Uma visão honesta sobre os livros de Lewis Carroll
Achei o catálogo completo de edições em português da obra de Carroll e resolvi organizar isso aqui. A situação não é tão simples quanto parece, porque Carroll publicou sob um pseudônimo e existem obras separadas versus contos integrados que confundem muita gente. O nome real dele era Charles Lutwidge Dodgson, e ele escrevia como matemático e lógico no Oxford do século XIX. Isso explica por que os livros dele têm essa textura toda de puzzles encenados como narrativa. O mais óbvio, é claro, são Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho. Foram publicados em 1865 e 1871 respectivamente. Depois veio A Caçada ao Snark em 1876, um poema narrativo que funciona quase como um sonho de lógica invertida. E nos anos finais da vida dele, em 1889, publicou Sylvie e Bruno, uma obra dupla que mescla fantasia infantil com crítica social vitoriana pesada. Nenhum desses é leve. Pelo menos não da forma que a cultura pop pintou.
lewis carroll livros: guia prático de leitura
Aqui vai a parte que ninguém conta sobre esses livros. A maioria dos leitores brasileiros encontra apenas edições resumidas ou adaptadas da Alice. Isso acontece porque-editoras grandes preferem versões mais curtas para o público infantojuvenil. Eu li uma edição da Companhia das Letrinhas que cortava cerca de trinta por cento do texto original. Se você quer o material completo, tem que procurar especificamente por traduções que mantenham os capítulos originais, incluindo "Uma conversa com Hidra" e "O Coelho Branco e a Laura". Para Através do Espelho, a situação é pior. As traduções brasileiras costumam simplificar os tabuleiros de xadrez que estruturam a narrativa. O livro inteiro segue a progressão das peças, e isso é fundamental para entender o final. Li uma versão da editora 34 que mantinha o mapa do tabuleiro, o que ajudou muito. Recomendo essa se você quiser realmente acompanhar a lógica interna.
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Eu estava tentando encontrar uma edição confiável do Sylvie e Bruno em português e descobri que praticamente não existe tradução completa disponível comercialmente no Brasil. Encontrei um artigo acadêmico da PUC-Rio que menciona um projeto de tradução em andamento, mas nada publicado oficialmente até agora. Se você lê inglês, a edição da Oxford World's Classics com notas do Stuart Holliday é sólida. Cobre tanto a parte de Sylvie quanto a de Bruno sem cortes. Sobre A Caçada ao Snark, achei tranquilo encontrar edições completas. A tradutora Regina Góes sugere bem os trocadilhos em inglês, mesmo com as perdas inevitáveis. O poema tem dez cantos, cada um seguindo uma sequência lógica diferente, e a tradução preserva essa arquitetura básica.
Onde encontrar e o que evitar
O projeto Gutenberg tem todos os textos originais em inglês sem custo. Para edições em português, a Saraiva e a Companhia das Letrinhas têm versões da Alice que custam entre trinta e cinquenta reais. A editora 34 faz edições mais cuidadosas, mas custa na faixa dos sessenta aos oitenta. Se você quiser ir direto ao autor, a Amazon tem o clássico de 1865 com ilustrações originais de John Tenniel por volta de vinte reais na versão Kindle. Evite edições sem crédito de tradutor. Já vi exemplares onde o texto foi remontado a partir de resumos em vez da tradução direta do original. O resultado é um Alice sem piadas, sem lógica proposital e basicamente um conto infantil genérico. Se o site da loja não mostra o nome do tradutor na ficha catalográfica, não compra. Ou compra e pede devolução.
Uma coisa que poucas pessoas notam: os livros de Carroll trabalham melhor quando você lê em sequência cronológica e não apenas os dois Alices. Começar com a Alice de 1865, passar para a Caçada ao Snark de 1876, depois Através do Espelho de 1871 e terminar com Sylvie e Bruno de 1889 dá uma noção clara de como a escrita dele evoluiu. Ele ficou cada vez mais densos, mais obsessivos com lógica e menos dispostos a enganar o leitor com superficialidade. A Alice original é acessível. Os livros posteriores são quase tratados de lógica disfarçados de prosa. O problema prático mais chato é a padronização de nomes próprios nas traduções. "Alice" vira às vezes "Alicia", "Humpty Dumpty" aparece como "Ovo Pô" em algumas edições antigas e como "Humpty Dumpty" em outras mais recentes. Eu levava meio dia para comparar duas edições da mesma passagem porque os nomes mudavam de um livro para o outro e eu não sabia se estava lendo a mesma coisa. Use sempre a mesma edição para todas as obras se for fazer estudo comparado. Misturar traduções diferentes gera confusão desnecessária.