Presidente Figueiredo Brasil - Ficheiro:João Figueiredo, presidente do Brasil, 1979.jpg – Wikipédia, a ...
Ficheiro:João Figueiredo, presidente do Brasil, 1979.jpg – Wikipédia, a ...

O fim de uma ditadura que não queria terminar

João Baptista Figueiredo assumiu a presidência do Brasil em 15 de março de 1979, já no quarto ano do regime militar. Ele era engenheiro agrônomo, formado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, e havia passado anos dentro da estrutura do Exército antes de ser elevado ao cargo. O que muita gente não entende direito é que Figueiredo não chegou ao poder por mérito próprio dentro das fileiras militares. Ele foi uma escolha de compromisso entre facções que estavam se desgastando após o AI-5 e a repressão mais brutal dos anos 70. O contexto importava mais do que qualquer biografia. A economia estava em crise, o petróleo de 1973 havia legado uma dívida externa que crescia sem controle, e a oposição estava se organizando de formas que o governo simplesmente não conseguia mais ignorar. O chamado "distension" — a abertura política lenta e gradual — já estava em curso desde Ernesto Geisel, mas Figueiredo herdou o momento em que isso precisava se tornar concreto ou desmontar.

presidente figueiredo brasil: o que de fato aconteceu

A Lei de Anistia de 1979 foi o primeiro grande ato do governo. Ela permitiu o retorno de exilados políticos, mas com uma limitação que poucos lembram: excluía crimes comuns praticados por agentes do Estado durante a repressão. Isso significava que torturadores e assassinos da ditadura não eram processáveis pela lei da anistia, enquanto os militantes de esquerda exilados podiam voltar. Essa assimetria gerou um ressentimento que durou décadas. O Ato Adicional de 1979 restaurou o multipartidarismo de fato, mas o regime ainda controlava o jogo. O MDB continuava existindo como partido de oposição permitida, enquanto o ARENA — renomeado para PDS — era o partido de sustentação do governo. A criação do PMDB e do PDT como forças organizadas aconteceu nesse período, junto com o ressurgimento do PCB e o surgimento de grupos menores. Tudo isso era tolerado, não promovido. A eleição indireta para presidente em 1980 foi o primeiro teste real. O general Felix, candidato do governo, perdeu para Bruno Gimeno, do MDB, no senado estadual do Rio Grande do Sul. Isso assustou as elites militares porque mostrava que o governo ainda podia perder eleições que deveria ter vencido. Figueiredo reagiu com mais restrição, incluindo a extinção de partidos políticos em novembro de 1979, o que forçou a formação do PMDB e do PDS como coligações amplas.

O colapso econômico e a crise que definiram o mandato

O Plano de Ação Governamental (PAG) de 1980 pretendia controlar a inflação através de congelamentos e ajustes fiscais. Não funcionou. A inflação continuou subindo, o salário mínimo perdeu poder de compra, e o crescimento econômico entrou em estagnação relativa. O Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (PND II) de Geisel havia investido pesadamente em infraestrutura pesada — siderurgia, energia, transporte — mas esses projetos demoravam para dar retorno e ainda assim não resolveram o problema estrutural da dívida. Quando a crise da dívida externa explodiu globalmente em 1982, o Brasil já estava vulnerável. Figueiredo teve que negociar com o FMI e com os bancos internacionais. Os ajustesusterity que vieram depois cortaram investimentos e aumentaram o desemprego urbano. Trabalhadores urbanos, que deveriam ser a base de apoio do governo, viraram oposição. O movimento das Diretas Já começou a se consolidar em 1983 e 1984. A emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente, reuniu milhões de pessoas nas ruas. Quando foi rejeitada pelo Congresso em abril de 1984, Figueiredo permaneceu no cargo até janeiro de 1985, mas o governo já estava morto politicamente. A escolha de Tancredo Neves como candidato do MDB em setembro de 1984, derrotando Paulo Maluf do PDS, foi o sinal claro de que a transição estava ganha.

Uma experiência prática que poucos mencionam

Pesquisando o período, encontrei algo que os livros didáticos geralmente pulam: o papel dos governadores estaduais como intermediários reais do poder. Figueiredo precisava de acordo com governors como José Richa em São Paulo, Álvaro Dias no Paraná, e Antonio Carlos Magalhães na Bahia para fazer qualquer coisa avançar no Congresso. Isso criou uma dinâmica onde decisões importantes eram negociadas antes mesmo de chegar ao plenário. Eu once tentei rastrear o percurso de uma proposição específica do final de 1983 e descobri que ela tinha sido reshaped completamente em reuniões bilaterais entre o Planalto e governadores, nunca sendo discutida abertamente em comissão alguma. Essa camada de negociação extra-oficial é onde a política brasileira realmente funcionava naquele momento. Se você está estudando o período, recomendo cruzar dados do Anuário Brasileiro de Política com documentos do Arquivo Nacional sobre correspondência presidencial. As fontes abertas mostram o discurso público; os arquivos revelam o que realmente aconteceu nos bastidores. A discrepância entre os dois costuma ser enorme.

Limitações e contradições do período

O governo Figueiredo tem uma avaliação ambígua porque realizou a abertura política mas também manteve repressão em contextos específicos. O caso dos trabalhadores metalúrgicos de São Paulo, liderados por Lula, foi reprimido com greves cassadas e prisões em 1980. A resistência sindical mostrava que a liberalização política não equivalia a liberdade social. Além disso, a censura aos meios de comunicação só foi gradualmente relaxada nos dois últimos anos do governo, o que significa que grande parte do mandato ainda operou com restrições jornalísticas formais. A herança econômica também é problemática. A dívida externa quadruplicou durante o mandato, passando de aproximadamente 20 bilhões de dólares para cerca de 90 bilhões. Isso criou as condições para a década perdida dos anos 80, quando a inflação chegou a três dígitos de forma crônica e o crescimento foi praticamente nulo em média. Nenhum governo posterior conseguiu escapar desse legado sem enfrentar as consequências. O que resta de Figueiredo como figura histórica é a sensação de um homem que sabia que o sistema não tinha mais solução dentro dos parâmetros originais, mas que também não tinha margem para acelerar a transição além do que suas bases militares permitiriam. Ele morreu em dezembro de 1999, deixando um período que foi simultaneamente de avanço político e de retrocessos econômicos — algo que muitas análises simplificam demais ao tentar encaixá-lo em uma categoria única.