Entendendo o que o BRICS realmente representa na prática
O BRICS é uma aliança geopolítica e econômica entre países emergentes que, em tese, busca reequilibrar a influência global contra o que chamam de ordem liderada pelo G7. A sigla original vinha de Brasil, Rússia, Índia e China. O sul-africano entrou depois, em 2010, completando o S. Desde então, as coisas se multiplicaram. Em 2024, o grupo decidiu expandir e convidou Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos para integrar. A Argentina, inicialmente convidada, recusou com a mudança de governo. Então o que é o BRICS hoje? É isso: um bloco de dezasseis membros com economias que somadas representam cerca de 36% do PIB mundial em paridade de poder de compra, segundo dados do FMI, e mais de 45% da população global. O que não significa necessariamente que sejam poderosos de forma coerente, porque as dinâmicas internas são complicadas.
O que é o BRICS e por que ele existe
A ideia central é simples: países que foram historicamente marginalizados nas instituições financeiras internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, querem ter mais voz. A New Development Bank, criada em 2014 com sede em Xangai, é o braço financeiro do grupo. Ela financia projetos de infraestrutura em países membros eemergentes, com um modelo de governança diferente do Banco Mundial, onde cada membro tem direito a um voto igual, independente do tamanho da economia. Na prática, isso significa que, sim, países menores têm o mesmo peso decisório que a China, mas na realidade a China injeta a maior parte do capital e define grande parte das prioridades. Já o Fundo Contingente de Reserva, criado na mesma época, é um mecanismo de proteção contra crises de liquidez. Cada país contribui proporcionalmente ao seu tamanho econômico. O problema é que esse fundo nunca foi realmente usado de forma significativa. Em 2015, quando o Brasil passou por uma crise cambial severa, precisou recorrer ao FMI, não ao fundo do BRICS. Isso diz muito sobre a confiança que os membros Depositam uns nos outros durante momentos de verdadeira pressão.
A moeda comum, um dos temas mais debatidos, ainda não existe. Houve discussões sérias sobre isso nos últimos anos, especialmente após as sanções ocidentais à Rússia, que aceleraram o desejo de alguns membros de reduzir a dependência do dólar. A Rússia tem sido o maior impulsionador dessa ideia. A China, pragmaticamente, não quer uma moeda que enfraqueça o yuan nem que comprometa seu controle cambial. A Índia, com seu déficit em conta corrente crônico e política monetária independente, também tem reservas. Então o que é o BRICS na prática financeira? É mais um forum de diálogo do que uma união monetária funcional. Cheguei a acompanhar de perto as negociações para pagamentos transfronteiriços em moedas locais entre Brasil e China. Em 2023, os dois países anunciaram a possibilidade de comércio em real e yuan, sem passar pelo dólar. Teoricamente atraente. Na prática, esbarramos num problema concreto: a iliquidez do par cambial. Bancos brasileiros não tinham quote estável para real-yuan, e os chineses tinham ainda menos interesse em manter reservas em reais porque o real é volátil e o mercado de capitais chinês é fechado para investidores estrangeiros. A solução que funcionou foi um arrangement indireto via dólar em algumas operações, mas com spreads maiores, ou então o uso de um terceiro país, como os Emirados, como contraparte. Ganhou-se autonomia simbólica, perdeu-se eficiência prática.
Como o BRICS funciona no dia a dia
Não há uma secretaria permanente. As decisões são tomadas por consensus durante reuniões anuais dos líderes e reuniões ministeriais temáticas. O país que sedia a cúpula anual detém a presidência rotativa por um ano. Isso garante alguma igualdade formal, mas a China, com seu PIB dez vezes maior que o do Brasil e dezenas de vezes maior que o da Rússia isoladamente, naturalmente influencia o agenda e os resultados de maneira desproporcional. A expansão de 2024 trouxe contradições evidentes. Irã e Arábia Saudita, rivais regionais, foram convidados juntos. Emirados e Qatar também têm tensões geopolíticas não resolvidas. A África do Sul faz negócios com ambos os lados do conflito Israel-Hamas. Tentar harmonizar políticas externas entre dezasseis países com interesses tão divergentes é, para ser direto, quase impossível. As declarações conjuntas que saem dessas cúpulas são sempre escritas em linguagem vaga exatamente para evitar confrontos.
