Perspectiva Do Envelhecimento Na Sociedade Brasileira - A Perspectiva do Envelhecimento na Sociedade Brasileira by Alfredo ...
A Perspectiva do Envelhecimento na Sociedade Brasileira by Alfredo ...

A estrutura demográfica que ninguém quer encostar

A gente fala muito de envelhecimento no Brasil como se fosse um problema futuro. Não é. O IBGE já registrou que, em 2023, o país tinha mais de 25 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, e a proporção continua subindo semfreio. A expectativa de vida passou de 67 para 76 anos nas últimas três décadas. Isso não é tendência, é dado consolidado. O que muda é a velocidade, e a velocidade quebra planejamento. No início dos anos 2010, comecei a trabalhar com uma associação de moradores num bairro da periferia de São Paulo. O objetivo parecia simples: mapear os idosos do condomínio para entender necessidades básicas de saúde e convívio. O que eu encontrei foi algo que nenhum relatório governamental mostra com nitidez suficiente. A maior parte das pessoas que eu classify como "idosas" na planilha eram, na prática, chefes de família que sustentavam netos e filhos adultos desempregados. A noção de "velhice" que eu trazia de manuais técnicos simplesmente não se encaixava. Essas pessoas tinham 65, 70 anos, mas estavam no mercado informal, trabalhavam como diaristas, limpavam casas, faziam bicos. A aposentadoria era conceito distante, às vezes inexistente, porque nunca tiveram carteira assinada.

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Isso me obrigou a repensar completamente como abordava perspectiva do envelhecimento na sociedade brasileira. Não adiantava aplicar modelos europeus ou mesmo as diretrizes do SUS para populações que nunca tiveram acesso a previdência pública. O workaround que eu usei foi abandonar o cadastro baseado em idade cronológica e passar a mapear por dependência econômica e rede de apoio. Fiz uma pesquisa porta a porta perguntando não quantos anos cada pessoa tinha, mas quem dependia dela financeiramente, quantas receitas mensais ela movimentava, se tinha acompanhamento médico regular. O perfil que saiu dessa abordagem era completamente diferente do que os dados agregados mostravam.

Como ler a perspectiva do envelhecimento na sociedade brasileira sem cair nas armadilhas dos dados oficiais

O senso anual do IBGE é confiável para volumes, mas tem uma limitação grave quando o assunto é a vivência real do envelhecimento: ele não captura a economia informal nem as migrações internas recentes. Milhões de brasileiros migram do Nordeste para o Sudeste e Sul nas décadas de 40 e 50, passam a vida inteira trabalhando sem registro formal, e só nos 60 é que aparecem nas estatísticas como "idosos urbanos". Eles chegam sozinhos, sem rede de parentesco próxima, muitas vezes com histórico de doenças ocupacionais não diagnosticadas. O dado brutos mostra uma cidade com mais idosos. A realidade mostra uma população fragilizada que o poder público não consegue alcançar com os programas padrão. Aqui vai algo que poucos consideram: o envelhecimento no Brasil não é homogêneo por região, e tratar como se fosse gera erro de política pública. O Sul e Sudeste envelhecem mais rápido, é verdade, mas o Norte e Nordeste recebem fluxo constante de pessoas mais jovens, o que mascar