Uma leitura que exige trabalho, não só vontade
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908, e morreu no Rio de Janeiro em 1967. Formou-se em direito, mas nunca exerceu a advocacia de forma tradicional. Passou a vida inteira servindo como diplomata em pequenas cidades do interior brasileiro e do exterior. Essa experiência é o que permite entender o livro dele, principalmente Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956. O romance é uma narrativa contínua, feita de longas falas do personagem Riobaldo, que conta sua história para um interlocutor silencioso que nunca responde de fato. O livro tem mais de mil páginas em edições normais. Não é algo que se lê em duas tardes de férias.
João Guimarães Rosa: o que ninguém explica direito na introdução
O erro mais comum é começar pela biografia ou por resenhas que tentam resumir a obra. Comece pelo texto. Abra Grande Sertão: Veredas na página 1 e leia os primeiros parágrafos sem pressa. A língua de Rosa é diferente de qualquer outra coisa em português brasileiro. Ele inventa palavras, desmonta sintaxe, mistura o sertanejo com o filosófico de um jeito que parece improvisado mas é meticulosamente calculado. Quando eu li pela primeira vez, parei no capítulo 10 porque não conseguia acompanhar o ritmo das frases. Perdi dois dias inteiros apenas tentando morder o texto. A solução foi ler em voz alta. Não é recomendacro romanceiro, é obrigatório. A prosa dele foi feita para ser ouvida, não para ser escaneada pelos olhos. Colocar o texto na boca muda completamente a percepção da sintaxe quebrada e dos neologismos. Você entende o caminho da frase quando sente o fôlego necessário para atravessá-la. Existe um problema prático que poucos mencionam. As edições comerciais brasileiras usam pontuações diferentes dependendo da editora. A Editora Nova Fronteira tem uma versão com notas extensas. A Rosas de Papel, mais recente, organiza o texto de forma diferente e traz um aparato crítico que ajuda mas também atrapalha se você quer uma leitura rasa. Eu recomendo a edição da Rosas de Papel, de 2017, editada por José Castello. Ela limpa o texto sem descaracterizar e coloca as notas no final, o que evita que você pare a leitura toda hora para consultar explicação.
João Guimarães Rosa escreveu também outras obras importantes além de Grande Sertão. Sagarana, de 1946, é uma coletânea de contos que já mostra o estilo maduro. O Coronel e o Lobisomem, de 1947, reúne mais contos com temas sobrenaturais misturados ao realismo sertanejo. A hora e a vez de Mattos França, de 1952, é um romance mais curto e mais acessível, escrito quase como um diário. Se você está começando, pode abrir por esse. Mas a obra-prima continua sendo Grande Sertão. Ponto. A parte que os manuais de literatura não ensinam é sobre a estrutura. Grande Sertão não tem capítulos convencionais com numeração clara nas edições mais antigas. As divisões são temáticas, não numéricas. Riobaldo fala de um assunto, passa para outro, volta, volta atrás, avança. É proposital. Ele quer que o leitor se perca um pouco, porque a confusão é parte da experiência do sertão. Meu principal problema com isso foi marcar trechos para um seminário universitário. Eu tentei usar marcações por número de página padrão, mas como cada edição muda a paginação, minhas anotações viraram bagunça. A solução que funcionou foi marcar por trechos temáticos em vez de por página. Anotei no caderno algo como "trecho do Diadorim / trechos da jagunçagem / passagem do Demônio" em vez de "página 234". Isso sobrevive a mudanças de edição e ainda organiza melhor o raciocínio.
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Outro detalhe técnico que faz diferença: a sonoridade. Rosa usa muito a aliteração e a assonância como técnica narrativa. Quando Riobaldo descreve uma correria no sertão, as letras repetidas criam uma sensação de movimento que o sentido sozinho não transmite. Li uma análise académica que dizia que isso é herança da tradição oral norte-minas. Faz sentido. Se você ouvir gravações de seresteiros e cantadores da região, percebe parentesco direto com a música de Rosa. Não é coincidência. Ele cresceu ouvindo essas vozes. Existe também uma armadilha comum entre leitores iniciantes. Muitos tentam encontrar um enredo linear em Grande Sertão e se frustram. O livro tem um enredo, sim: Riobaldo conta como se tornou jagunço, sua relação com Diadorim, suas corridas, suas dúvidas existenciais sobre o Demônio. Mas o enredo é secundário. O verdadeiro centro é a reflexão filosófica que Riobaldo faz enquanto narra. Tentar extrair apenas os fatos da história é perder 80% do valor do livro. A questão do Diadorim, por exemplo, é tratada de forma indireta durante todo o romance. A revelação só acontece em momentos específicos, e o livro inteiro gira em torno dessa tensão não dita até o desfecho. É uma construção que leva décadas para ser totalmente compreendida na íntegra.
Um problema real que enfrentei foi com a tradução para outras línguas. Grande Sertão foi traduzido para o inglês por William Grover, com prefácio de Gabriel García Márquez. A tradução é respeitável mas inevitavelmente perde parte do jogo linguístico de Rosa. Palavras inventadas por ele simplesmente não existem em inglês. O tradutor teve que tomar decisões difíceis em cada neologismo. Para quem quer estudar o livro em profundidade, não dá para confiar em traduções. Leia no original. Se o português não for a sua língua nativa, aí sim considere usar a tradução de Grover como apoio, mas nunca como substituto. A obra de joao guimaraes rosa também gerou adaptações cinematográficas. O Grande Sertão: Veredas foi levado ao cinema em 1985, dirigido por Roberto Farias, com José Wilker no papel de Riobaldo. O filme é bom mas incompleto. Cortou quase tudo que é reflexivo e ficou só com a ação. Quem quer entender o livro assistindo ao filme vai ficar confuso, porque o filme funciona como uma aventura de jagunços enquanto o livro é um monólogo filosófico disfarcado de aventura. Não é uma adaptação fiel, é uma reinterpretação. Isso é importante saber antes de gastar tempo com ele.
Existe ainda o lado da crítica académica. Há décadas estudos sobre a obra de Rosa são publicados por universidades brasileiras e estrangeiras. A USP, a UFMG e a PUC-Rio têm linhas de pesquisa ativas. O próprio Brasil comemorou o centenário de nascimento de Rosa em 2008 com eventos em todo o país. Se você quer se aprofundar, procure por edições críticas com aparato bibliográfico robusto. Evite edições de bolso sem notas. Elas simplificam demais e apagam nuances que são centrais para a leitura. A experiência prática de ler Rosa não é agradável no começo. O texto exige esforço, paciência e disposição para reler trechos. Depois de passar pela primeira vez, porém, a recompensa é enorme. Riobaldo se torna uma voz que você ouve nos sonhos por semanas depois de fechar o livro. A maneira como ele Questiona a natureza do bem e do mal, do amor e da violência, permanece ativa na cabeça por um tempo considerável. Não é leitura de entretenimento. É leitura de transformação. E isso é raro em qualquer língua.