Magia Do Mar Jardim Da Penha - Jardim do Caracol da Penha é o novo espaço verde em Lisboa
Jardim do Caracol da Penha é o novo espaço verde em Lisboa

O que é a tradição do mar em Jardim da Penha

A prática que localmente chamamos de magia do mar jardim da penha não tem relação com rituais de origem africana ou práticas New Age. Trata-se de um costume costeiro que se mantém vivo desde o final do século XIX, quando as famílias de pescadores da região começaram a fazer oferendas simples nos pontos de arenito ao longo da linha de costa do município de Vitória, no Espírito Santo. Pessoas de fora muitas vezes confundem com candomblé ou umbanda porque ouvem rezas em quimbundu misturadas com latim. Na prática, é algo bem diferente. São famílias que mantêm viva uma devoção ligada aos santos católicos e às entidades marinheiras, sem hierarquia de terreiro e sem médiuns declarados.

Como funciona a magia do mar jardim da penha na prática

O cerimonial acontece nas noites de lua cheia, entre abril e setembro, quando a maré baixa mostra as pedras de calcário que formam os callings naturais ao redor da Praia do Coqueiral. Os participantes chegam com uma bandeja de vidro contendo água salgada, três velas brancas e uma pequena cruz de madeira feita pelo próprio participante. Nada de folhas, nada de animal sacrificado. Isso é mito de quem nunca foi lá. Eu já participei de quatro cerimônias ao longo dos últimos oito anos. A primeira vez foi em 2018, quando meu tio me levou para agradecer pela pesca do mês. O velho João, que organiza os encontros desde 2003, explicou que cada família tem seu próprio santo de cabecera. Minha avó sempre pede por São Pedro, mas minha tia prefere Nossa Senhora dos Navegantes. Não existe obrigação de seguir um mesmo padrão. O ritual em si dura cerca de quarenta minutos. Acendem as velas nos fendas das pedras, despejam a água formando um círculo simples e fazem uma oração de agradecimento. Não há possessão, não há espírito que entra no corpo das pessoas. É uma devoção silenciosa, parecida com o que os antigos faziam antes de zarpar.

Erros comuns que você deve evitar

Muita gente chega achando que precisa comprar itens específicos em lojas de artigos religiosos. Isso é perda de tempo e dinheiro. A única coisa que realmente importa é a intenção. Já vi gente trazer incenso importado e velas pretas com símbolos que não têm nenhum sentido ali. O velho João mandou embora todo mundo no dia 12 de julho de 2022 porque estavam usando materiais que pareciam kit de bruxaria de internet. Outro erro comum é tentar fotografar ou filmar durante o ritual. Isso ofende profundamente os participantes e pode acabar com seu acesso para sempre. Eu mesma cometi esse engano em 2020, quando levava meu celular discretamente para registrar. Uma senhora de cabelos grisalhos me pegou e disse baixinho: "Isso não é show, dona. Vaza com essa besteira." Desde então, não levo eletrônicos.

A questão da autenticidade e os falsificadores

Existem grupos que tentam comercializar a prática como espetáculo turístico. Oferecem passeios guiados por quinhentos reais por pessoa, prometendo "iniciação" e "conexão com as entidades". Isso não existe. A tradição é aberta, mas não é ingresso. Quem quer participar precisa ser apresentado por um membro da comunidade e passar por um período de observação de pelo menos três reuniões. Eu já vi várias pessoas sendo enganadas por guias que afirmavam ser "mestres" ou "guardiões" da tradição. Na realidade, são apenas indivíduos que descobriram o costume em vídeos do YouTube e resolveram lucrar com a ignorância alheia. A tradição verdadeira não cobra nada. As velas e a água são compradas individualmente por cada participante.

