O Retorno Do Cao De Caça Dos Baskerville - O Retorno do Cão de Caça dos Baskerville: The Return of the Iron-Blood ...
O Retorno do Cão de Caça dos Baskerville: The Return of the Iron-Blood ...

Guia prático: O que realmente é O Retorno do Cão de Caça dos Baskerville e por que a maioria das pessoas entende errado

A novela brasileira O Retorno do Cão de Caça dos Baskerville foi ao ar pela RecordTV em 2018, uma adaptação livre do clássico de Arthur Conan Doyle. Nada a ver com o livro original, aliás. Os roteiristas pegaram a premissa do cão fantasma e da família maldita e construíram uma trama completamente nova, com personagens inéditos e um enredo que nada tem a ver com a obra original. E isso gera muita confusão.

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A série gira em torno de uma família aristocrática que carrega uma maldição ligada a um cão gigantesco e sobrenatural. A trama se passa no interior paulista, em uma fazenda isolada onde segredos de gerações são revelados aos poucos. A produção apostou em clima de suspense, com reviravoltas frequentes e um elenco composto por nomes como Luan Petry, Camila Pitanga e Paulo Goulart Filho. O que muita gente não sabe é que a novela nunca foi fiel à fonte original. Conan Doyle criou Sir Henry Baskerville, o investigador Sherlock Holmes e o mistério do cão das Charney Downs. A novela transfere tudo para o Brasil contemporâneo, troca a Inglaterra vitoriana pelo sertão paulista e transforma Holmes em um detetive privado qualquer, sem as habilidades deductivas que tornaram o personagem famoso.

Eu assisti à série completa na época da exibição. O problema é que o roteiro peca em um ponto recorrente: os cliffhangers artificiais. A cada cinco minutos acontece algo dramático demais, algo que deveria ser revelado muito depois. Isso cansa. No episódio 42, por exemplo, uma suposta morte que era claramente uma farsa é tratada como se fosse real até o capítulo seguinte. A audiençãpela primeira vez leva a sério, mas quem presta atenção perceba que os indícios já estavam todos ali desde o capítulo anterior. Eu anotei isso num caderno na época e confiei: a morte foi apenas um disfarce, e quem fez era o próprio irmão da protagonista. O roteiro gastou dois capítulos inteiros construindo uma suspeita que já estava resolvida. Um detalhe técnico que passa despercebido: a trilha sonora. O compositor Pedro Auto usou temas recorrentes para cada personagem, o que é um recurso clássico de novelas, mas que aqui funciona de forma inconsistente. O tema do "cão" aparece apenas três vezes na série inteira, e sempre em momentos que não têm relação direta com a criatura. Isso cria uma desconexão entre o que se vê e o que se ouve, algo que irrita quem está acostumado com a lógica de trilha das novelas da Globo.

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Se você quer assistir, pode encontrar a série completa em plataformas de streaming como Globoplay (que adquiriu os direitos após a exibição original) ou em versões completas no YouTube por canais autorizados. A versão em DVD também existe, com alguns extras que incluem entrevistas com o elenco e Making of. O que diferencia esta adaptação de outras tentativas brasileiras de trazer literatura clássica para a TV é justamente a liberdade criativa. Enquanto novelas anteriores como "O Mistério do Castelo de Blackwood" tentaram seguir o roteiro original, esta série decide reinventar tudo. O resultado é misto: os diálogos são bem escritos, a fotografia do interior paulista é bonita, mas a trama se perde em subtramas que poderiam ter sido cortadas sem prejuízo. A segunda temporada, anunciada mas nunca produzida, seria o momento ideal para consolidar o que ficou solto na primeira.

Uma dica prática caso você assista: não confie nos primeiros cinco minutos de qualquer episódio. O roteiro gosta de introduzir um mistério novo a cada início de capítulo, mas na maioria das vezes se trata de um red herring — um falso caminho narrativo que não leva a lugar nenhum. A narrativa real começa geralmente no minuto 12. Eu levei seis episódios para perceber isso e ajustar meu ritmo de consumo. A atuação de Luan Petry como o detetive protagonista é o ponto alto da série. Ele consegue transmitir a confusão e a desconfiança que um homem comum sentiria ao se deparar com situações impossíveis. Camila Pitanga, por sua vez, entrega uma performance contida que funciona melhor do que o roteiro exige dela. O vilão, interpretado por Paulo Goulart Filho, é convincente, mas o personagem carece de motivações claras até o décimo episódio — e mesmo assim a revelação é genérica.

Há também um aspecto sociológico interessante na obra que poucas pessoas comentam. A novela usa a figura do cão fantasma como metáfora para traumas familiares transmitidos entre gerações, algo que dialoga com teorias psicológicas contemporâneas. Mas essa leitura fica subtexto. O roteiro poderia ter explorado melhor essa camada, em vez de focar em reviravoltas fáceis. Se você está procurando uma adaptação mais fiel ao original, recomendo assistir às versões em filme de 1932 ou 1959, ou mesmo a série britânica da BBC de 2012, que é amplamente considerada a melhor adaptação disponível. A novela brasileira serve como entretenimento, mas não deve ser confundida com anything que se aproxime da obra de Conan Doyle.

O legado da telenovela no entanto permanece. Ela abriu espaço para adaptações brasileiras de literatura estrangeira em formato de novela, algo que antes era raro. As duas tentativas seguintes — uma de "O Conde de Monte Cristo" e outra de "O Código Da Vinci" — seguiram o mesmo padrão de liberdade criativa, com resultados igualmente variados. Em resumo: assista com moderação, desconfie dos cliffhangers e não espere fidelidade ao livro. O que você vai encontrar é uma telenovela de suspense com influências góticas, produzida com orçamento médio e roteiro imprevisível. Nada mais, nada menos.