Relevo Brasileiro Jurandyr Ross - RELEVO: Classificação do relevo brasileiro segundo JURANDYR L. S. ROSS ...
RELEVO: Classificação do relevo brasileiro segundo JURANDYR L. S. ROSS ...

Entendendo a Classificação do Relevo Brasileiro Segundo Jurandyr Ross

A divisão do relevo brasileiro em unidades geomorfológicas proposta por Jurandyr Ross mudou a forma como geógrafos e planejadores territoriais trabalham no Brasil. A classificação não é baseada apenas na aparência superficial do terreno, mas integra estrutura geológica, processos de erosão e modelos de modelado para identificar áreas com comportamento morfogenético coerente. Isso significa que a unidade definida em um trecho costuma ter correspondência em outras partes do país com histórico tectônico similar.

Como funciona o relevo brasileiro jurandyr ross na prática

O método parte do pressuposto de que formas de relevo não surgem do nada. Elas são produto da interação entre estruturas geológicas pretéritas — bacias sedimentares, escudos cristalinos, dobramentos, cinturões orogênicos — e agentes modeladores atuais ou recentes, como clima, clima pretérito e drenagem. Ross organizou essas interações em uma hierarquia que considera quatro níveis de análise: complexos morfoestruturais, planaltos, chapadas, depressões, plataformas e terras baixas. Cada nível responde a uma pergunta diferente sobre a origem da forma. Aqui está o detalhe que poucos explicam com clareza. A unidade morfoestrutural define o que está "embutido" no substrato. O que aparece na superfície como planalto ou depressão é a resposta final dos processos superficiais a esse substrato. Muita gente confunde os dois níveis. Eu já vi material didático tratar "Planalto da Borborema" como se fosse uma única coisa, quando na verdade ele abriga complexos morfoestruturais distintos que têm história tectônica diferente e, portanto, respondem de maneira diferente à erosão e ao uso do solo.

Na prática, a classificação se organiza assim. Primeiro você mapeia os complexos morfoestruturais, que são as grandes áreas com histórias geológicas homogêneas — como o Complexo Amazônia, o Complexo São Francisco, o Complexo Brasílio, o Complexo Atlântico, o Complexo de Furnas e os cinturões orogênicos. Depois, dentro de cada complexo, identifica-se as formas de relevo superficiais resultantes, que podem ser planaltos, chapadas, depressões, plataformas e terras baixas. O resultado final gera uma tabela de combinação que permite nomear unidades como "Depressão Periférica da Bacia Paraná" ou "Planalto residual Sul-amazônico". O que eu aprendi na prática, e que muitos mapas simplificados não mostram, é que os limites dessas unidades raramente são nítidos. O relevo brasileiro é marcado por transições graduais, especialmente onde bacias sedimentares encontram escudos cristalinos. Durante um mapeamento que fiz na divisa entre os estados do Mato Grosso do Sul e São Paulo, por exemplo, precisei lidar com uma zona de transição entre a Depressão do Rio Apa e o Planalto da Bacia do Paraná onde o contato não aparecia nem na carta topográfica nem em imagens de satélite convencionais. A solução foi cruzar dados de geologia estrutural com perfis altimétricos de alta resolução (srtm com arredondamento de 30m) e observar a mudança no padrão de drenagem. Onde a densidade de cursos d'água diminuía abruptamente e o relevo ganhava declividade, tínhamos a linha de cota que separava a depressão do planalto. Esse tipo de verificação de campo quando possível é o que diferencia uma aplicação competente do método de uma cópia de mapa pronto.

