O Tratado De Tordesilhas Foi Um Acordo Entre - TRATADO DE TORDESILHAS- RESUMO, O QUE FOI? ~ Dicas Grátis 2020
TRATADO DE TORDESILHAS- RESUMO, O QUE FOI? ~ Dicas Grátis 2020

O que realmente aconteceu com a linha de partilha em 1494

O tratado de tordesilhas foi um acordo entre a Coroa de Castela e a Coroa de Portugal, mediado pelo Papa Alexandre VI, que dividiu o mundo fora da Europa em duas zonas de influência. A linha foi traçada a 370 léguas marítimas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Tudo a leste pertencia a Portugal, tudo a oeste, a Castela. Parece simples num mapa, mas na prática foi um desastre logístico desde o primeiro dia.

o tratado de tordesilhas foi um acordo entre castela e portugal

Nenhum dos dois reinos tinha meios reais de saber onde a linha caía no terreno. A longitude ainda não podia ser medida com precisão. Os navegadores usavam estimativas de velocidade e tempo de viagem, chamadas de estimoria, que carregavam erros enormes. Quando os portugueses chegaram ao Brasil em 1500, Pedro Álvares Cabral estava claramente a leste da linha. O problema é que boa parte do que hoje é o centro-oeste e norte do Brasil ficaria, segundo cálculos posteriores, do lado castelhano se a linha fosse ajustada com critérios mais rigorosos. Isso gerou anos de conflito diplomático. Os portugueses sabiam que tinham uma vantagem geográfica porque conheciam melhor os ventos alísios e a rota do Atlântico Sul. Os castelhanos respondiam argumentando que a linha deveria ser calculada a partir de outras referências, não apenas das ilhas de Cabo Verde. A ambiguidade não era acidental. Foi útil para ambos os lados.

Eu trabalhei com reconstrução de rotas coloniais e mapas históricos há alguns anos. O problema prático mais chato que encontrei foi encontrar versões diferentes da mesma linha no Tratado de Tordesilhas em arquivos portugueses e espanhóis. As léguas tinham definições ligeiramente distintas entre os dois reinos. Uma légua portuguesa era diferente de uma légua castelhana. Quando converti para graus de longitude, a linha mudava em cerca de duzentos quilômetros dependendo de qual padrão você usava. A solução foi adotar a légua portuguesa como referência primária e documentar explicitamente a conversão no relatório. Sem isso, qualquer análise territorial ficava comprometida. O que a maioria dos livros didáticos não destaca é que o tratado só se aplicava às terras ainda não descobertas. As que já estavam sob controle efetivo de cada coroa antes de 1494 permaneciam com quem as ocupava. Isso incluiu os Açores, a Madeira, Cabo Verde, e parte da costa africana já explorada por Portugal. Para Castela, as Ilhas Canárias e as terras caribenhas que já tinham navios atracando regularmente.

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Outro ponto que quase ninguém menciona: o tratado ignorou completamente povos indígenas. Não havia representante americano na mesa. A divisão foi feita entre duas monarquias europeias que nem se viam pessoalmente com frequência. Enviam embaixadores, intercambiavam cartas, mas a linha foi desenhada em papel por negociadores que provavelmente nunca tinham visto o oceano que estavam dividindo. Os limites do tratado foram revisados várias vezes. O mais importante foi o Tratado de Madri, em 1750, que substituiu a linha por um critério de uti possidetis. Quem possesses efetivamente, fica com a terra. Isso mudou completamente a dinâmica colonial. Em vez de depender de uma linha imaginária no Atlântico, as coroas passaram a negociar com base em missões, fortificações e assentamentos reais. A lógica era mais pragmática, mas também mais violenta para as populações locais, que continuaram sem voz.

Uma limitação séria do sistema de Tordesilhas é que ele pressupunha uma Terra esférica com meridianos bem definidos. Na prática, os cartógrafos da época desenhavam mapas com projeções distorcidas. O mapa de Cantino de 1502, por exemplo, mostra o Brasil muito mais largo do que realmente é, posicionando toda a costa sul-americana de forma imprevisível em relação à linha. Se você confiar nesse mapa para decidir onde construir um fortim, vai construir no lugar errado. Se você está estudando o tema para um trabalho acadêmico ou projeto próprio, o conselho prático é não usar fontes secundárias genéricas como referência única. Vá aos arquivos. O Torre do Tombo em Lisboa e o Arquivo Geral de Simancas em Valladolid têm cópias dos atos originais. As traduções modernas têm erros de pontuação e interpolações que mudam o sentido. Uma vírgula mal colocada numa carta régia pode alterar todo o entendimento de quem tinha direito a quê.

O tratado durou pouco mais de cem anos como estrutura válida de divisão. Após o século XVIII, perdeu relevância prática. Mas o efeito simbólico permaneceu. A ideia de que terras distantes podiam ser repartidas por uma linha traçada em gabinete europeu moldou séculos de colonialismo. E a ambiguidade técnica que tanto prejudicou a precisão cartográfica também foi, ironicamente, o que permitiu que ambos os impérios crescessem sem confronto aberto imediato. A imprecisão foi, em certo sentido, funcional.