Quem É Anita Malfatti - Anita Malfatti: obras e biografia - Cultura Genial
Anita Malfatti: obras e biografia - Cultura Genial

Uma introdução prática ao modernismo brasileiro

Quem estuda arte brasileira das primeiras décadas do século XX acaba esbarrando nela obrigatoriamente. O nome completo é Maria Amélia de Moraes Malfatti. Nasceu em 1889, em São Paulo, e morreu em 1964. O que a torna relevante não é só a cronologia, mas a ruptura que representou na época.

Quem é anita malfatti

Formou-se na escola normal, mas largou tudo aos 20 anos para estudar nos Estados Unidos. Freqüentou a Teachers College da Columbia University, onde ficou sob influência de Arthur Dow. Esse treinamento foi decisivo. Dow ensinava composição baseada em simplificação formal e expressão subjetiva, algo totalmente oposto ao academicismo que se praticava no Brasil. Depois foi para Munique, Alemanha, onde entrou em contato com a Expressionismo alemão. A exposição dela em 1917, na Sociedade Partenon Literário no Rio de Janeiro, causou escândalo. Os quadros com pinceladas grossas, cores violentas e formas distorcidas eram incompreensíveis para o público da época.

Em 1918, Mario de Andrade publicou "Paranóia ou Mistificação?", um texto cruel que atacava diretamente o trabalho dela. Dizia que as pinturas eram produto de delírio, não de talento. Esse episódio marcou profundamente Anita, que praticamente abandonou a pintura durante anos. Voltaria a expor apenas timidamente nas décadas seguintes. O que muita gente não entende é que ela não estava fazendo arte ingênua. Estava traduzindo visualmente o que via ao seu redor. Em "O Samba", de 1922, por exemplo, os rostos dos dançarinos são máscaras expressionistas, mas a intenção era registrar a vitalidade da cultura popular, não distorção por distorção.

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Uma nuance que passei despercebida na primeira vez que estudei o período: Anita não participou ativamente da Semana de 22 como expositora. Ela já havia voltado ao Brasil e estava mergulhada em suas próprias questões técnicas quando o evento ocorreu. A associação dela com o modernismo brasileiro veio depois, por convergência ideológica, não por participação direta. Se você for pesquisar obras dela em museus, note que a fase expressionista (1915-1922) é bem diferente da fase neosurrealista que surgiu depois de 1930. Pinturas como "A Buúva" têm uma atmosfera onírica que nada tem a ver com os primeiros quadros. Muitos catálogos simplificam isso tratand0a como uma trajetória linear, o que é impreciso.

A obra dela está espalhada. O Museu de Arte de São Paulo tem boa coleção. O Museu Paulista também. O acervo documental dela fica no Arquivo do Museu de Arte Contemporânea da USP, mas o acesso requer agendamento prévio. Se for estudar os desenhos originais, leve lupa mesmo, porque muitas anotações nos revés das telas são quase ilegíveis sem iluminação adequada. Há uma confusão recorrente entre o estilo dela e o de Tarsila do Amaral. As duas foram influenciadas pelo mesmo ciclo de ideias, mas as soluções formais são distintas. Anita trabalhava mais com o traço expressivo e a cor como violência. Tarsila buscava síntese e monumentalidade. Diferença que muitos leigos não percebem e acabam atribuindo erradamente.

O legado dela só ganhou reconhecimento pleno nas décadas de 1970 e 1980, quando historiadores como Mário Pedrosa e José Roberto Teixeira Leite resgataram a exposição de 1917 como momento fundador. Antes disso, ela era lembrada como uma curiosidade biográfica, não como uma força estrutural do modernismo.