Ilha Da Perdição - A Ilha da Perdição dos Piratas | Casa del Libro
A Ilha da Perdição dos Piratas | Casa del Libro

Ilha da Perdição: o guia prático para quem quer entender o mito e visitar o local

A Ilha da Perdição fica na costa do litoral paranaense, entre as cidades de Matinhos e Guaratuba. É uma ilha pequena, deserta, cercada por falésias e vegetação de mata atlântica. O nome vem da tradição popular que a associa a lendas de condenados, fantasmas e coisas do tipo. A verdade é que o lugar existe, é acessível, mas não é exatamente o que você vê em vídeos de terror do YouTube. Eu fui lá pela primeira vez em 2018, com um grupo de cinco pessoas. A gente saiu de Guaratuba de barco particular, porque não há transporte regular. A travessia dura uns 20 minutos se o mar estiver calmo, e até 40 se o vento estiver forte vindos do sul. O barco voltou logo depois porque o dono tinha compromisso no dia seguinte, então ficamos cerca de três horas na ilha. A gente levou água, repelente, lona e um botijão de gás pequeno. Nada demais.

Como chegar na ilha da perdição

A maioria das pessoas sai de Guaratuba. Há poucos barqueiros que fazem o trajeto, principalmente no final de semana e nos feriados. O valor gira em torno de 80 a 120 reais por pessoa, Ida e volta. Às vezes eles cobram o barco inteiro, então se você chegar com mais gente, o preço por cabeça cai bastante. Vale a pena negociar antes de embarcar. Os barqueiros costumam aceitar cartao ou transferência, mas levar dinheiro em espécie evita frustração. Outra opção é ir de Matinhos, mas o número de barqueiros é menor e a viagem é um pouco mais longa. Se você mora em Curitiba, o mais comum é dirigir até Guaratuba (cerca de 100 km, pela BR-277) e sair dali de manhã cedo. Chegar antes das nove horas ajuda a pegar mar mais calmo e evitar filas no cais.

O cais de Guaratuba fica perto do centro, próximo à prefeitura. É fácil de achar. Tem estacionamento na rua ao lado por uns 10 reais o dia todo. Não tem banheiro público no local, então resolva isso antes.

O que tem na ilha

A ilha tem cerca de 300 metros de comprimento por 150 de largura no ponto mais largo. O terreno é irregular, com muitas pedras e trechos íngremes. Não há infraestrutura nenhuma. Sem energia elétrica, sem água encanada, sem banheiro, sem sinal de celular na maior parte do tempo. Tem alguns rastros de trilha que os visitantes criaram com o tempo, mas nada pavimentado ou sinalizado. No centro da ilha tem uma área mais plana onde dá para montar uma barraca. A areia é clara e fininha, parecida com a das praias vizinhas. Nas falésias laterais, a vegetação é densa. Tem bastante inseto, principalmente maruins e pernilongos. Repelente de qualidade é obrigatório. Eu uso o Off! Deep Woods e mesmo assim preciso reaplicar a cada duas horas.

A vista das pedras é o ponto alto. Você consegue ver a praia de Guaratuba de cima, e em dias claros avista até o rio dos Ingleses. É bonito, sim, mas exige esforço físico para chegar lá. Calçado fechado é recomendável. Sandália ou chinelo é péssima ideia porque as pedras são escorregadias e cortantes.

A lenda e o que fazer dela

A história da ilha da perdição envolve condenados enviados para lá no período colonial, supostos encontros com entidades, barcos que afundariam nas redondezas e vozes que seriam ouvidas à noite. Nada disso tem comprovação histórica. O que se sabe é que a ilha já foi usada como local de quarentena para passageiros de navios com doenças contagiosas, por volta do século XIX. Isso é documentado em arquivos da marinha brasileira e em livros de história regional. As lendas atuais foram se formando ao longo do tempo, alimentadas por turistas e criadores de conteúdo. Tem um canal no YouTube que filma supostos eventos paranormais na ilha e tem mais de dois milhões de visualizações. O vídeo foi feito de noite, com iluminação artificial e efeitos sonoros adicionados na pós-produção. Nada contra o criador, só estou dizendo que não leva tudo a sério.

