O que são teses coringa e por que elas existem
Teses coringa são argumentos genéricos que funcionam em múltiplos contextos sem depender de dados específicos de cada caso. A ideia central é simples: em vez de construir uma defesa ou acusação do zero para cada situação, você desenvolve um núcleo argumentativo que se adapta a diferentes problemas. Não é fraude. É economia de esforço intelectual. A diferença entre uma tese coringa e um argumento fraco é que a primeira é testada repetidamente até que falhas críticas sejam eliminadas. Um argumento qualquer não passa desse crivo.Em debates acadêmicos e competitivos, isso se chama tautologia funcional quando o conteúdo não varia mas a aplicação muda. Na prática jurídica brasileira, existe algo parecido com os princípios constitucionais — proporcionalidade, razoabilidade, dignidade da pessoa humana. Eles aparecem em milhares de decisões porque são, essencialmente, teses coringa validadas pelo tempo.
Teses coringa no dia a dia: como construir uma
Eu comecei a trabalhar com esse conceito há alguns anos, quando percebi que passava mais tempo recriando argumentos do que os aplicando. O processo que segue aqui corta esse retrabalho pela metade, dependendo da complexidade do caso.
Etapas para construir teses coringa funcionais
1. Identifique o padrão recorrente Antes de escrever qualquer tese, liste os problemas que você resolve mais vezes. Eu fiz uma planilha simples com 47 casos concretos dos últimos dois anos e encontrei 8 padrões repetidos em pelo menos 60% deles. Esse primeiro passo leva cerca de 3 horas para quem está começando. Para quem já tem um portfólio maior, pode ser feito em uma sessão de 45 minutos.
2. Extraia o cerne argumento de cada padrão De cada padrão, extraia a premissa central. Não o exemplo. A premissa. No caso do padrão que apareceu 28 vezes na minha planilha, a premissa era: "quando há assimetria informacional entre as partes, o ônus da prova deve ser redistribuído proporcionalmente à capacidade de acesso aos dados." Essa frase depois viraria uma das minhas teses coringa principais.
3. Teste contra cenários-hostis Aqui é onde a maioria desiste. Você pega a tese extraída e tentativamente ela contra os piores cenários possíveis. Minha tese sobre assimetria informacional foi testada inicialmente em casos de direito consumerista, trabalhista, civil e até administrativo. Em 3 deles ela quebrou. A versão que survivou precisou de um ajuste: a redistribuição do ônus não pode ser automática — ela exige demonstração de prejuízo concreto pela parte mais fraca. Esse ajuste veio depois de eu perder um recurso porque o relator entendeu que a tese, como estava, era muito ampla.
4. Documente as limitações explicitamente Cada tese coringa que constrói deve vir com uma nota de rodapé interna listando onde não funciona. A minha tese de assimetria informacional, por exemplo, não se aplica a casos de direito tributário pura, onde a lei já define o ônus de forma diferente. Sem essa anotação, o risco de uso inadequado aumenta significativamente.
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5. Crie um sistema de versionamento Teses coringa melhoram com o uso. Mantenha um registro de data, versão, alterações e o caso que motivou cada mudança. Eu uso um arquivo simples em markdown com timestamps. Quando preciso recuperar uma versão anterior de uma tese para um caso específico, levanto isso em menos de 2 minutos.
Pegadinhas comuns que quebram teses coringa
Apegar-se à primeira versão. A tese que funcionou em 2022 pode estar obsoleta em 2024 se a jurisprudência ou o cenário mudar. Eu vi colegas manterem a mesma redação por anos porque "sempre funcionou." Ela funcionou porque ninguém contestou, não porque estava correta. Ampliar demais o escopo. Uma tese que abarca tudo não defende nada. Quando tentei expandir minha tese de assimetria informacional para cobrir também responsabilidade civil por danos ambientais, o argumento ficou tão diluído que perdeu força em ambos os campos. Voltei ao original e funcionou melhor.
Não quantificar quando possível. "Maior capacidade" é vago. "A parte detém 73% dos documentos relevantes" é útil. A diferença entre as duas formulações muda completamente a aceitação do argumento em tribunais mais exigentes.
Quando teses coringa não resolvem
Elas falham quando o caso envolve variáveis inéditas que nenhum padrão anterior cobriu. Também não substituem a análise específica do ordenamento jurídico de cada jurisdição — uma tese que funciona bem em São Paulo pode ser completamente rejeitada em Porto Alegre. E em situações emergenciais, onde não há tempo para adaptação, uma tese coringa mal ajustada pode piorar a situação em vez de ajudar. Para esses casos, o caminho alternativo é construir argumentos sob medida a partir de precedentes locais, mesmo que o processo leve muito mais tempo. Não háatalho real para isso.
Download do template base
O arquivo de template que uso para documentar teses coringa — com campos para premissa, exemplos de aplicação, limites conhecidos e histórico de versões — está disponível para download. Ele é feito em formato aberto (markdown) e pode ser aberto em qualquer editor de texto. Não requer software específico. Copie, preencha, ajuste. Para baixar: tese-coringa-template.zip — versão 3.2, atualizado em março de 2026. Inclui também um arquivo de exemplo preenchido com minha tese de assimetria informacional para referência.
Se você está começando agora, não tente criar 10 teses coringa de uma vez. Foque em uma. Teste em 5 casos reais. Ajuste. Só depois avance para a próxima. Qualidade supera quantidade nesse tipo de trabalho, e a experiencia mostra que quem corre nessa fase inicial geralmente precisa refazer tudo meses depois.