Mandioca Macaxeira Aipim - Mandioca, aipim e macaxeira: qual a diferença, além do nome? Chef ...
Mandioca, aipim e macaxeira: qual a diferença, além do nome? Chef ...

O que todo mundo confunde sobre raízes de mandioca

A mandioca é uma das raízes mais cultivadas no Brasil, mas o que a maioria das pessoas não entende na prática é que existem três variedades distintas que vivem na mesma cozinha. A diferença entre mandioca macaxeira aipim não é só regionalismo, é diferença química e culinária real. Se você tratar uma como a outra, o resultado pode ser um prato completamente estragado, e eu já vi isso acontecer em cozinha de restaurante por aí. Em termos botânicos, tudo isso vem da mesma planta, Manihot esculenta. O que muda é o teor de amido, a textura e o nível de toxinas naturais. A mandioca mais comum, aquela de casca mais clara e polpa mais firme, tem muito amido e precisa de processamento mais demorado. A macaxeira, típica do Nordeste, é mais mole, mais úmida e se desmancha fácil. O aipim, nome do Norte, geralmente se refere a uma variedade mais tenra, com menor teor de cianeto, que pode até ser consumida de formas diferentes.

mandioca macaxeira aipim: como distinguir na hora da compra

Você identifica pela casca. Mandioca comum tem casca mais grossa, cor marrom-acinzentada, e ao quebrar um pedaço a polpa tende a ser branca opaca e bem firme. Macaxeira tem casca mais fina, cor mais avermelhada ou rosada em alguns casos, e a polpa é mais úmida, quase brilhante. Aipim geralmente se parece com a macaxeira mas é mais tenro, com cheiro mais suave quando cortado. Teste prática rápida: aperte levemente com a unha. Se marcar fácil e sair suco leitoso, é macaxeira ou aipim. Se resistir e a casca rachar ao invés de amassar, é mandioca comum. O cheiro também ajuda. Mandioca verdadeira tem um aroma terroso mais forte. Macaxeira e aipim são mais neutros.

Eu tive um problema específico num restaurante onde trabalhei que mudou minha forma de lidar com isso. Comprem um lote grande de o que o fornecedor chamava de "aipim", mas que na verdade era mandioca comum de amido alto. Fizemos purê e ficou granuloso, praticamente indigerível. O problema é que mandioca de amido alto precisa de fervura prolongada e troca de água pelo menos duas vezes para reduzir os cianetos, algo que funciona bem para bolinhos e tapiocas, mas estraga a textura do purê. A solução foi cozinhar em água abundante por 40 minutos, descartar essa água, colocar água limpa e cozinhar mais 30 minutos, só então proceder com o amassado. Mesmo assim, o resultado não ficou igual ao de uma verdadeira macaxeira. A lição é que nunca confie no nome que o fornecedor dá. Teste sempre.

Como preparar sem errar

O processamento correto depende inteiramente de qual raiz você tem na mão. Mandioca comum de amido alto requer cozimento em água suficiente para cobrir, em fogo médio, por pelo menos 45 minutos a 1 hora. A água vai ficar leitosa. Troque ela uma ou duas vezes. Isso reduz o teor de cianeto, que é natural e presente em compostos chamados cianogênicos, especialmente na casca e na parte externa da polpa. Se você pular essa etapa, o sabor fica amargo e pode causar mal-estar. Não é brincadeira. Macaxeira e aipim precisam de menos tempo. Cerca de 25 a 35 minutos em água fervente é suficiente. Eles liberam menos cianeto e a textura é mais delicada mesmo assim. Cozinhar demais transforma macaxeira em pasta aquosa. Eu já vi gente cozinhar macaxeira como se fosse mandioca comum e acabar com uma mistura sem graça que ninguém quer comer.

Descascar: use uma faca afiada e remova toda a casca, incluindo essa fina camada marrom logo abaixo dela. Essa camada é onde a maior concentração de compostos indesejados se encontra. Em macaxeira e aipim, essa camada é mais fina, mas ainda assim deve ser removida. Depois de descascada, corte em pedaços uniformes, mais ou menos 5 centímetros, para garantir cozimento parelho.

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Armazenamento e prateleira

Raiz de mandioca colhida não dura. Em temperatura ambiente, começa a perder qualidade em 2 a 3 dias. A polpa oxida e escurece rapidinho. Se você não vai usar no dia, guarde na geladeira envolta em papel toalha dentro de um saco aberto, e use dentro de 5 dias no máximo. Para conservar por mais tempo, cozinhe inteira, descasque, corte e congele em porções. assim você evita o desperdício e já deixa pronta para uso posterior. Existe uma armadilha comum aqui. Muita gente tenta ralrar crua e congelar. A textura degenera. As enzimas continuam ativas mesmo no frio e a massa fica com gosto de rançoso em poucas semanas. O correto é cozinhar primeiro, depois processar e congelar.

Onde cada tipo se sai melhor

Mandioca comum de amido alto funciona muito bem para farinha, tapioca, bolinhos fritos e pão de mandioca. O alto teor de amido dá estrutura. Não serve bem para purê liso, a menos que você domine o processo de cozimento com troca de água. Macaxeira é rei no Nordeste. Vatapá, caruru, bobó de camarão, peixinho com macaxeira. Ela desmancha na panela e incorpora ao molho de forma natural. Não tente substituir por mandioca comum nesses pratos. O resultado fica emperrado e perde a graça.

Aipim funciona tanto para cozidos quanto para frituras. Bolinho de aipim é clássico. A textura intermediária permite que mantenha a forma quando frito sem ficar duro por dentro.

Erros que todo mundo comete

Cozinhar em pouca água. A água precisa cobrir a raiz inteira, senão os pedaços de cima ficam crus e os de baixo queimam. Ferver em panela de pressão sem controle. Pressão acelera o cozimento mas também concentra os compostos de cianeto se a água não for trocada. Ficar com preguiça de descascar fino. A camada logo abaixo da casca é amarga e tóxica em quantidade suficiente para estragar o prato. O maior erro de todos é achar que todo tipo de mandioca é intercambiável. Não é. O tempo de cozimento, a quantidade de água, a necessidade de trocar a água e o resultado final mudam completamente dependendo da variedade. Leve 5 minutos para testar antes de começar a cozinhar em quantidade. O resto do processo é ajustado a partir daí.

Se você mora numa região onde não tem acesso a macaxeira ou aipim fresco e só encontra mandioca comum de amido alto, o caminho é aprender a manipulá-la com paciência. Cozimento lento, água trocada, e aceitação de que o tempo extra é parte do processo. Não existe atalho que funcione de verdade.