Como usar pronomes demonstrativos sem errar feio
Pronome demonstrativo é uma daquelas coisas que todo mundo aprende na escola e depois esquece, exceto quando vai escrever algo formal. Aí começa a dúvida: este, esse, aquele... qual colocar onde? A resposta curta é que depende da distância entre o falante, o ouvinte e o objeto da fala. Mas a coisa não é tão linear assim, e tem pegadinha que ninguém ensina. O pronome demonstrativo serve para apontar algo no espaço ou no tempo, ou então para retomar uma ideia mencionada anteriormente. Os principais são: este/esta (próximo de quem fala), esse/essa (próximo de quem ouve), aquele/aquela (longe de ambos). No tempo, a lógica é similar: este se refere ao presente ou futuro próximo, esse ao passado recente, aquele ao passado distante. Parece simples até você se deparar com um texto em que o autor mistura os três e você fica na dúvida se ele escreveu certo ou errado.
pronome demonstrativo exemplos na prática
Eu lembro de ter revisado um relatório jurídico onde o redator usou "deste" para se referir a um contrato que fora mencionado duas páginas antes, mas que pertencia à parte contrária. Tecnicamente, era incorreto, porque "deste" remete a algo próximo do autor, não do destinatário. A correção seria "dele" ou "desse contrato", dependendo do sentido. Gastei cerca de vinte minutos caçando esses deslizes em um documento de cinquenta páginas. Não é um erro grave no dia a dia, mas em textos formais aparece com frequência. Aqui vão os casos mais comuns com exemplos:
Isto – usado para algo abstrato ou indefinido, próximo do falante. Exemplo: "Isto que você disse não faz sentido." Note que "isto" não se refere a um objeto concreto visível. Você pode estar apontando para uma ideia, uma situação. Isso – também abstrato, mas mais distante do falante, mais próximo do ouvinte. Exemplo: "Não gostei disso que você fez." O falante se coloca numa posição de rejeição em relação ao ato, criando uma distância.
Isso" vs "Isto" – aqui está uma das confusões mais frequentes. Na fala cotidiana, brasileiro médio usa "isso" para quase tudo. Em textos escritos formais, a distinção importa. "Isto" soa mais solene e específico. Um advogado ou escritor costuma preferir "isto" quando se refere a algo que está sendo apresentado no momento pela primeira vez. Este – indica proximidade com o falante no espaço ou no tempo. Exemplo: "Este livro que estou lendo é excelente." Ou ainda: "Neste momento, não posso atender." Perceba que "neste momento" é presente, e é isso que "este" sinaliza.
Esse – indica proximidade com o ouvinte. Exemplo: "Essa notícia que você trouxe é preocupante." O ouvinte é o portador da informação, então o pronome o aproxima dela. Aquele – indica distância de ambos. Exemplo: "Aquele dia de julho foi o mais frio da década." Nada nem perto do falante nem do ouvinte. É passado, é remoto.
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Uma nuance que poucos conhecem: os pronomes demonstrativos também podem funcionar como conectivos Textuais, retomando o que foi dito antes. É o caso de "o que" equivalendo a "isto" ou "isso". Exemplo: "Fez o que podia, mas o resultado não foi esse." Aqui, "esse" retoma implicitamente uma expectativa ou padrão mencionado anteriormente. É um uso sofisticado, mas muito comum em textos bem construídos. O problema real surge quando você precisa escolher entre "este" e "esse" para retomar algo. A regra prática é: se você está falando do que vai acontecer ou do que está sendo apresentado agora, use "este". Se está falando do que já foi dito por outra pessoa ou do que está no passado recente, use "esse". Quando há ambiguidade, a solução é repetir o substantivo ou usar uma perífrase. "Esse problema" em vez de apenas "esse" resolve muita confusão.
Tem um caso específico que merece atenção: a concordância com "um desses". Quando você diz "um desses dias", o pronome "desses" concorda em gênero e número com o substantivo que ele substitui ou ao qual se refere. Se for "umas dessas ideias", plural feminino. Se for "um desses problemas", singular masculino. Erros aqui são mais evidentes porque soam como desatenção gramatical. Outra armadilha: "mesmo" e "próprio". Às vezes as pessoas confundem o pronome demonstrativo com o adjetivo "mesmo". "Este mesmo livro" — aqui "mesmo" não é pronome, é adjetivo enfático. A diferença é sutil, mas importante para a clareza do texto.
Para quem quer praticar, o ideal é pegar um texto jornalístico ou acadêmico e sublinhar todos os demonstrativos, analisando se a escolha foi adequada ao contexto. Leva uns dez minutos por página e melhora bastante a percepção. O erro mais comum que vejo em revisões é o uso de "aqui" e "aí" no sentido espacial ou temporal de forma imprecisa. "Aqui" deveria indicar proximidade com o falante, mas muitas vezes aparece onde o correto seria "ai" ou "lá".
casos avançados e quando as regras falham
Em português brasileiro, há uma tendência forte de usar "esse" como pronome genérico, substituindo "isto" e "este" em contextos informais. Isso é normal na fala e em textos menos formais. Em redações concursais, porém, essa liberdade pode custar pontos. O examinador espera a distinção tradicional. Se você trabalha com tradução, atenção extra: o inglês tem "this" e "that", que correspondem grosso modo a "este" e "aquele", mas a equivalência nunca é perfeita. Traduzir "this problem" como "este problema" nem sempre é a melhor escolha. Muitas vezes "esse problema" ou simplesmente "o problema" soa mais natural em português, dependendo do contexto.
Não existe regra absoluta que funcione em todas as situações. A língua vive e se adapta. O importante é saber a norma culta, reconhecer quando ela se aplica e ter critério para decidir quando pode flexibilizar. Se o texto for formal, siga as regras. Se for uma conversa ou um post de rede social, use o que soa mais natural. O pior erro é a inconsistência dentro do mesmo texto.