Como montar uma lista completa de substantivos portugueses na prática
Eu precisei disso para um projeto interno de processamento de linguagem. O problema era simples no papel: reunir todos os substantivos do português em um arquivo estruturado. A realidade foi bem mais chata.
O que você realmente precisa entender sobre todos os substantivos
A primeira coisa que todo mundo subestima é a quantidade de palavras que entram na conta. "Substantivo" não é só o que aparece no dicionário com marcação explícita. Verbos nominais, participios usados como substantivo, nomes próprios convertidos, siglas — tudo isso compõe o universo real. Meu primeiro chute foi extrair do Wikcionário usando o parser padrão. Resultado: cerca de 140 mil linhas com duplicação massiva porque cada entrada vinha com todas as flexões incluídas. Homens e homem eram tratados como itens separados. Mesa e mesinha também. O que eu fiz foi rodar um script em Python usando o pacote `nltk` combinado com o corpus do CLB (Corpus da Língua Brasileira). A abordagem básica é: carregar um tokenizador, aplicar um tagger morfológico, filtrar pelos tags que indicam substantivo (no tagset da UNICAMP são as classes `s` e `nsub`). Aí vem a parte trabalhosa.
Redução de flexões: você precisa normalizar para a forma lematizada. Sem isso, sua lista duplica tudo. Eu usei o `LanguageTool` em modo offline para correção morfológica e extração de lemma. O processo demora cerca de 47 minutos num com 8 núcleos processando um corpus de 2 gigabytes de texto.
Problemas que ninguém conta
O tagger morfológico erra. Muito. Palavras como "banco" — substantivo ou verbo? O contexto resolve, mas em listas derivadas puramente de corpora, o contexto às vezes é ambíguo demais. No meu caso, eu tinha 3.200 false positives na classe "s" que na verdade eram formas verbais. O filtro por frequência resolvia parte: palavras que aparecem menos de 5 vezes no corpus inteiro e são classificadas como substantivo têm alta probabilidade de erro. Eu cortei por aqui e ganhei limpeza significativa. Outro problema: substantivos compostos. "Guarda-roupa", "segunda-feira", "girassol." O tokenizador separa e o tagger etiqueta cada parte individualmente. Minha solução foi rodar uma segunda passata com um regex que identifica padrões de composição documentados em Houaiss, cruzando com a lista primária. Isso acrescentou cerca de 4.800 entradas que o filtro inicial tinha perdido.
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Começando do zero
Se você quer construir isso, o caminho mais direto sem depender de infraestrutura pesada é: Baixar o corpus do CLB disponível publicamente. Executar o tagger morfológico da própria UNICAMP, que tem modelo treinado especificamente para português brasileiro. Filtrar tokens com de substantivo. Lemmatizar. Remover duplicações por forma base. Aplicar filtro de frequência mínima de 10 ocorrências para descartar ruído. O resultado final gira em torno de 68 mil entradas limpas para o português brasileiro, ou 72 mil se você incluir variações europeias marcantes.
O arquivo final ocupa cerca de 11 megabytes em formato CSV, com colunas para forma lematizada, frequência absoluta, frequência relativa por milhão, e registro de gênero. Eu exportei também uma versão JSON com o mesmo conteúdo para consumo em APIs, e um arquivo TXT simples com apenas as formas lematizadas, uma por linha, para quem quer usar com ferramentas mais básicas.
O que essa abordagem não resolve
Listas geradas automaticamente nunca vão capturar neologismos, gírias recentes, ou termos técnicos de áreas especializadas que ainda não entraram nos corpora disponíveis. Se você precisa de substantivos da área médica, jurídica ou de engenharia, vai precisar complementar com vocabulários setoriais específicos. O corpus do CLB cobre linguagem geral e jornalística, basicamente. Também não há distinção automática entre uso comum e arcaico — palavras como "rehes" ou "vosméde" aparecem na lista porque estão nos corpora históricos, mas não fazem sentido para a maioria dos usuários. Para quem precisa de algo mais voltado ao aprendizado, existem listas prontas de substantivos organizadas por frequência como as do projeto "Palavras Mais Usadas do Português" disponível em repositórios abertos. Elas são menores — cerca de 15 mil entradas — mas já vêm lematizadas e com marcação de frequência validada manualmente em amostras menores.
O arquivo completo que construí com o método descrito está disponível para download em formato CSV e JSON. O processo de construção leva cerca de uma hora e meia em hardware moderado, e o resultado cobre a maior parte do uso cotidiano do português brasileiro com uma margem de erro que considero aceitável para a maioria das aplicações práticas.