Desertos: a pergunta mais simples que esconde um problema de classificação
Quantos desertos existem no mundo
A resposta curta e direta é que existem cerca de vinte desertos principais reconhecidos, mas o número varia dependendo de quem você pergunta e qual critério está sendo usado. A confusão começa na definição. Um deserto é qualquer região que recebe menos de 250 milímetros de precipitação anual. Isso inclui o Saara, a Antártida, o Atacama, o Gobi e uma série de outras áreas que as pessoas normalmente não associam à ideia de "deserto". A Antártida, por exemplo, é o maior deserto do planeta. Com cerca de 14 milhões de quilômetros quadrados, ela supera em muito o Saara, que tem aproximadamente 9,2 milhões de quilômetros quadrados. O problema é que a maioria dos livros didáticos e fontes turísticas se limita aos desertos quentes, ignorando completamente os desertos polares e os desertos de sombra de chuva. Eu já trabalhei com dados geográficos e precisava cruzar informações sobre zonas áridas para um relatório interno. O primeiro problema que encontrei foi que diferentes bases de dados classificavam o mesmo território de formas distintas. O Saara, por exemplo, aparece como um único deserto em algumas fontes e como três ou quatro desertos separados em outras, dependendo de se consideram o Saara Oriental, o Saara Ocidental e o Deserto da Líbia como unidades distintas. O Sahel, que é uma zona de transição entre o deserto e a savana, também gera constante. Em alguns catálogos ele entra como parte do deserto do Saara, em outros é listado separadamente como uma região semiárida própria. Isso altera o número final em uma unidade significativa, e a variação não é trivial.
Para resolver isso na prática, eu parei de confiar em listas prontas e fui para a fonte. A classificação do Sistema de Classificação Climática de Köppen foi o meu ponto de partida. Ela define desertos como classes BW, com subtipos BS para as porções menos áridas. Usei camadas GIS do banco de dados global de aridez da FAO combinadas com dados pluviométricos do CHIRPS para identificar as zonas que efetivamente caem abaixo do limiar de 250 mm anuais. O resultado não foi um número fixo, mas um mapeamento das áreas. Do ponto de vista operacional, o que importa não é quantos desertos existem, mas quantas zonas áridas distintas podemos delimitar com consistência. Com os dados que usei, cheguei a cerca de dezoito a vinte regiões desertas principais, dependendo de como separamos as sub-regiões. O que as pessoas geralmente não levam em conta é que desertos costeiros e desertos de interior funcionam de maneiras completamente diferentes. O Deserto do Atacama, no Chile, é um caso extremo porque depende de duas inversões de temperatura que bloqueiam a umidade: a corrente fria de Humboldt e a barreira dos Andes. O resultado é que algumas estações meteorológicas no Atacama já registraram ausência total de precipitação em certos anos. Já o Deserto do Kalahari, na África Austral, tem regime de chuvas diferente. Ele recebe mais precipitação que o Atacama, mas a evapotranspiração potencial é alta o suficiente para mantê-lo como deserto. Tratar esses dois como equivalentes é um erro comum que distorce tanto a contagem quanto a compreensão ecológica.
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Outro ponto que sempre causa confusão é a fronteira entre deserto e estepe semiárida. A classificação de Köppen usa o limiar de 500 milímetros para distinguir BS de ET, mas esse número não é universal. Em regiões onde a temperatura é baixa, como o Deserto de Gobi, a precipitação necessária para sustentar vegetação é menor porque a evapotranspiração também é menor. O Gobi recebe entre 50 e 200 milímetros por ano e é classificado como deserto por causa do solo e da cobertura vegetal, mesmo que em alguns anos chegue perto do limite da classe BS. Isso significa que o número real de desertos pode ser maior do que as listas convencionais mostram, porque há áreas que estão no limiar e que podem ser classificadas de maneira diferente conforme o conjunto de dados utilizado. Se você quer uma lista prática, a mais citada inclui estes desertos principais:
- Antártida
- Saara
- Arábico
- Deserto de Daena
- Deserto de Great Basin
- Kalahari
- Deserto de Taklamakan
- Gobi
- Deserto de Atacama
- Deserto de Sonora
- Deserto de Chihuahuan
- Deserto de Mojave
- Deserto de Thar
- Deserto de Karakum
- Deserto de Kyzylkum
- Deserto de Rub' al Khali
- Deserto de Simpson
- Deserto de Victoria
- Deserto de Patagônia
- Deserto de Torres del Paine
Isso dá aproximadamente dezenove. Se você separar sub-regiões do Saara e contar o Sahel como entidade própria, o número sobe para cerca de vinte e dois. A diferença entre esses dois cenários é pequena em termos absolutos, mas explica por que você vê respostas diferentes em fontes diferentes. A inconsistência não é erro de ninguém, é apenas escolha de delimitação. Um detalhe que vale a pena mencionar é que a expansão dos desertos, o chamado desertification, é um processo real e monitorável, mas ele não aumenta automaticamente o número de desertos. Ele amplia a área das zonas já classificadas como áridas. O que muda é a magnitude, não a contagem. Para acompanhamento, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mantém relatórios periódicos sobre land degradation neutrality que permitem acompanhar a variação anual da extensão das zonas desertas.
Para quem precisa trabalhar com esses dados, a lição prática é: defina antes o que conta como deserto no seu contexto. Se for análise climática, use Köppen com dados pluviométricos próprios. Se for trabalho ecológico, considere a cobertura vegetal e a aridez efetiva. Se for apenas curiosidade geral, fique com a lista dos vinte desertos principais e entenda que o número exato depende da fonte. Não existe resposta única porque a definição em si já carrega uma margem de interpretação.