O que são os livros de faroeste antigos
Ao entrar num sebo desses que ainda sobrevivem em bairros populares, logo de cara você encontra pilhas de brochuras amareladas com capas ilustradas por artistas como George Huddleston, Al Parker e Reginald "Sonny" Whitelaw. São os chamados livros de faroeste antigos, edições de massa produzidas entre as décadas de 1940 e 1970, basicamente papel-jornal barato com tintas que desbotam com a luz solar depois de dois anos expostas. No Brasil, elas entraram com força através de coleções das editoras Record, Globo, Continental e, mais tarde, a Linha Futuro da Editora Record que chegou a publicar mais de duzentos títulos só na década de 1960. Nos Estados Unidos, o equivalente são os pulps e os dime novels, mas a versão brasileira tinha uma particularidade: os títulos eram quase sempre traduções apressadas, muitas vezes de versões americanas já resumidas para caber em cem páginas de papel de baixa qualidade. A gramatura do papel era em torno de quarenta e cinco gramas por metro quadrado, o suficiente para rasgar se você virar as folhas com muita pressa. O que diferencia uma edição brasileira daquelas que iam direto dos EUA é a adaptação. Vários autores norte-americanos como Zane Grey, B. M. Bower e Max Brand tiveram suas obras traduzidas e, em muitos casos, cortadas em até trinta por cento do original para enquadrar no formato de brochura popular. Isso significa que quem quer pesquisar o texto integral de um western clássico não vai encontrar nos livros de faroeste antigos aquela experiência completa, mas sim uma versão enxuta feita para o público brasileiro dos anos cinquenta e sessenta. A tradução em si também merece um comentário separado porque muitos desses livros tiveram tradutores não identificados ou créditos atribuídos a supostos estúdios de tradução coletiva, o que dificulta rastrear qual foi a fonte original de cada adaptação.
Como conseguir livros de faroeste antigos hoje
A primeira coisa que eu aprendi foi que se você entrar numa livraria online especializada em usados esperando encontrar exemplares em bom estado, vai gastar muito mais do que precisa. Meu primeiro lote de aquisições custou cerca de duzentos e cinquenta reais em seis livros que estavam, na melhor das hipóteses, em estado regular com algumas manchas de umidade nas páginas finais. Depois de um tempo caçando, descobri que o caminho mais eficiente é ir direto aos grupos deFacebook de colecionadores e aos leilões da Mercado Livre onde vendedores do interior de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul costumam soltar lotes de vinte a cinquenta volumes num único anúncio. Um lote desses custava na faixa de oitenta a cento e vinte reais e, comigo, renderam cerca de quinze títulos selecionáveis. O segredo prático é saber o que procurar e o que deixar passar. As capas dos livros de faroeste antigos têm um padrão visual muito marcado: fundo laranja ou vermelho vibrante, figura central de um cowboy montado ou enfrentando um bandido, tipografia grossa com o título em letras serruchadas. Se a capa estiver rasgada na lombada mas as páginas internas estiverem íntegras, ainda vale a pena comprar porque o conteúdo textuais que tem valor real pra quem lê. Já se houver mofo visível formando manchas pretas em mais de dezesseis páginas consecutivas, aí o livro já está comprometido e não adianta barganhar.
Como avaliar o estado de conservação antes de comprar
Eu costumo pedir sempre fotos das últimas vinte páginas e da contracapa porque é nessas partes que aparecem os defeitos mais sérios. Um detalhe que muita gente ignorapero que faz diferença enorme na durabilidade do exemplar é a colagem da lombada. Nas edições brasileiras dos anos sessenta, a cola usada era à base de amido e com o tempo ela resseca e perde aderência. Se você abrir o livro e notar que as folhas soltam fácil ou que a lombada está com um fileirade microtrincas, vai ter que fazer uma restauração simples com cola de contato ou PVA forte para evitar que o volume desfaça. Gastou-se em média quinze minutos por livro nesse tipo de reparo básico. Outro ponto que ninguém menciona mas faz diferença na hora de guardar a coleção é a sensibilidade à luz. Eu tive um exemplar de Farol de Cime Terra que ficouexposto numa prateleira perto de janela por oito meses e a capa perdeu quase cinquenta por cento da saturação original das cores. O resultado foi uma capa praticamente branca com o desenho ainda visívelnum tom bege pálido. Quem pretende manter esses livros por décadas precisa armazená-los em local escuro ou dentro de sacos de poliéster fechados, o que reduz o desgaste por luz em cerca de oitenta por cento em comparação com a exposição direta.
