O Falecido Mattia Pascal - O FALECIDO MATTIA PASCAL - Relógio D'Água
O FALECIDO MATTIA PASCAL - Relógio D'Água

O romance de Pirandello que parece filosofia, mas é muito mais prático do que você imagina

A maioria das pessoas conhece o livro pelos trechos que estudam no ensino médio. Aquela história do cara que inventa a própria morte e descobre que a liberdade total não é tão boa assim. Mas ler o falecido mattia pascal por causa dessas sinopses é perder completamente o ponto. O que Pirandello faz ali é algo bem mais curioso: um tratado disfarçado de aventura, onde a primeira pessoa do narrador nos arrasta para dentro de uma investigação sobre identidade que vai muito além do enredo. Quando eu li pela primeira vez, fazia tempo que eu vinha tentando entender por que tantos leitores achavam o livro chato. A resposta que cheguei foi simples. As pessoas estão lendo como se fosse uma novela de mistério, quando na verdade é uma desconstrução sistemática da noção de self. Mattia Pascal não está caçando ninguém. Ele está caçando a si mesmo. E aí o livro vira um espelho que a maioria não quer encarar.

Tem um detalhe importante que pouca gente nota. Pirandello escreve como se estivesse conversando com o leitor. Não é um tom de superioridade intelectual, mas sim de quem já passou por isso e quer avisar antes que você caia na mesma armadilha. O narrador começa o livro dizendo claramente que não está mais vivo — ou que nunca esteve vivo do jeito que pensava. Essa abertura muda tudo. Você não entra numa história, entra num interrogatório onde a vítima e o carrasco são a mesma pessoa.

Por que o falecido mattia pascal continua relevante décadas depois

O romance nasceu em 1904, mas o que ele descreve é essencialmente o problema que todo mundo vive hoje. Nós escolhemos nossas identidades todos os dias — nas redes sociais, no trabalho, nos relacionamentos. Mattia Pascal descobriu de forma extrema o que nós fazemos de forma cotidiana: que a identidade é uma convenção social, não uma essência. Quando ele morre "officialmente", todas as regras que o prendiam somem. O problema é que, sem regras, não existe mais ninguém para ser. Eu já vi gente discutir esse livro em grupos de literatura como se fosse um manual de autoajuda existencialista. Não é. É muito mais seco do que isso. Pirandello não oferece conselhos. Ele oferece um diagnóstico. Mattia tenta viver como Adolfo Meis, um homem novo, sem passado, sem vínculos. O que acontece? Ele se torna invisível. Ninguém o reconhece. Ninguém se importa. E essa invisibilidade gradual é o que mais assusta no romance.

A parte que as resenhas simplificadas ignoram é o final. Muitas pessoas saem do livro achando que Mattia volta para a vida anterior como uma derrota. Na verdade, ele volta porque percebe que precisa da prisão social para existir. Sem as coleiras que o incomodavam, ele não era ninguém. Isso é mais pessimista do que qualquer mensagem de autoconhecimento que você encontra por aí.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

O que você realmente leva depois de fechar a última página

Depois de releio o livro pela terceira vez, percebi algo que não tinha notado antes. Pirandello usa a estrutura de um romance de formação, mas subverte cada etapa. O protagonista não amadurece. Ele se desfaz. Cada tentativa de reconstruir a identidade resulta numa versão ainda mais frágil. Adolfo Meis não é uma segunda chance. É uma prova de que a liberdade sem contexto é um vazio que consome quem o habita. O detalhe técnico que faz toda a diferença na leitura é o uso do tempo verbal. Pirandello escreve em primeira pessoa no pretérito perfeito, mas com uma consciência narrativa que se situa num presente de arrependimento. Mattia não está contando o que aconteceu. Está tentando se convencer de que aquilo aconteceu mesmo. Essa camada adicional de dúvida permeia cada capítulo e transforma o livro num exercício de narratologia prática.

Se você vai ler, sugiro abandonar a expectativa de que vai encontrar respostas. O livro não responde nada. Ele formula as perguntas certas de um jeito que fica ecoando por semanas depois que você termina. A estrutura narrativa é tão cuidadosa que cada capítulo parece um experimento controlado: aqui testingmos a liberdade, aqui testingmos a identidade, aqui testingmos o dinheiro. E em cada experimento, o resultado é o mesmo. Nada se sustenta sem referência. O problema que eu encontrei pessoalmente ao ler pela primeira vez foi achar que o desfecho era ambíguo demais. Eu queria um gancho final, uma revelação, algo que desse sentido a tudo. Pirandello não entrega. Ele simplesmente encerra com Mattia Pascal de volta à vida rotineira, consciente de que morreu duas vezes e que a única coisa que resta é existir como um fantasma entre vivos. Esse final é propositalmente desconfortável. O desconforto é o ponto.

A tradução em português também merece atenção. Dependendo da versão que cair nas suas mãos, o tom narrativo pode ficar mais formal ou mais coloquial, e isso altera significativamente a experiência. Uma versão muito polida perde a aspereza que Pirandello cultivou de propósito. O texto original italiano tem um ritmo seco, quase clínico, que reflete a visão de mundo do personagem. Se a tradução transformar isso num proseado elegante, você perde a textura essencial do livro. O que mais costuma pegar os leitores desprevenidos é a velocidade com que a trama avança. Nos primeiros cinquenta páginas, parece que nada acontece. Mattia herda dinheiro, viaja, conhece gente, pensa demais. Parece Slow cinema literário. Mas a partir da metade, o ritmo se dobra e a narrativa começa a fechar as contas com uma precisão cirúrgica. Cada cena posterior é uma consequência direta das escolhas anteriores. Pirandello não desperdiça nada. Se um elemento aparece no capítulo três, ele volta no capítulo doze como prova de algo.

Essa economia narrativa é o que diferencia o livro de outras obras do período. Muitos autores da época se permitiam divagações. Pirandello não. Cada parágrafo tem função. A sensação que fica depois de terminar é a de que se saiu de uma sala onde alguém acabou de explicar algo fundamental sobre a própria vida, mas que você ainda não está pronto para processar completamente. Li várias vezes o livro tentando encontrar paralelos com situações contemporâneas. A analogia mais direta que encontrei foi com a cultura de rebranding pessoal que vemos nas redes sociais. Quantas pessoas já se reinventaram completamente online, mudando nome, foto, interesses, estilo? Mattia Pascal fez isso de forma literal e física. O resultado foi o mesmo: quanto mais ele se reconstruía, mais sentia que desaparecia. A ironia é que a internet tornou essa experiência acessível para qualquer pessoa, mas ninguém parece notar o padrão porque o processo é gradual demais para perceber.

O que eu recomendo de verdade é ler com caneta na mão. Sublinhe as passagens onde o narrador questiona sua própria existência. Anote os momentos em que Mattia percebe que é invisível. São esses os pontos onde Pirandello revela seu verdadeiro projeto: mostrar que identidade não é algo que se tem, mas algo que os outros te concedem. Sem o reconhecimento alheio, não há pessoa. Só um corpo ocupando espaço. Não existe segredo para aproveitar o livro. Apenas leia devagar. Deixe que as ideias demorem a chegar. A maioria das pessoas termina o romance e pensa "foi interessante". Quempara e reflite sobre cada virada narrativa percebe que Pirandello estava certa coisa à frente do tempo, mostrando que a liberdade absoluta é a forma mais sofisticada de aprisionamento que existe.