O Livro Das Ignorãças - O livro das ignorãças - Manoel de Barros - Grupo Companhia das Letras
O livro das ignorãças - Manoel de Barros - Grupo Companhia das Letras

O que é e por que vale a pena ler

O livro das ignorâncias é uma obra do escritor angolano João Paulo Borges Coelho, publicada originalmente em 2014. Não é um manual didático. São crônicas breves, quase microensaios, que abordam o absurdo do cotidiano com um humor seco e irritantemente preciso. Borges Coelho tem o hábito de pegar situações banais — a fila no banco, a burocracia estatal, as relações familiares disfuncionais — e desmontá-las até sobrar só o que há de mais ridículo nelas. O título já diz tudo. O livro não se propõe a iluminar nada. Pelo contrário, ele celebra a ignorância como condição humana, ou melhor, como estratégia de sobrevivência num país onde saber demais costuma ser um transtorno. A estrutura é solta. Cada texto funciona de forma independente. Você pode começar em qualquer lugar e parar quando quiser. Isso é tanto uma vantagem quanto um sintoma do que o livro propõe: anti-sistêmico de propósito.

Para quem não conhece Borges Coelho, ele é um dos nomes mais consistentes da literatura angolana contemporânea. Escreve em português com uma voz que mistura o coloquial de Luanda com uma ironia que lembra um pouco oque Raul Brandão fazia com o regionalismo português, só que mais ácido. A prosa dele é direta, sem ornamentos desnecessários, o que torna a leitura fluída mas não rasa.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

O livro das ignorãças na prática

O que faz esse livro diferente de outra coletânea de crônicas é a ausência de moralismo. Muitos autores que escrevem sobre a realidade africana caem na tentação de denunciar, de fazer discurso, de salvar a consciência do leitor. Borges Coelho não faz isso. Ele observa, aponta o defeito, e deixa você montar o que quiser a partir daí. Às vezes o texto termina numa pregunta que nunca recebe resposta. De propósito. Eu li a edição da editora Combustível Editorial, que é a mais fácil de encontrar em livrarias portuguesas e angolanas. A versão digital também circula em plataformas como a Amazon e a Booktopia, embora os preços variem bastante dependendo do vendedor. Se você mora em Angola, às vezes consegue cópias físicas direto com a livraria Kalunga ou com distribuidores locais a um preço mais razoável do que importar. Uma coisa que poucas resenhas mencionam: o livro funciona muito melhor lido em sessão curta. Eu tentei ler tudo de uma vez numa viagem longa e acabei não assimilando quase nada. Os textos exigem pausa. Cada um pede um momento de silêncio depois pra digerir o que acabou de ler. Recomendo dois ou três por dia no máximo.

Pegadas e detalhes que ninguém conta

O primeiro desafio ao tentar ler o livro das ignorâncias é aceitar que ele não vai te dar respostas. Muita gente chega esperando uma crítica social bem articulada, um manifesto pronto. O que aparece é algo mais perturbador: a constatação de que a ignorância não é um defeito a ser corrigido, mas um mecanismo que funciona. As personagens (e muitas vezes o próprio narrador) cometem erros bafientes e saem ilhados deles com uma facilidade que deveria ser frustrante. Em vez disso, é engraçado. E é aí que mora o perigo da obra: ela te faz rir da sua própria incapacidade de mudar. Outro detalhe técnico importante. As edições mais recentes têm pequenas diferenças tipográficas em relação à primeira versão. A de 2014 traz alguns textos que foram cortados ou rearranjados nas reimpressões. Se você quer acompanhar a evolução do autor, vale a pena ter as duas versões e comparar. Eu fiz isso e achei interessante notar como Borges Coelho amadureceu algumas ideias entre uma edição e outra sem mudar radicalmente de posicionamento.

Um problema prático que encontrei pessoalmente: várias bibliotecas universitárias em Portugal compraram apenas exemplares usados da primeira edição, e alguns desses exemplares têm marcas de caneta e anotações que distraem na leitura. Nada grave, mas suficiente pra quebrar o clima irônico do texto. A solução foi procurar em sebos online ou comprar direto da editora, que costuma manter estoque fresco. O custo extra de uns cinco euros compensa, porque o livro é curto e a experiência de leitura merece ser limpa.

Onde encontrar e como adquirir

A/editora Combustível Editorial mantém o catálogo ativo. Você pode solicitar diretamente pelo site deles, que frequentemente entrega em Portugal em 3 a 5 dias úteis. Para Angola, existem canais de distribuição específicos, mas o prazo costuma ser maior. Na Amazon, o livro aparece regularmente em formato Kindle, o que é útil se você prefere ler em dispositivos móveis e quer evitar o peso de levar um livro físico em viagens. Se o seu objetivo é estudo acadêmico, vale a pena conferir também a edição em e-book da plataforma da Editorial Caminho, que às vezes disponibiliza trechos gratuitos para revisão. Não espere o livro inteiro de graça, mas os extratos servem pra entender o tom antes de decidir comprar.

Quem deve e quem não deve ler

Se você gosta de literatura africana de língua portuguesa e quer algo que foge do óbvio, esse livro entra naturalmente na lista. Se espera uma narrativa linear com arco bem definido, vai se frustrar. A obra não segue esse padrão e não tenta disfarçar. Também é importante notar que o humor de Borges Coelho não é universal. Pessoas mais sensíveis a comentários sobre instituições públicas, burocracia ou relações familiares tóxicas podem achar o conteúdo pesado ou desnecessariamente crítico. Eu vi leitores reclamarem que o livro é "cínico" demais, o que é tecnicamente verdade. Mas o cinismo aqui é uma ferramenta, não um defeito. Se quiser uma recomendação concreta: leia primeiro os textos que tratam de família e comportamento social. São os mais acessíveis e os que melhor representam a voz do autor. Depois avance para os que abordam política e administração pública, onde a crítica fica mais afiada e, consequentemente, menos confortável. A obra completa tem cerca de 160 páginas. O preço em Portugal gira em torno dos 12 aos 15 euros na capa impressa. Em Angola, dependendo da loja, pode variar entre 3.000 e 5.000 kwanzas. A versão digital custa menos, mas a qualidade tipográfica nem sempre é a mesma da impressão física. Decida conforme o seu uso: leitura ocasional versus estudo mais aprofundado.