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Quais títulos valem mais a pena para começar
Se você está montando uma coleção mínima, comece pelos títulos que tinham maior tiragem e menor raridade relativa, porque são os que aparecem com mais frequência nos mercados de usados e o preço fica acessível. A linha Faroeste da Record publicou obras como O Homem que Matou Liberty Valance, versões adaptadas de histórias de Louis L'Amour e diversos originais brasileiros escritos sob pseudônimos como Clay Blair e Charles Kingston. Esses dois últimos eram, na prática, nomes fantoches usados pelos Editores Távora, que produziam roteiros originais pensados especificamente para o mercado nacional e que às vezes tinham qualidade literária surpreendente quando comparados às traduções feitas às pressas. Uma coisa que chama atenção ao ler esses livros de faroeste antigos produzidos no Brasil é a velocidade narrativa. Os roteiristas nacionais tinham o hábito de fechar capítulos com clímaxe de linha, o que tornava a leitura muito diferente do ritmo mais lento e descritivo dos romances de Zane Grey em sua forma original. Esse é um dos detalhes que um leitor desprevenido não percebe numa primeira leitura mas que define completamente a experiência de quem está acostumado com o western americano clásico. A trama anda rápido, a descrição de paisagem é quase inexistente e os diálogos são curtos e diretos, o que funciona muito bem para leitura de entretenimento mas deixa a perder de vista a atmosfera que tanto marca os grandes clássicos do gênero.
Restauração básica que funciona na prática
Quando eu recebi meu primeiro lote de livros de faroeste antigos com lombadas frágeis, resolvi testar três métodos diferentes antes de me firmar num procedimento padrão. O primeiro foi usar cola branca comum de Escola, que não funcionou porque o papel absorvia demais e deixava as páginas empapadas. O segundo foi cola de contato_Preto em pequena quantidade, que segou rápido mas deixou marcas escuras visíveis nas bordas das folhas. O terceiro e o que eu uso até hoje foi cola PVA branca aplicada com um pincel fino de trinta e dois milímetros, dejando secar sob peso de livros pesados por cerca de seis horas. O resultado ficou discreto e a estrutura da lombada recuperou resistência suficiente para aguentar centenas de aberturas sem. Para manchas de umidade nas páginas, o procedimento mais simples e seguro que eu encontrei foi colocar o livro entre folhas de papel manteiga e passar um ferro em temperatura baixa sem vapor, movendo o ferro constantemente para não queimar o papel. Isso funciona bem para manchas claras mas não remove manchas escuras de mofo consolidado, nescaso o melhor a fazer é apenas isolar o exemplar para não contaminar os outros e aceitar que a mancha permanece como parte da história do livro.
O que não funciona e onde os iniciantes erram
O erro mais comum que eu vejo gente cometer é tentar limpar capas com álcool ou solventes fortes. Uma vez vi alguém passar alcohol 70 numa capa de livro de faroeste antigo e o resultado foi a tinta da ilustração derretendo em cerca de três minutos, deixandouma mancha irreversível que destruiu completamente a arte original. O correto é usar apenas um pano seco macio pararemover a poeira superficial e, em casos de sujeira mais difícil, um pouco de água destilada aplicada com extremo cuidado apenas nas áreas não impressas da capa. Também é importante não superestimar o valor de revenda desses livros. O mercado de libros de faroeste antigos no Brasil ainda é bastante niche e os preços de revenda ficam, na maioria das vezes, na faixa de cinco a quinze reais por unidade para exemplares em estado regular. Só títulos muito específicos ou edições de tiragem extremamente limitada chegam a superar os trinta e cinco reais em feirões de colecionadores. Se o objetivo é investimento financeiro, esse não é o caminho mais rentável quando comparado a outras vertentes do colecionismo editorial.
Por que ainda vale a pena ler esses livros
Por mais que tenham tradução ruim, papel frágil e capas que desbotam com facilidade, os livros de faroeste antigos representam um registro cultural relevante da forma como o gênero western foi absorvido e adaptado pelo público brasileiro de classe média nos anos cinquenta e sessenta. Eles mostram como narrativas americanas foram remodeladas para um leitor que cresceu em realidade completamente diferente, com heróis mais atrevidos, diálogos mais espertos e finais que iam em direção a um otimismo que raramente existia nos romances originais. Lendo essas obras lado a lado com os textos americanos correspondentes, fica evidente o quão profunda foi a reescrita cultural que ocorreu em cada adaptação. Se você quiser mergulhar nesse universo de forma prática, a melhor saída é montar um lote inicial de aproximadamente dez títulos das editoras Record e Globo, aplicar a técnica de restauração de lombada com cola PVA nos exemplares que precisarem, guardar os volumes em caixa de papelão com folhas de papel archival entre cada livro e, claro, ler tudo com calma porque o valor desses livros de faroeste antigos está justamente na experiência de descobrir como um gênero literário inteiro foi traduzido, adaptado e vendido para milhões de leitores brasileiros que nunca tinham visto um cowboy de verdade mas que encontraram naqueles folhetos uma forma de escapar da rotina diária.