Como interpretar tecido epitelial pavimentoso na prática
A maioria dos estudantes e profissionais começa estudando classificação e localização, mas isso não prepara você para o que vê de fato num laudo ou numa lâmina real. O tecido epitelial pavimentoso é um tema recorrente em citopatologia e histologia, e a confusão entre os subtipos simples e estratificados, plano e cúbico, leva a erros de interpretação que podem ser sérios dependendo do contexto clínico. Vou direto ao ponto: existem dois tipos principais, o pavimentoso simples (uma única camada de células achatadas) e o pavimentoso estratificado (várias camadas, com as superficiais sendo achatadas). A diferença não é só acadêmica. Ela muda completamente como o tecido responde a estímulos, como se adapta a trauma mecânico ou químico, e como você deve relatar achados em amostras.
O pavimonoso simples reveste alvéolos pulmonares, endotélio vascular e mesotélio de serosas. Ele é fino exatamente porque precisa de trocas rápidas. Já o estratificado encontra-se em pele, esôfago, vagina e parte do colo uterino, onde o atrito é constante. As células profundas são mais cúbicas ou colunares e vão se achatando à medida que sobem para a superfície.
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O que observar primeiro no tecido epitelial pavimentoso
Na hora de examinar, o primeiro erro que vejo todo mundo cometer é focar apenas na forma da célula e ignorar a organização estratificação. Uma célula isolada parece plana? Isso não é suficiente para chamar de pavimentoso. Você precisa verificar quantas camadas nucleares existem e se a polaridade celular está preservada. No meu trabalho com análises histopatológicas, já perdi tempo identificando erroneamente um epitélio pavimentoso estratificado parakeratótico como um simples inflamado crônico, porque a atenção estava toda nos infiltrados linfocitários e não na arquitetura epitelial. A correção foi revisar a lâmina com coloração de H&E em aumento maior, percebendo que havia retenção de núcleos nas camadas córneas, o que define parqueratose. Esse detalhe muda o diagnóstico de uma queratose actínica para uma resposta inflamatória reativa.
Outro ponto que os livros raramente destacam com a devida importância: a presença de mitoses. No epitélio pavimentoso estratificado normal, as mitoses estão restritas às camadas basais e parabasal. Se você observar mitoses em camadas mais superficiais, isso é displasia até que se prove o contrário. Já vi casos em que um patologista junior relatou como "hiperplasia benigna" quando na verdade havia displasia de grau moderado porque as mitoses estavam espalhadas por três ou quatro camadas acima da basal. O paciente precisou de reintervenção. Quanto à coloração, o padrão é hematoxilina-eosina mesmo, mas em amostras de citologia cervicouterina, que é onde mais se avalia tecido epitelial pavimentoso, o preparo deve ser bem espalhado e fixado rapidamente para preservar a morfologia nuclear. Células mal fixadas ficam com núcleo borrado e citoplasma encolhido, dificultando a leitura de critérios de_atipia.
Se você trabalha com Papanicolau ou com biópsias, preste atenção também no índice nucleocitoplasmático. Em células pavimentosas normais, o núcleo é pequeno e o citoplasma abundante. Quando há aumento desse índice, geralmente indica processo neoplásico ou pré-neoplásico. Não é regra absoluta, mas é um filtro útil antes de chamar algo de maligno. Um detalhe técnico que economiza tempo: ao avaliar lâminas de tecido epitelial pavimentoso, defina sempre um campo de referência com microscópio de objetiva 40x antes de dar o parecer. Muitas vezes o que parece atípico em um campo isolado é apenas artefato de dobrragem ou sobreposição de células em outro. Correr para o resultado sem essa verificação cruzada gera sobrediagnóstico com frequência.