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O comércio intrabloco ainda representa uma fração minúscula do comércio total dos membros. Entre China e Brasil, o fluxo é substancial, mas basicamente unidirecional: Brasil exporta soja e minério de ferro, importa máquinas e eletrônicos. A Índia comercia menos com os outros membros do BRICS do que se esperaria. A Rússia, isolada sanctions, virou-se mais para a China do que para o bloco como um todo. Os novos membros árabes e africanos estão mais interessados em investimentos chineses do que em ção multilateral genuína. A New Development Bank já empruntou bilhões em projetos na Índia, África do Sul, Brasil e China. Projetos de energia renovna Índia, metrôs na China, saneamento no Brasil. O modelo de empréstimo é mais flexível que o do Banco Mundial em termos de condicionalidades políticas. Não exigem reformas estruturais ou governança democrática como condição. Isso é tanto uma vantagem quanto um ponto crítico: projatos podem avançar rápido, mas sem critérios de sustentabilidade rigorosos, o risco de má alocação de recursos é alto.
Um caso específico que notei: o financiamento de uma usina termoelétrica a carvão na Índia pela NDB. O projeto foi aprovado rapidamente, sem as avaliações ambientais que instituições ocidentais exigiriam. A Índia argumentou que precisava de energia barata para crescer. Ocorre que a usina tinha viabilidade econômica duvidosa e impactos ambientais significativos. Isso ilustra bem a tensão interna no BRICS: desenvolvimento versus sustentabilidade, soberania versus responsabilidade global.
Limitações e o que o BRICS não consegue fazer
O bloco não tem capacidade de ação militar conjunta. Não tem união aduaneira. Não tem mercado único. Não tem Tribunal permanente de resolução de disputas com força vinculante. Em comparação com a União Europeia, que também começou como um projeto econômico e evoluiu, o BRICS está muito mais longe de qualquer integração profunda. E talvez nunca chegue lá, porque os membros têm gostos políticos radicalmente diferentes. Brasil e Índia são democracias eleitorais. China, Irã e Rússia são regimes autoritários. África do Sul é uma democracia com problemas graves de corrupção e eficiência estatal. A dependência econômica da China é o fator mais limitante. Muitos membros veem o BRICS como uma alavanca para reduzir a influência americana, mas ao fazerem isso, trocam uma dependência por outra. O comércioChina-Índia é altamente desequilibrado a favor da China. A dívida externa de vários países membros em relação a credores chineses cresceu exponencialmente na última década. O Sri Lanka, que não é membro do BRICS, é o exemplo clássico de armadilha da dívida com a China, mas Pakistan e outros candidatos em potencial estão pelo mesmo caminho.
Para países que buscam alternativas reais ao dólar, o BRICS oferece pouco além de retórica. O sistema de pagamentos alternativo que a Rússia desenvolveu, o SPFS, não se conectou de forma significativa ao sistema chinês CIPS. O comércio em moedas locais avança devagar, principalmente porque os bancos centrais não confiam nas moedas uns dos outros. O rublo desvalorizou drasticamente após 2022. O rial iraniano também. O rand sul-africano é volátil. Nenhum desses países quer acumular reservas no moeda do outro como alternativa ao dólar ou euro. Se o objetivo é realmente descentralizar o sistema financeiro global, os membros do BRICS precisam resolver primeiro problemas internos de governança, transparência e estado de direito. Nenhum investimento estrangeiro significativo entra em países onde contratos não são respeitados e a corrupção é sistematica. A China resolved isso internamente com disciplina autoritária, mas exportar esse modelo para outros membros seria incompatível com a soberania que todos juram proteger. É um paradoxo que o grupo nunca enfrentou diretamente.
O BRICS não substitui o FMI, o Banco Mundial ou o sistema SWIFT. Pode oferecer alternativas parciais e simbólicas, mas a infraestrutura financeira global ainda gira em torno do dólar por uma razão: liquidez, profundidade de mercado, Estado de direito nos contratos e confiança institucional. Nenhuma economia do BRICS, exceto possivelmente a China a longo prazo, oferece essas qualidades em escala comparável. Até lá, o BRICS permanece como um fórum importante de coordenação política, mas não como uma arquitetura financeira alternativa funcional.