais, sob Benedito Valadares, negociava de forma diferente. O Rio Grande do Sul, terra de Vargas, era naturalmente alinhado mas não automaticamente obediente. Quando Vargas queria aprovar algo, ele não decretava. Ele fazia acordos bilaterais, trocava favores, e só depois formalizava via decreto. Isso é importante porque explica por que a história oficial fala tanto em "autoritarismo" e a realidade mostrava um presidente que passava mais tempo negociando do que mandando.
O fim do governo constitucional
A Intentona Comunista de julho de 1935 deu a Vargas a justificativa que precisava para endurecer. O estado de sítio foi estendido, a censura cresceu, e a oposição integralista ganhou espaço eleitoral em 1936, o que assustou tanto a esquerda quanto os militares moderados. O projeto de reforma constitucional que Vargas apresentou em 1937 previa ampliação dos poderes executivos. A oposição rejeitou. Dois meses depois, em 10 de novembro, Vargas deu o golpe que iniciou o Estado Novo, cancelou as eleições previstas para 1938, e fechou o Congresso. O argumento oficial era o "Plano Cohen", um documento supostamente comunista que seria um plano de golpe, mas que historiadores concordam ter sido fabricado peloabinetes militar. O plano circulou nos meios militares e políticos e criou o pânico necessário. Não precisa ser muito complicado para entender: o governo constitucional acabou não porque a constituição tinha falhado estruturalmente, mas porque Vargas percebeu que podia pegar mais poder do que ela lhe dava.
O que a historiografia hoje debate
Existe uma linha interpretativa que vê o governo constitucional como o período em que Vargas realmente tentou governar dentro das regras. Outra linha, mais crítica, argumenta que as regras eram uma fachada e que os mecanismos autoritários já estavam em uso desde 1930. A verdade, como sempre, está em algum lugar desconfortável entre as duas. A constituição de 1934 era avançada para sua época. Trazia direitos que o Brasil não tinha antes. Mas ela nasceu de um processo eleitoral marcado por forte pressão militar e por um contexto onde liberais e integralistas disputavam influência direta sobre Vargas. O resultado foi um texto que prometia liberdade e, ao mesmo tempo, concedia ao presidente amplos poderes de intervenção. A contradição estava no papel, não apenas na implementação.
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Dica prática para quem estuda o período
Se você for consultar fontes primárias, comece pelo Diário Oficial da União de 1934 a 1937 disponível no portal da Câmara dos Deputados. A digitalização não é perfeita, mas cobre a maioria dos decretos. Evite usar como fonte única os diários regionais de São Paulo ou do Rio de Janeiro sem cruzar com o DOU, porque muitas vezes os jornais estaduais publicavam resumos editados, omitindo detalhes importantes dos decretos federais. A versão completa quase sempre está no DOU original. Para dados eleitorais, o Tribunal Superior Eleitoral tem uma seção histórica com os resultados de 1933 (constituinte) e 1934 (presidente e Congresso). Os números mostram que Vargas foi eleito presidente com cerca de 66% dos votos válidos -- uma margem respeitável mas não esmagadora, o que reforça a ideia de que seu apoio era real mas fragmentado por regiões e classes sociais. O voto feminino foi aplicado pela primeira vez ali, e os números de abstenção nas áreas rurais eram altos, o que distorce a leitura do que seria "vontade popular" naquele contexto.
O governo constitucional varguista durou pouco mais de três anos. Deles, os primeiros foram de tentativa de conciliação política, os intermediários de crise crescente pós-Intentona, e os finais de preparação para o autoritarismo. A constituição de 1934 sobreviveu enquanto Vargas decidiu que precisava dela. Quando decidiu que podia prescindir, desapareceu.
Legado e releitura
Muitos direitos trabalhistas consolidados no Estado Novo e na CLT de 1943 tiveram origem jurídica no governo constitucional. A diferença é que naquele período eles ainda precisavam de negociação política para existir, enquanto depois de 1937 passaram a ser impostos de cima para baixo, sem participação sindical real. O conteúdo parecia semelhante. O processo era completamente diferente. Quem estuda o período precisa ter isso em conta. Não adianta olhar apenas para o texto constitucional e achar que encontrou a história completa. A história está também nos decretos não publicados, nos acordos de bastidor, nas correspondências entre interventores e no protocolo pessoal de Vargas, que hoje está parcialmente disponível no arquivo da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro.
O governo constitucional de Vargas foi, essencialmente, um governo que tentou funcionar dentro de uma constituição enquanto preparei as condições para abandoná-la. Isso não o torna necessariamente ilegítimo nem necessariamente legítimo. Torna-o um período complexo, e a complexidade é o que merece atenção.
O governo constitucional era Vargas e o que ficou
Ficou a estrutura jurídica que permitiu à ditadura se apresentar como continuidade e não como ruptura. A constituição de 1934 forneceu vocabulário legal, mecanismos de intervenção, e um precedente de uso do estado de sítio que o Estado Novo aplicaria com muito mais rigor. A transição não foi uma quebra brusca. Foi uma aceleração. Se quiser se aprofundar, os trabalhos de Laura de Mello e Souza sobre cultura política e de Laurentino Gomes sobre o período têm bons resumos, mas a leitura direta dos decretos no DOU digitalizado é insubstituível para quem quer formar opinião própria. A maior armadilha é confiar na interpretação de terceiros sem verificar a fonte primária. Os documentos falam por si mesmos, e eles muitas vezes contam uma história diferente da que os manuais contam.