O segundo governo Vargas: o que realmente aconteceu e como estudar isso sem perder tempo
Getúlio Vargas voltou ao poder em 1951, eleito democraticamente. Seu segundo governo durou até 1954, quando morreu no quartel do Forte de Copacabana. A maioria dos manuais escolares para pelo "nacionalismo econômico" e não explica o resto. Vou tentar ser mais útil do que isso.
O que define o segundo governo de vargas
O núcleo dele é a criação da Petrobras em 1953, mas reduzir tudo a isso é perder de vista que Vargas estava lidando com uma inflação que chegava a 25% ao ano em 1951, um déficit comercial crescente e uma oposição de esquerda e de direita ao mesmo tempo. Ele nomeou João Goulart ministro do Trabalho — um movimento que assustou tanto os militares quanto os empresários que, no fim, foi parte importante do jogo de forças que levou ao suicídio. A Lei de Remessa de Lucros para o exterior também merece atenção. Ela limitava a transferência de dividendos por empresas multinacionais, principalmente norte-americanas. A Petrochemical, a Texaco e a Shell reagiram cortando investimentos. Isso não foi retórica — foi estratégia econômica real, ainda que com consequências que Vargas não necessariamente previu.
O plano de metas veio depois, já no governo Kubitschek, mas a semente estava aqui. Vargas entendia que o Brasil precisava industrializar, mas não tinha capital próprio para tanto. A solução foi atrair investimento estrangeiro condicionado. Na prática, funcionou parcialmente e gerou críticas que persistem até hoje. Eu trabalho com pesquisa histórica sobre esse período há anos e já vi muitos alunos e até formandos cometendo o erro de tratar a crise de 1954 como um evento isolado. Não é. Ela é o desfecho de três anos de pressões estruturais. O que acontece nos últimos meses — a campanha de destituição contra Vargas pela oligarquia paulista, o atentado contra Carlos Lacerda em agosto de 1954, a pressa dos militares para depor o presidente — tudo isso estava montado desde 1952.
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Um detalhe que quase todo mundo esquece: o comando das Forças Armadas na época não era unificado. O Marecal Lott, ministro da Guerra no governo Vargas, tinha uma lealdade ambígua. Ele apoiava o governo, mas também pertencia ao grupo que, dois anos depois, lideraria o golpe de 1964. Essa dualidade explica muita coisa sobre por que os militares não intervieram mais cedo contra Vargas em 1954. Se você está estudando isso para concurso ou prova universitária, preste atenção nos documentos. O testamento político de Vargas, o famoso "caro companheiro", foi lido antes do funeral. Mas o documento mais subestimado é a correspondência entre Vargas e o embaixador norte-americano Lincoln Gordon, datada de julho de 1954. Mostra que Vargas sabia do risco, mas não via saída alternativa.
O legado econômico é o que gera mais discussão. A Petrobras existe, é inegável. Mas o endividamento externo cresceu 40% durante o governo. A inflação não foi controlada. O salário mínimo subiu 100% em valor real no primeiro ano, o que gerou aumento de custos que empresas não absorveram. A industrialização avançou, sim, mas a infraestrutura urbana não acompanhou. Uma coisa que eu aprendi na prática pesquisando arquivos: o IBGE publicou dados revisados em 1997 mostrando que a produção industrial cresceu 18% ao ano entre 1951 e 1954. Isso é alto. Mas o PIB per capita cresceu apenas 3,2% no período. Ou seja, o crescimento existia, mas não era distribuído. Esse gap entre crescimento agregado e bem-estar médio é a chave para entender por que Vargas continua sendo tão debatido.
Fontes primárias recomendadas: o documento "Vargas e a Crise de 1954" editado pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, e a coleção de discursos presidenciais disponível na Biblioteca Nacional digitalizada. Evite resumos de terceira mão. A diferença entre ler o discurso de 1952 sobre autonomia econômica e um paráfrase dele é enorme.