Liquens E Micorrizas - O que é e como funciona o mutualismo entre micorrizas e plantas? – Nova ...
O que é e como funciona o mutualismo entre micorrizas e plantas? – Nova ...

O que acontece quando você junta fungos e algas no mesmo substrato

Se você já tentou usar micorrizas e líquens junto numa planta e viu resultados estranhos, não é o único. A interação entre esses dois organismos simbióticos costuma gerar conflitos sutis que a literatura básica nunca menciona. Eu comecei a mexer com isso há uns cinco anos, num projeto de restauração de solo degradado, e fui percebendo que a coisa não funciona como todo mundo acha. A primeira coisa que a galera aprende é que líquens são associações entre fungos e algas ou cianobactérias, e micorrizas são associações entre fungos e raízes de plantas. Tá certo. O problema é que ambos competem pelos mesmos recursos no solo, e o fungo micorrízico muitas vezes não consegue estabelecer a simbiose quando a população de fungos liquênicos já domina a área. Isso é importante na hora de decidir a sequência de aplicação.

Como lidar com liquens e micorrizas no campo

No meu caso, eu estava trabalhando com um solo bem ácido, pH na faixa de 4,2, com camadas superficial extremamenteCompactadas por tráfego de máquinas antigas. Apliquei esporos de Glomus clarum junto com propagulos de líquens crustosos. Em três meses, os líquens haviam coberto praticamente toda a superfície do solo em alguns pontos, formando uma crosta que impedia a germinação de sementes nativas. Ao mesmo tempo, as plantas-alvo não tinham desenvolvido micorrízico nenhum nas raízes. A solução que funcionou foi simples, mas demorou para descobrir: aplicar os propágulos de líquen primeiro, deixar eles se estabelecerem por pelo menos oito semanas, e então inocular as micorrizas em áreas pontuais, abrindo pequenos sulcos rasos (cerca de 2cm de profundidade) onde a crosta liquênica era mais fina. A competição direta diminuía bastante. Plântulas de espécies nativas começaram a mostrar colonização micorrízica em torno de 60% após seis semanas dessa segunda aplicação.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Não é uma solução universal. Solo com alta umidade relativa constante tende a favorecer líquens de crescimento rápido, especialmente os foliosos, que podem sufocar a instalação de fungos micorrízicos arbusculares. Em ambientes semiáridos, a dinâmica é completamente diferente, e os líquens crescem devagar demais pra ser um problema real de competição. A questão do pH também é subestimada. Fungos micorrízicos arbusculares em geral preferem pH entre 5,5 e 7,0. Líquens crustosos, por outro lado, toleram pH bem mais baixo, até 3,5 em algumas espécies. Se o seu solo tá abaixo de 5,0, você vai ter liquens prosperando enquanto suas micorrizas sofrem, não importa o quanto você tente. Nesse cenário, a correção com calcário dolomítico na dose de 1,5 t/ha resolveu meu problema, e depois de três meses a colonização micorrízica disparou.

Outro ponto que ninguém fala: a espécie de líquen importa muito. Crustosos como Xanthoria parietina e Pertusaria spp. formam crostas densas que realmente competem. Já líquens fruticosos como Usnea e Parmelia têm estrutura mais aberta e deixam passar água e esporos com mais facilidade. Se o seu objetivo é restauração ecológica, investir em espécies de líquens fruticosos como etapa pioneira pode ser mais produtivo do que tentar controlar os crustosos. Existe também a possibilidade de uso de ambos de forma complementar, não competitiva. Alguns estudos mostram que líquens fixadores de nitrogênio, aqueles que abrigam cianobactérias no filo Nostocaceae, podem enriquecer o solo com nitrogênio disponível e, depois que a população se estabiliza, abrir espaço para fungos micorrízicos. O timing é tudo. Se você aplicar os dois ao mesmo tempo num solo pobre, vai brigar contra a natureza da coisa.