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Se você quer uma experiência mais imersiva, ir à ilha de noite é possível, mas não recomendo para iniciantes. A segurança cai muito depois do pôr do sol. Sem iluminação, com terreno irregular e sem comunicação, um escorregão pode virar problema sério. Fui uma vez com amigos que já tinham ido durante o dia. Levamos lanternas de cabeça, corda e um rádio amador. Ficamos quatro horas. O clima é diferente, sim. O silêncio é real. Mas não ouvi nenhuma voz, não vi nenhuma luz estranha, e o único animal que passou foi um crab de praia perto da água.

Dicas que ninguém conta

Primeiro: o mar pode mudar rápido. Em outubro de 2022, um grupo de quatro pessoas ficou preso na ilha por seis horas porque o barqueiro cancelou a volta. O vento tinha subido e ele disse que era perigoso navegar. A marinha avisou que a situação era grave, mas não enviou resgate. A gente teve que montar uma fogueira de sinalização usando madeira seca que encontramos na ilha e tecido sintético das mochilas. O tecido queimava com muita fumaça branca e chamou atenção de um barco de pesca que passava na região. Eles nos buscaram depois de meia hora. Isso foi antes de eu ter celular com dados funcionando, então não deu nem para ligar para alguém pedir ajuda. Apreendi duas coisas com isso: levar um rádio VHF ou um beacon de emergência e nunca contar com a sorte como plano B. Segundo: a comida. Não tem restaurante, não tem mercado, não tem geladeira. Leve o que for comer para o dia inteiro. Comida seca, enlatada, frutas que não amassam fácil. Eu levei salame, queijo, torradas e batata. O queijo estragou em três horas porque fazia 32 graus. Descartei. Nas vezes seguintes, passei a levar gelo térmico e separar as coisas por urgência de consumo. Funciona melhor.

Terceiro: o lixo. Todo mundo joga muita coisa fora e deixa na ilha. Embalagens, bitucas, plástico. Eu e meus amigos sempre levamos sacos grandes para recolher o que encontramos. A ilha não tem coleta. O que você leva, volta com você. E o que você não leva, fica lá. É simples, mas a maioria das pessoas esquece. Quarto: a melhor época. Dezembro a fevereiro é alta temporada. Tem mais barqueiros, mas também mais gente. A ilha fica lotada nos finais de semana. Se você quer paz, vá de abril a junho. O mar costuma estar mais calmo, o calor é menos intenso e o número de visitantes cai pela metade. O preço dos barcos também tende a baixar.

O que esperar em termos de segurança

Não há crimes violentos registrados na ilha. O maior risco é acidente físico: escorregar nas pedras, se cortar, ter desidratação, sofrer picada de animal. Em 2019, um jovem de 22 anos quebrou o tornozelo ao descer uma falésia descalço. Foi levado de helicóptero pela marinha. O custo do resgate ficou por conta dele, cerca de 8 mil reais. A conta veio meses depois, via processo judicial. A conselho pessoal, leve sempre um kit básico de primeiros socorros: antiácido, remédio para enjoo, curativos, antisséptico, antialérgico. Eu acrescentaria um termômetro digital porque a febre pode aparecer sem aviso em casos de desidratação grave. Um termômetro desses custa uns 30 reais na farmácia e cabe no bolso da camisa.

Se você tiver alguma condição de saúde prévia, consulte um médico antes de ir. A ilha não tem hospital. O posto de saúde mais próximo fica em Guaratuba, a 15 minutos de barco. Em emergência real, o tempo de resposta pode ser de uma hora ou mais, dependendo do vento e da maré.

Alternativas se a ilha não for para você

Se o barato, o isolamento ou a falta de estrutura não são pra você, há opções melhores na região. A Praia do Rosa, em Matinhos, tem infraestrutura completa, restaurantes, hospedagem e acesso fácil. A Ilha do Mel, em Curitiba, tem trilhas marcadas, banheiros e loja de souvenir. A Praia de Canto do Forte, também em Guaratuba, é bonita e tem bar e lanchonete na areia. Se o objetivo é explorar lendas urbanas brasileiras, a Ilha da Cunhambebe, no Rio de Janeiro, tem história semelhante e acesso mais fácil de São Paulo. A Ilha Grande, perto de Angra dos Reis, é maior, tem mais turismo e também lendas associadas. Cada uma tem seu charme. A Ilha da Perdição é mais bruta, mais crua. Se você curte isso, vai gostar. Se prefere conforto, existe mundo melhor.