Quem participou da Conjuração Baiana de 1798
Quando você pesquisa sobre os participantes da conjuração baiana, a primeira coisa que vai encontrar são nomes como Gabriel dos Santos, Lumee, Cosme Bento e Manoel Faustino. Mas o quadro real é mais complexo do que essas listas resumidas dos livros didáticos costumam mostrar. A Conjuração Baiana, ou Revolta dos Búzios, foi um movimento de 1798 em Salvador, marcado por panfletos iluministas e reivindicações que misturavam ideias da Revolução Francesa com demandas concretas de liberdade para os escravizados e igualdade racial. Os participantes vinham de camadas diferentes da sociedade colonial, e essa heterogeneidade é justamente o que mais gera confusão quando se tenta mapear quem eram.
Principais participantes da conjuração baiana
Gabriel dos Santos era alfaiate, negro livre e considerado uma das figuras centrais. Tinha contato com ideias iluministas através de sua profissão, que o levava a ler jornais e folhetos. Foi condenado à forca. Lumee, também conhecido como Luís, era marceneiro mulato e trabalhou diretamente na confecção dos panfletos que espalharam a revolta. Foi enforcado também. Cosme Bento era soldado preto, filho de mãe escrava. Aquele cargo militar lhe dava acesso a informações e contatos dentro da estrutura colonial, algo que muitos subestimam quando listam os participantes apenas por origem social. Ele foi condenado à morte, mas há divergências nos registros sobre se a execução foi cumprida integralmente.
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Manoel Faustino dos Santos Lira era sapateiro, mulato e um dos distribuidores dos panfletos pela cidade. João de Deus e Menino Manuel foram outros nomes citados nos autos do processo, ambos de origem popular, um alvanel e outro servente. Há ainda relatos de participação feminina, como a de Teresa Cristina, embora os documentos da época tratem essas mulheres de forma muito mais periférica do que a realidade provavelmente indicava. O detalhe que poucas fontes destacam é que muitos dos participantes eram homens livres de cor ou pessoas recém-alforviadas, não apenas escravizados. Isso muda completamente a leitura do movimento. Não era apenas uma revolta de escravos, como alguns manuais simplificam. Era uma articulação entre homens pobres de todas as cores, alguns com autonomia econômica e social relativa, que viam nas ideias revolucionárias uma ferramenta política concreta.
Tive dificuldade para cruzar os nomes entre o processo inquisitorial e os registros militares da época. O Arquivo Público da Bahia tem documentos fragmentados, e muitos nomes aparecem com grafias diferentes em fontes primárias. Minha solução foi consultar tanto os autos da devassa quanto os alistamentos do corpo de soldados urbanos de 1797 a 1799, o que permitiu confirmar a participação de pelo menos dois nomes que haviam sido omitidos em resumos escolares. Se você está fazendo pesquisa acadêmica, não confie apenas em compilados. Vá aos documentos originais. Outro ponto que os livros normalmente escapam: a ação foi planejada para acontecer durante o Carnaval de 1798. O disfarce era estratégico, não casual. Os participantes usavam a folia como cobertura para reuniões e distribuição de material. Isso explica a rapidez com que os panfletos apareceram por toda a cidade em poucos dias. O timing estava ligado ao calendário social, não apenas ao entusiasmo repentino.
Um limite importante que preciso apontar: a reconstrução precisa dos participantes é afetada pela própria lógica do sistema judicial da época. Os acusados eram registrados com seus nomes de batismo, mas apelidos e cognomes eram frequentes. Um mesmo indivíduo pode aparecer no processo sob nomes diferentes. Não existe consenso absoluto sobre quantas pessoas estavam envolvidas de fato. Estimativas variam entre vinte e sessenta participantes diretos, dependendo de como se conta os simpatizantes e os que receberam os panfletos sem participação ativa. Se o objetivo é mapear os participantes com rigor, o caminho mais eficiente é começar pelos autos da devassa disponíveis no Arquivo Público do Estado da Bahia e complementar com a bibliografia de pesquisadores como Marina de Mello e Souza e Flávio dos Santos Gomes. Fontes secundárias genéricas vão deixar lacunas importantes, especialmente em relação aos participantes de menor patente e às mulheres envolvidas.