Concordância nominal e verbal: o que realmente acontece quando alguém erra
Você já deve ter visto frases como "fomos à praia e eles foi feliz" ou "àquele menino dêem-lhe livros". Isso é erro de concordância. O assunto parece simples no papel, mas na prática ele aparece sempre nas mesmas situações e causa o mesmo tipo de confusão repetidamente.
O que é erro de concordancia na prática
O erro de concordância acontece quando o verbo, o adjetivo, o pronome ou o artigo não se adequam em gênero, número ou pessoa ao termo que deveriam acompanhar. Existem dois tipos principais: concordância verbal e concordância nominal. A concordância verbal trata do acordo entre o sujeito e o verbo. Se o sujeito está no plural, o verbo também precisa estar. Parece óbvio, mas é onde a maioria das pessoas tropeça sem perceber. A concordância nominal lida com o acordo entre substantivos e os termos que os modificam, como adjetivos, artigos e pronomes.
No dia a dia, o erro mais frequente que eu vejo é com verbos como "haver" e "existir" usados de forma absoluta. Quando você diz "havia muitos problemas", o verbo permanece no singular porque "haver" no sentido de existir é impessoal. Muitas pessoas corrigem inconscientemente para "haviam muitos problemas" porque o cérebro tenta fazer o verbo concordar com "problemas", mas essa correção automática está errada.
Os casos que mais dão errado
Um dos pontos que gera mais dúvida é a Concordância com expressões partitivas. Frases como "um terço dos eleitores votou" ou "a maioria dos candidatos desistiu" funcionam no singular porque o núcleo do sujeito é "um terço" e "a maioria", não "eleitores" e "candidatos". No entanto, o plural também é aceito pela norma culta quando se quer dar ênfase aos elementos da coletividade. Essa flexibilidade existe, mas ela não é uma licença para usar o plural em qualquer situação. Outro caso problemático envolve o uso do "se" índice de indeterminação do sujeito. Quando o verbo é transitivo indireto, o "se" indetermina o sujeito e o verbo fica obrigatoriamente no singular. "Precisa-se de funcionários" está correto. "Precisam-se de funcionários" está errado. O mesmo vale para "Aluga-se casas" — errado. O certo é "Aluga-se casas" no singular, mesmo que o objeto direto esteja no plural, porque o "se" não torna o verbo transitivo direto.
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Quando eu estava revisando um contrato institucional há alguns anos, encontrei a seguinte construção: "Faz-se necessário a adaptação dos sistemas". A princípio parecia inofensivo, mas a concordância nominal estava incorreta. O adjetivo "necessário" deveria concordar com "adaptação", ficando "necessária". A forma correta seria "Faz-se necessária a adaptação dos sistemas". Esse tipo de erro passa despercebido por quem não lê com atenção redobrada.
Como evitar os erros mais comuns
A maneira mais eficiente de verificar a concordância verbal é isolar o sujeito do verbo. Quando a frase começa com complemento, como em "Ao diretor dirigiram-se os candidatos", o sujeito é "os candidatos", então o verbo deve ir para o plural. A tendência natural é concordar com "diretor", que está mais perto do verbo, mas essa proximidade é enganosa. Para a concordância nominal, a regra básica é simples: o adjetivo concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere. Se houver vários substantivos no masculino, o adjetivo vai para o masculino plural. Se houver misto de masculino e feminino, o masculino prevalece no plural. Exceção importante: quando os substantivos são precedidos de artigo no plural, o adjetivo também vai para o plural e pode variar em gênero conforme cada artigo. "Os meninos e as meninas distraídos" está correto porque cada artigo determina o gênero do adjetivo.
Quando eu trabalho com revisão de textos técnicos, costumo usar uma técnica prática: ler a frase de trás para frente, isolando cada par sujeito-verbo ou substantivo-adjetivo. Isso quebra o ritmo natural da leitura e força o cérebro a processar cada relação de concordância separadamente, o que revela erros que passariam despercebidos numa leitura convencional.
Limitações e onde a regra não se aplica
Não existe fórmula mágica para concordância porque a língua portuguesa tem exceções frequentes. O verbo "ser" especialmente cria confusão quando o predicativo antecede o sujeito. "Dois mais dois é igual a quatro" e "Quatro é o resultado de dois mais dois" são ambas corretas, mas a concordância depende de qual termo funciona como núcleo. Quando o sujeito é um pronome indefinido como "tudo", "nada" ou "algo", o verbo e o adjetivo ficam no singular, mesmo que o sentido seja coletivo. Outra limitação importante é que ferramentas de correção automática frequentemente erram casos borderline. Elas tendem a aplicar regras rígidas demais e não consideram o contexto sintático completo. Em muitos desses casos, o melhor recurso continua sendo a leitura atenta ou a consulta a gramáticas de referência como a do Celso Cunha.
O erro de concordância pode parecer trivial, mas em documentos formais ele mina a credibilidade do autor de forma imediata. A boa notícia é que com prática e atenção aos casos mais problemáticos, a maioria desses erros pode ser eliminada antes que o texto chegue ao leitor.