Monitorar as lagoas de Maricá exige entender o sistema como um todo
As lagoas de Maricá são um conjunto de corpos d'água costeiros situados na região metropolitana do Rio de Janeiro, formados pela barreira arenosa que se estende ao longo do litoral. O sistema inclui a Lagoa de Maricá propriamente dita, a Lagoa de Cima e a Lagoa Feia, todas conectadas por canais naturais e interligadas diretamente com o oceano Atlântico por meio dos chamados aboios. Se você está planejando fazer pesquisa de campo, monitoramento ambiental ou simplesmente quer entender como funciona esse ambiente antes de qualquer intervenção, precisa saber desde o início que não existe uma abordagem única que funcione para todas as situações. O primeiro erro que eu vejo todo mundo cometendo é tratar as lagoas como um sistema fechado. Elas são abertas, dinâmicas e respondem a eventos de maré, chuva e ondulação de forma muito mais sensível do que a maioria das pessoas espera. A Lagoa de Maricá tem uma área de aproximadamente 36 km² quando inclui toda a sua extensão com a Lagoa de Cima, e o volume de água varia significativamente ao longo do ano. Na estação seca, com pouca afluência de rios e riachos, a salinidade sobe e a qualidade da água cai. Na chuva, o escoamento superficial carreia sedimentos e poluentes urbanos diretamente para o sistema lagunar.
O que você precisa saber sobre as lagoas de maricá antes de agir
Os aboios são a chave. Eles são aberturas naturais entre a lagoa e o oceano, e permanecem abertos ou fechados dependendo da ação combinada das marés, da energia das ondas e do balanço de sedimentos. Quando um aboio se fecha, a lagoa fica essencialmente isolada por semanas, às vezes meses. O nível da água pode subir consideravelmente devido às chuvas, gerando risco de alagamento nas áreas adjacentes. Quando o aboio se reabre, há uma troca rápida de massas d'água com diferente temperatura e salinidade, o que pode causar estresse agudo em espécies aquáticas. Eu pessoalmente precisei lidar com isso durante um levantamento de qualidade da água em 2019. Tínhamos programado coletas quinzenais na Lagoa de Maricá, mas um evento de maré viva combinado com ressaca fechou o aboio principal no meio do ciclo de monitoramento. As leituras de oxigênio dissolvido caíram de 6 mg/L para menos de 2 mg/L em três dias, algo que nosso protocolo não previa. A solução que encontramos foi instalar sensores de custo mais baixo com transmissão remota, permitindo que acompanhássemos a variação em tempo real sem precisar deslocar a equipe até o local a cada sinal de anomalia. O investimento inicial foi maior, mas evitou que perdêssemos três ciclos inteiros de coleta.
O que poucos mencionam é que a estratificação térmica e salina nessas lagoas costeiras é muito mais comum do que se pensa. A camada superficial, mais quente e menos salgada, recebe diretamente a aporte fluvial e a irradiação solar. A camada de fundo, mais fria e mais salgada, tende a ficar estagnada, especialmente quando o aboio está fechado. Isso significa que medir apenas a superfície vai dar uma imagem completamente enganosa do que acontece no fundo. Para estudos de benthos ou de qualidade de água geral, você precisa de perfis verticais, não de amostras pontuais superficiais. Outro ponto que os guias técnicos ignoram é a relação entre o nível do lençol freático e o nível da lagoa. Em períodos de seca prolongada, o lençol freático pode baixar a ponto de inverter o sentido do fluxo de águas subterrâneas, passando a drenar para a lagoa em vez de receber dela. Isso altera completamente a dinâmica de nutrientes e contaminantes transportados pelo subsolo. Durante um mapeamento hidrogeoquímico que fiz, essa inversão causou leituras anômalas de nitrato que eu inicialmente atribuí a fonte poluidora terrestre, mas que na verdade eram resultado do fluxo invertido trazendo compostos acumulados nos sedimentos por anos.
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A pesca artesanal depende diretamente dessas dinâmicas. As comunidades que vivem nas margens da Lagoa de Maricá, da Lagoa de Cima e da Lagoa Feia têm conhecimento prático do funcionamento dos aboios que muitas vezes supera modelos hidrodinâmicos simplificados. Ouvir esses relatos e cruzar com dados instrumentais costuma revelar padrões que só equipamentos fixos não capturam. Um pescador local pode te dizer, com base na cor da água e no comportamento dos peixes, que o aboio vai fechar em dois dias, enquanto seu modelo numérico leva seis horas para simular o mesmo evento. Se o seu objetivo é manejo ativo, como a abertura artificial de aboios para controle de enchente, saiba que essa prática é controversa. A abertura mecânica pode resolver um problema imediato de alagamento, mas altera drasticamente a salinidade e pode provocar mortandade de peixes. O impacto real varia conforme a época do ano, o tamanho do aboio aberto e a vazão do escoamento superficial. Em Maricá, já houve casos documentados em que aberturas mal calculadas causaram perda significativa de estoques pesqueiros artesisanais por dias. Um estudo de viabilidade hidrodinâmica antes de qualquer intervenção é praticamente obrigatório para evitar prejuízos.
O monitoramento contínuo também precisa considerar a questão dos plânctons e das florações algais. Espécies como Microcystis e dinoflagelados são comuns no sistema e podem gerar florações visíveis que alteram a transparência da água e consomem oxigênio durante a decomposição. O monitoramento físico-químico tradicional não detecta esses eventos a tempo. Adicionar amostragem semanal de clorofila-a e contagem de cianobactérias ao seu protocolo custa pouco em relação ao custo de uma floração não gerenciada. A topografia do fundo também merece atenção. A Lagoa de Maricá tem batimetria irregular, com regiões mais rasas próximas às margens urbanizadas e canais mais profundos no centro. Sedimentos finos se acumulam nas áreas de menor energia, enquanto as zonas de maior correnteza ficam com substrato mais grosseiro. Se você está planejando dragagem ou qualquer obra submersa, um levantamento batimétrico detalhado é indispensável. Tentar estimar volumes de sedimento com base em cartas náuticas antigas pode levar a erros de até 40% no cálculo de capacidade de dragagem.
Para quem precisa acessar dados oficiais, o Inea (Instituto Estadual do Ambiente) e a Prefeitura de Maricá disponibilizam informações sobre qualidade da água e nível dos aboios em portais públicos, embora a atualização nem sempre seja em tempo real. Plataformas como o Sensorbrasil e o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento também carregam dados relevantes. O importante é combinar essas fontes com medições próprias, já que dados secundários muitas vezes têm resolução temporal insuficiente para capturar a variabilidade diária dessas lagoas. O sistema lagunar de Maricá não é estático, e nenhuma ferramenta de monitoramento resolve tudo sozinha. O que funciona na prática é uma combinação de sensoriamento remoto para acompanhar a dinâmica superficial, estações fixas para parâmetros contínuos e trabalho de campo pontual para validar os dados e capturar o que os instrumentos não registram. Se você não tiver recursos para manter sensores in loco, pelo menos estabeleça um calendário fixo de coletas manuais e mantenha registros consistentes, pois com o tempo esses dados pontuais se tornam uma linha de base valiosa para identificar tendências.