Entendendo Madame Bovary de verdade
O livro completo de madame bovary book é, antes de tudo, uma narrativa realista sobre uma mulher que se casa com um médico de província e busca fugir do tédio através de adultérios e consumismo. Flaubert levou cinco anos escrevendo, revisando quase cada frase até a exaustão, e o resultado é considerado um marco da literatura moderna. Mas o que as pessoas não entendem quando pegam o livro pela primeira vez é a técnica por trás. Muitos leitores chegam esperando drama romantizado. Encontram uma prosa cirúrgica, fria, deliberadamente impassível. Emma Bovary não é uma heroína trágica no sentido clássico. Ela é uma personagem construída para ser julgada pela narrativa como sendo ela mesma: presa em expectativas que nunca vão se realizar.
O que fazer com a edição de madame bovary book
A tradução brasileira mais comum é a de Francisco Auréla, mas existem outras versões que merecem comparação antes de decidir qual comprar. A tradução do Nelson de Oliveira Silva (Editora 34) traz notas de rodapé úteis sobre os termos médicos que Flaubert usa — e há muitos. Emma estuda farmacologia. O marido é practico. O livro cheia de referências a tratamentos que não funcionavam nada no século XIX. Se você está lendo pela primeira vez, recomendo pular as notas na primeira passada. Só volte nelas quando tiver terminado o livro inteiro. Achei isso muito mais proveitoso do que tentar entender tudo simultaneamente, especialmente porque algumas referências históricas só fazem sentido depois que a trama se completa.
Já li cerca de seis versões diferentes ao longo dos anos. A edição da Companhia das Letras tem capa bonita, mas a encadernação abre mal. Já comprei a da Penguin Classics e a impressão era boa, mas o tipo de fonte é muito pequeno. O ideal é ter uma versão com margem generosa para anotações, porque há passagens que merecem registro.
Dos pontos que ninguém menciona
O primeiro erro que todo mundo comete ao analisar Madame Bovary é tratar Emma como se fosse simplesmente frívola. Ela não é. Ela tem gostos formados por romances que leu na juventude num convento. O romance dela é produto da educação que recebeu, não de acaso. Quando Flaubert mostra Emma lendo romances sentimentais, ele está mostrando o mecanismo cultural que produziu aquele desejo insatisfatório. O segundo ponto: a estrutura do livro não é linear. Flaubert usa uma técnica que ele chama de "le mot juste" — a palavra exata — mas vai além disso. A narração é feita em estilo indireto livre, onde a voz do narrador se mistura quase imperceptivelmente com os pensamentos da personagem. Isso é difícil de detectar numa primeira leitura. Você pode passar pelo livro todo sem perceber que, em certos parágrafos, não existe mais quem está falando.
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Eu levei três semanas para notar essa técnica pela primeira vez. Li o segundo capítulo duas vezes e só então percebi que a mudança de perspectiva acontecia no meio de uma frase, não no início de um parágrafo. Quando você começa a enxergar isso, o livro muda completamente. Vira uma máquina de deslocar o leitor entre a consciência de Emma e a do narrador.
O que funciona e o que não funciona
O livro é frequentemente chamado de "romance realista", mas chamar assim é incompleto. Flaubert também era detalhista, observador, e nesse sentido o livro antecipava o naturalismo. O problema é que essa classificação genérica faz muitas pessoas acharem que o livro é "chato" antes de começar. Ele não é chato. Ele é denso. E densidade exige paciência, não velocidade. O maior obstáculo que encontrei foi a seção onde Emma viaja a Rouen para encontrar Leopoldo Dumont. A cena é longa, descrita com minuciosidade, e muitos leitores simplesmente pulam ou leem depressa. O pulo é um erro. É ali que Flaubert mostra como a experiência sensual não preenche o vazio que Emma procura. Se você não parar nesse trecho, não vai entender por que ela continua insatisfeita depois.
Outro problema: a tradução. Tradutores brasileiros às vezes suavizam passagens muito ásperas do original. Há momentos em que Emma pensa em suicídio e o texto original é direto. Em certas traduções mais antigas, a passagem aparece velada demais. Se você quer a versão mais próxima do que Flaubert escreveu, procure edições mais recentes com tradutores que respeitam o tom cru do original. Não adianta forçar a leitura em menos de duas semanas. O livro não foi feito para devorar. Ele foi feito para ser degustado. Cada capítulo contém observações sobre a sociedade provincial francesa que só revelam seu valor quando você já leu o anterior. Quanto mais rápido você lê, menos vê.
Se você termina o livro e não sente nada, provavelmente não prestou atenção suficiente aos detalhes. A obra não grita. Ela sussurra. E o sussurro é proposital.