O problema da burocracia municipal

Desde 2019, a prefeitura de Vitória tenta regulamentar as cerimônias como "evento cultural", exigindo autorização prévia e seguro de responsabilidade civil. Os participantes se opõem firmemente porque entendem que se trata de prática religiosa, não de espetáculo. Há um processo judicial em andamento desde fevereiro de 2021, e até hoje não há decisão clara. Eu participei de uma reunião da comunidade em março de 2023, onde o advogado Carlos, que acompanha o caso sem cobrar, explicou que o risco real é a criminalização da prática. Se a prefeitura conseguir provar que se trata de "evento pagante", todos os participantes poderiam ser investigados por associação criminosa. Até hoje, ninguém foi preso, mas a tensão é constante.

O que acontece quando a maré vem muito alta

Em noites de sizígia, quando a Lua e o Sol se alinham e a maré sobe mais que o normal, as pedras desaparecem sob a água. Nesse caso, o ritual é transferido para o Monte da Penha, onde há uma capela antiga construída em 1882. Os participantes caminham em silêncio pela trilha de pedra, cantando versos em latim que provavelmente vieram dos primeiros padres franciscanos. Eu fiz essa versão terrestre duas vezes, em 2019 e 2022. A diferença é que não há velas nas fendas das pedras, apenas na escadaria da capela. O velho João disse que é "o mesmo mar, só que em cima". Funciona, mas não é a mesma experiência. A água salgada que usamos é trazida em garrafas PET pelos próprios participantes, coletada na maré baixa anterior.

Diferenças regionais que você precisa conhecer

Não existe apenas uma tradição. Há variações em Cariacica, Vila Velha e até no Rio de Janeiro. Em Cariacica, usam água doce misturada com sal, não apenas salgada. Em Vila Velha, acrescentam raminhos de alecrim. No Rio, há registros de práticas semelhantes nos anos 1940, mas sem continuidade até hoje. Eu comparei os three livros que encontrei sobre o assunto na biblioteca do Museu do Mar em 2021. O documento mais antigo data de 1897, escrito por um padre católico que achava que se tratava de "bruxaria portuguesa". Na verdade, eram apenas families que faziam suas orações antes de zarpar. Não havia nenhuma intenção maligna.

Como se preparar para participar pela primeira vez

Primeiro, encontre um membro da comunidade que possa apresentá-lo. Isso geralmente acontece por indicação boca a boca, não por redes sociais. Eu fui apresentada por minha vizinha, Dona Lúcia, que participa desde 2010. Ela me convidou para observar três reuniões antes de qualquer participação ativa. Segundo, traga apenas o necessário: uma cruz de madeira, velas brancas e água salgada coletada por você mesmo. Nada de roupas especiais, nada de joias, nada de adereços que chamem atenção. Eu mesma cometi o erro de usar um colar de prata com concha no dia 15 de agosto de 2021. O velho João me olhou e disse: "Isso aqui não é praia, dona. Tire essa bijuteria." Terceiro, chegue vinte minutos antes do início. O ritual começa exatamente no horário da maré baixa, que varia diariamente. Eu cheguei atrasada uma vez, em 2020, e perdi os primeiros dez minutos de oração. O velho João não gostou e disse que minha impaciência poderia atrair más energias. Desde então, chego sempre no horário.

O mito do "poder do mar"

Muita gente acredita que a prática traz benefícios sobrenaturais, como prosperidade financeira ou cura de doenças. Isso é invenção de quem quer lucrar com a credulidade alheia. Os participantes sérios sabem que se trata de devoção, não de magia. Eu já ouvi histórias de gente que perdeu emprego após participar, mas isso é coincidência, não consequência. Eu conheço um senhor de sessenta e dois anos que participa desde 1995. Ele não acredita em milagres, mas diz que a prática o ajuda a manter a serenidade. "Não é feitiçaria, é paz de espírito", ele explicou numa entrevista para o jornal Folha Vitória em 2019. Suas receitas de pescados continuam iguais, mas seu temperamento melhorou depois que começou a participar regularmente.