Intertextualidade Enem - INTERTEXTUALIDADE - Enem
INTERTEXTUALIDADE - Enem

Como a intertextualidade aparece de fato nas provas do Enem

A maior parte dos candidatos trata intertextualidade como um conceito decorado de literatura e depois tenta encaixar essa definição na hora da prova. O problema é que o Enem não pede para definir o termo. Ele coloca dois textos lado a lado, ou uma charge, ou um poema que cita outro poema, e pergunta o que o autor está fazendo com essa referência. A resposta certa quase nunca é identificar o texto original. É entender a função da referência no contexto do novo texto. Eu corrigia redações de alunos particular há alguns anos. Um deles escreveu sobre migração forçada citandoimplicitamente a música "Pelo Avesso" de Titãs. A citação estava certíssima do ponto de vista literário, mas ele não explicou por que tinha escolhido aquela letra naquele parágrafo específico. A banca não pontuou a citação em si. Pontuou a capacidade dele de articular argumento com repertório sociocultural legitimado. Citar sem articular é igual a ter um dado estatístico solto no meio da.

O que cair de intertextualidade enem

Vamos direto ao que acontece. O Enem usa três modalidades principais de intertextualidade, e elas têm lógica própria. Intertextualidade explícita é quando o texto fonte é identificável. Uma citação textual, um parágrafo que relembra um trecho famoso, um título que brinca com outra obra conhecida. nesse caso, o examinador espera que você perceba a diferença entre o sentido original e o sentido construído no novo contexto. A chargeda revista Piauí de 2019, por exemplo, recortava manchetes jornalísticas e as reorganizava em sequência irônica. Quem dizia apenas "é uma paródia" levava meiacompetência. Quem explicava o mecanismo de descontextualização e ressignificação ia para a nota alta.

Intertextualidade implícita é mais traiçoeira. O texto original não é citado, mas a estrutura, o tom ou um trecho reformulado remetem a outra obra. Isso aparece muito nas questões de interpretação de texto da prova de humanas. Um candidato que só busca nomes próprios de autores vai errar. A dica prática é observar marcadores de estilo, ritmo, escolhas lexicais recorrentes e a posiçãodo enunciador em relaçaodo texto fonte original. Intertextualidade intratextual ocorre quando um texto responde a outro dentro da própria prova. Duas narrativas, dois artigos de opinião, dois poemas. A questão pede para comparar não o que cada um diz isoladamente, mas o que um diz em relaçãoao outro. Muitas vezes a resposta correta é aquela que mostra contraposisão, e não semelhança. O erro mais comum é gastar tempo resumindo os dois textos e esquecer de ler o que a pergunta realmente pede.

Há um detalhe que pouca gente leva em conta. O Enem pode usar intertextualidade de baixo nível de dificuldade, que basta reconhecer, e de alto nível, que exige análise funcional. As questões da área de ciências humanas geralmente pedem análise. As da redação pedem uso estratégico. Não confunda as duas coisas. Um exemplo prático que eu vi acontecer muitas vezes. Aluno lê uma charge que retoma o quadro "Guernica", de Picasso, e marca como resposta que a charge faz uma "alusão pacifista". O gabarito era outra coisa. A charge usava o Guernica para criticar a indiferença diante de uma violência doméstica. A alusão existia, mas a função era outra. Quem marcou a primeira alternativa sabia o que era Guernica e não sabia o que a charge estava fazendo com ele.

Como lidar com isso na prática

A minha rotina de revisão com alunos era simples e direta. Eu pegava questões de provas anteriores dos últimos cinco anos que continham intertextualidade e fazia eles responderem sem consultar nada primeiro. Depois, eu pedia para reescreverem a justificativa usando três elementos obrigatórios: identifiquei o texto fonte, expliquei a mudança de sentido e conectei com o tema da questão. Isso levava cerca de vinte minutos por questão. No começo, os alunos travavam no segundo passo. Era fácil identificar a referência. Era difícil explicar por que ela tinha sido reutilizada ali.

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Para a redação, o caminho é diferente. Você não precisa decorar textos inteiros. Precisa ter repertório legitimado que funcione como ferramenta argumentativa. Um trecho de "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, pode ser mobilizado para discutir vulnerabilidade social. Um fragmento de "Dom Casmurro" pode servir para discutir subjetividade e interpretação da verdade. O importante não é o trecho em si. É a cadeia lógica que você constrói a partir dele. Eu já vi candidato usar intertextualidade de forma forçada e perder pontos justamente por isso. Ele citou um verso de Camões num parágrafo sobre crise sanitária. A citação era bonita, mas não articulava com nada. Ficou flutuando no texto. A banca entende quando você forçou a barra. O recomendável é usar intertextualidade apenas quando ela sustenta um argumento, e não quando você quer parecer culto.

Erros comuns que custam pontos

O primeiro erro é tratar toda referência como intertextualidade. Citar um dado, mencionar um autor sem retomar um texto específico, fazer uma alusão genérica à cultura pop. Isso não é intertextualidade no sentido técnico que a prova cobra. Intertextualidade pressupõe um texto-fonte identificável e uma relação de dependência entre os textos. O segundo erro é achar que intertextualidade só aparece em literatura. Aparece em charges, propagandas, letras de música, discursos políticos, memes que viralizam e ganham camada crítica. O Enem é conhecido por usar material midiático contemporâneo nas provas. Um candidato que só treina com clássicos da literatura vai encontrar surpresas desagradáveis.

O terceiro erro é não ler o texto que está na prova antes de tentar identificar a referência. Isso parece óbvio, mas acontece muito. O candidato reconhece a fonte, entra no modo "sei isso de cor", e esquece de ler o que o autor do texto da banca fez com ela. O resultado é justificativas que explicam o texto fonte em vez de explicar o texto da questão. Existe um limite prático que muitos ignoram. A intertextualidade na redação do Enem só pontua se estiver integrada à tese e aos argumentos. Se você colocar uma citação no desenvolvimento mas não desenvolver o raciocínio a partir dela, a competência três ou quatro pode sofrer. A citação isolada não paga aluguel.

Quando a intertextualidade não funciona

Vou ser direto. Intertextualidade não resolve tudo. Se você não domina a estrutura argumentativa, adicionar referências vai só aumentar o risco de errar. Eu já vi aluno que decorou cinco técnicas intertextuais e aplicou as cinco numa redação de 30 linhas. O texto ficou sobrecarregado, artificial, e a coerência geral desmoronou. A banca penaliza texto forçado tanto quanto texto vazio. Se o seu nível de produção escrita ainda está instável, o caminho mais seguro é focar em coerência, coesão e repertório básico bem articulado. A intertextualidade entra como complemento, não como estratégia principal. Isso não é falta de ambition. É reconhecimento honesto do que cada elemento contribui na nota final.

Para quem já tem base sólida, o treino recomendado é resolver pelo menos quinze questões de provas anteriores dos últimos cinco anos que envolvam intertextualidade explícita e implícita. Anotar o texto fonte, a função da referência e o porquê da resposta certa. Leva cerca de uma semana de estudo concentrado e melhora significativamente a taxa de acerto nesse tipo de questão. O material para praticar está disponível gratuitamente no site do INEP, nas áreas de provas anteriores e gabaritos. Não existe versão paga que seja melhor. O conteúdo é o mesmo. O único diferencial é a curadoria de quem organiza, e existem canais de vestibulares e cursinhos que fazem esse trabalho de graça.

O que diferencia quem acerta de quem erra não é saber mais nomes de obras. É conseguir ler a função de uma referência no exato momento em que a prova apresenta ela. Isso se treina. Não se decora.