Outro ponto que merece atenção é a questão da escala. A classificação de Ross funciona bem em escalas regionais e estaduais, mas em escalas muito detalhadas — do tipo que projetos de infraestrutura precisam consultar — ela perde poder discriminatório. Dentro de uma mesma unidade morfoestrutural, variações locais de litologia e estrutura criam microformas que o mapeamento em grande escala simplesmente não captura. Eu tive esse problema ao revisar uma estudo de impacto ambiental para uma obra rodoviária no interior da Bahia, onde a unidade classificada como "Depressão Sertaneja" escondia setores com afloramentos de quartzito que eram totalmente impermeabilizantes e geravam runoff concentrado, algo que a classificação macro não previa. A saída foi complementar com levantamentos litológicos em escala 1:50.000 e perfis de solo pontuais.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Vantagens e limitações da classificação

A grande vantagem do modelo de Ross é que ele oferece uma linguagem unificada. Antes dele, geógrafos brasileiros usavam classificações que vinham de tradições diferentes — a escola de Ab'Sáber com seus domínios morfoclimáticos, a abordagem estruturalista de autores como Martinez e os trabalhos regionais isolados. Ross trouxe tudo para dentro de um sistema coerente que pode ser aplicado do Pará ao Rio Grande do Sul sem mudar as regras. Isso facilita comparações regionais e a integração de dados de diferentes fontes. Por outro lado, o modelo tem pontos fracos sérios. O mais evidente é a dependência de dados geológicos pré-existentes. Se você não tem mapas geológicos confiáveis, não consegue aplicar a classificação. Em regiões do Norte e Centro-Oeste do Brasil, onde o mapeamento geológico é esparsos ou desatualizados, a aplicação do método se torna problemática. Outro problema é a subjetividade na interpretação das formas de relevo superficiais. Dois analistas podem observar a mesma área e classificar diferentemente se estiverem usando critérios ligeiramente distintos para separar, por exemplo, um planalto de uma chapada ou de uma plataforma.

Além disso, a classificação é essencialmente estática. Ela captura o relevo como resultado acumulado de processos passados e presentes, mas não modela ativamente como o relevo vai evoluir sob pressão de mudanças climáticas ou intervenção humana. Para planejamento de uso do solo em áreas suscetíveis a processos erosivos acelerados ou deslizamentos, essa é uma limitação importante. Nesses casos, complementa-se com análises de susceptibilidade baseadas em fatores como inclinação, litologia, cobertura vegetal e regime pluviométrico.

Aplicações práticas

A classificação é amplamente usada em planejamento territorial, estudos de impacto ambiental, educação geográfica e elaboração de cartas temáticas. O Atlas do Relevo do Brasil, publicado originalmente em 2002 e depois atualizado, é a principal referência cartográfica derivada do método. Organizações como o IBGE e universidades públicas utilizam a nomenclatura de Ross como padrão para mapeamento de meio físico em licenciamentos ambientais e políticas de ordenamento territorial. Para quem precisa acessar os mapas, a versão digital mais acessível está disponível no site do IBGE na seção de atlas temáticos, onde há camadas em formato shapefile e GeoTIFF. Também existem publicações acadêmicas que detalham a metodologia com exemplos regionais específicos. Se você está começando a trabalhar com a classificação, o caminho mais direto é baixar o atlas digital, abrir o layer de complexos morfoestruturais e depois sobrepor o layer de formas de relevo, comparando com a carta geológica do DNPM para validar as interpretações.

Um erro comum de iniciante é achar que a classificação de Ross substitui o mapeamento geológico. Ela não substitui. Ela depende dele. Se o mapa geológico da região que você está estudando é antigo ou tem resolução inadequada, a classificação do relevo herda esses erros. O resultado é uma unidade mapeada de forma imprecisa que pode levar a decisões erradas de uso do solo ou avaliação de riscos geomorfológicos. Por isso, sempre verifique a data e a escala da fonte geológica antes de confiar na classificação resultante. A classificação de Jurandyr Ross continua sendo a referência mais consolidada para o relevo brasileiro, mesmo após mais de duas décadas de uso. Ela não é perfeita, mas é a que melhor sintetiza a relação entre estrutura e forma no território nacional. A chave para usá-la bem é entender que ela é uma ferramenta de síntese, não um produto final. Cada aplicação exige verificação crítica dos dados subjacentes e, quando necessário, complementação com informações específicas da área em estudo.