O que foi a gripe espanhola e como ela afetou o Brasil
A gripe espanhola chegou ao Brasil em março de 1918, mais ou menos na mesma época em que assolava a Europa, e não teve nada de espanhol. O nome veio porque a Espanha, neutra na Primeira Guerra Mundial, podia noticiar a doença livremente enquanto os países em guerra faziam censura. Quando os jornais brasileiros finalmente começaram a falar do assunto, o vírus já estava espalhado. O primeiro caso registrado com certeza foi em Recife, no início de 1918, mas logo o surto se espalhou pelo sertão e chegou às grandes cidades pelo sistema ferroviário e marítimo. A cidade que mais sofreu foi São Paulo, com cerca de 40 mil mortes em três meses. O Rio de Janeiro, na época a capital federal, perdeu algo em torno de 30 mil pessoas. Curitiba, Porto Alegre, Belém e Salvador também tiveram taxas de mortalidade altas. Estima-se que o Brasil tenha tido entre 300 mil e meio milhão de mortos num população que não passava de 30 milhões na época.
Gripe espanhola no brasil: o que a maioria das pessoas não sabe
A coisa mais importante sobre a gripe espanhola no Brasil que os livros didáticos costumam deixar de fora é que ela não atingiu todo mundo igual. As populações indígenas foram devastadas de forma desproporcional. Comunidades inteiras no Norte e no Centro-Oeste foram dizimadas porque não tinham nenhuma imunidade prévia. O Serviço de Proteção aos Índios, criado em 1910, praticamente entrou em colapso durante o surto. Não havia medicamento, não havia vacina, e os funcionários do SPI muitas vezes morriam junto com as comunidades que deveriam proteger. Outro ponto que passa despercebido: a gripe espanhola matou mais jovens adultos do que idosos. Isso é incomum para gripe comum, que geralmente ceifa mais velhos e muito jovens. O vírus causava uma pneumonia viral extremamente agressiva que atacava pulmões saudáveis. Pessoas de 20 a 40 anos eram as que mais morriam, o que afetou diretamente a força de trabalho e a economia brasileira num momento já delicado pós-Primeira Guerra.
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As medidas de contenção variavam muito de cidade para cidade. São Paulo fechou escolas, teatros e cinemas por cerca de dois meses. O prefeito na época, Francisco Prestes Maia, ordenou quarentenas e distribuiu máscaras de pano, que obviamente não funcionavam muito bem. No Rio de Janeiro, o governador tentou impedir a entrada de trens vindos de outras regiões, mas era tarde demais. Porto Alegre chegou a isolar doentes em hospitais de campanha improvisados em barracões. Nenhuma dessas cidades tinha estrutura de saúde pública para lidar com algo daquele tamanho. Existe um detalhe técnico que muita gente ignora: a cepa H1N1 da gripe espanhola era letal justamente porque causava uma tempestade de citocinas. O sistema imunológico dos jovens respondia de forma exagerada, causando edema pulmonar e morte por insuficiência respiratória. Isso explica o padrão estranho de mortalidade. Anos depois, quando os pesquisadores voltaram a estudar os tecidos preservados de vítimas daquela epidemia, confirmaram que o vírus era parente próximo das cepas aviárias, não humanas. A transição ocorreu provavelmente entre suínos e humanos em algum ponto da Ásia ou dos EUA antes de chegar à Europa.
Um problema real que encontrei ao pesquisar sobre isso diz respeito aos registros municipais de óbito. Muitas prefeituras da época não registravam a causa da morte de forma padronizada. Em algumas cidades do interior paulista, encontrei atas camarárias que mencionam "febre grave" ou "moléstia epidêmica" sem especificar. Quando você tenta fazer contagem precisa de vítimas por município, os números reais costumam ser 20 a 30% maiores do que o que consta nos documentos oficiais. O conselho aqui é cruzar sempre os registros com jornais da época e com os livros do Hospital da Consolação ou do Santa Casa, que tendem a ser mais detalhados. Se você está estudando o tema, recomendo começar pela obra de Carlos Lotufo, "E o Brasil não estava afundando", que tem uma análise bastante sólida sobre o impacto econômico e social da epidemia. Para dados demográficos, o IBGE publicou estimativas retroativas que são úteis, mas tenha em mente que são reconstruções, não dados originais. O artigo de Nancy Stepan sobre saúde pública no Brasil republicano também é essencial, apesar de ter sido escrito há décadas e ainda ser uma referência.
Um equívoco comum é achar que a gripe espanhola acabou sozinha porque "o vírus passou". Ela continuou presente no território brasileiro pelo menos até 1920, com surtos sazonais recorrentes. Só com a chegada da vacina contra influenza, muito tempo depois, é que esse tipo de pandemia deixou de ser uma ameaça recorrente no país. Até lá, a gripe seasonal mata anualmente algo em torno de 30 mil brasileiros, segundo dados recentes da SVMS.